Tags

, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Para quem estava ansioso pela estréia de Alice no País das Maravilhas aqui no Brasil, ontem foi o grande dia. A espera era por um Jhonny Depp mais que excêntrico. Uma direção inovadora de Tim Burton. Uma Helena Bonhan Carter se superando, e uma Alice que fizesse jus ao seu papel. O que tivemos no fim das contas foi um misto disso tudo, que acabou batendo recordes de bilheteria logo na estréia. Mas o fato mais importante de tudo foi o encontro entre Tim Burton e Lewis Caroll, ambos distantes no tempo, mas próximos na habilidade de encantar. Um chegando a ser o equivalente ao outro nas obras que desenvolveram, o primeiro no cinema e outro na literatura.

A propaganda feita em torno do filme foi tão grande que sua estréia chegou a ser adiada, por que especularam que o público deveria ser maior e que deveria abranger todo o território ao mesmo tempo. O problema disso tudo é que os brasileiros insistem em achar que coisas coloridas demais é pra criança, com isso algumas cidades tiveram a infelicidade de receber apenas o filme dublado, desvalorizando o desempenho de excelentes atores que estavam por trás da voz de alguns animais fantásticos.

Não digo que Alice seja uma adaptação, mas uma tradução (sempre não literal) do livro para filme. Aqui temos uma Alice diferente, vivendo uma história diferente, em um momento diferente daquele presente no livro. Ou melhor, livros, porque esse filme é baseado nos dois livros de Caroll, Alice no País das Maravilhas e Alice no País do Espelho e o que Ela Encontrou por Lá. Aqui a protagonista está com 19 anos e retorna ao país fantástico do submundo. Lá ela tem que fazer as coisas voltarem ao normal, e restituir o poder da Rainha Branca, “coreografada” por Anna Hathaway, a bela . Mas a história não começa aqui, voltemos ao princípio.

A Alice de Tim Burton está prestes a se casar, ou melhor, de ficar noiva com um burguês tipicamente nojento. Antes disso o que vemos são cenas da menina ainda criança com seu pai, onde ela aprende que as pessoas loucas são as mais legais, e porque não dizer, melhores, e de fato é. No dia do noivado, Alice se ver diante do impasse entre fazer o que deseja e o que a sociedade quer. Nessa hora o Coelho Branco aparece sinalizando um atraso e Alice ao persegui-lo cai no buraco. Quando tudo parece ser novidade para a garota, os habitantes fantásticos acham que se trata da Alice errada, mas isso logo é resolvido.

Quem acha que Tim Burton é ingênuo, se engana plenamente. O diretor que é capaz de dar vida ao impossível, cria também situações tensas, irônicas e subtendidas, e quem quiser que se desdobre para descobri. Outro ponto positivo desse filme é essa de ele ser um pouco idiossincrático, permitindo diversas interpretações. Na obra original, a garotinha era ninguém menos que Alice Liddell, a paixão do autor. Lewis foi acusado de interesse sexual pela garotinha. A história no país maravilhoso foi feita para ela e suas irmãs (Lorina e Edith). As interpretações mais criativas dizem que o fato de Alice ficar encolhendo e espichando, é o desejo do autor de que a menina crescesse, seguido da frustração de isso não acontecer, e então, um cair na realidade. Aproveitando isso, Burton, trás aqui uma atriz de rosto enigmático, a bela australiana Mia Wasikowska, usando roupas sensuais, numa espécie de linha tênue entre a infantilidade e seu amadurecimento.

Os elementos de maior peso do filme, trabalham em conjunto, cada um respeitando o espaço e papel do outro. Quem achava que o Chapeleiro Maluco ia ser uma espécie de herói, se contentou vendo ele aparecer apenas quando era devido, deixando o heroísmo para a garota título. A parte mais cômica, sempre presente no desenrolar das cenas, ficou por conta da Rainha Vermelha e sua obsessão por coisas grandes, especialmente, partes do corpo, ou ainda por sua constante frase: “Cortem-lhe a cabeça!”.

Há que se ressaltar que há algumas diferenças entre o livro e o filme. O Chapeleiro que no livro aparece como figura doce e assexuada, no filme desponta como um enigmático, excêntrico e apaixonado, que tenta conquistar Alice com seus olhares. Talvez para Tim Burton, ele seja o alter ego do autor. Já a Rainha Vermelha interpretada por Helena Bonhan Carter (mulher do diretor, que foi tachada por “velha demais” para fazer Alice, seu papel de desejo), resultou da fusão de duas personagens do livro – a Rainha de Copas e a Rainha Vermelha. Como Valete de Copas temos Crispin Glover, que interpretou o personagem satirizando Willy Wonka em Deu a Louca em Hollywood.

O diretor mostra seu profissionalismo e originalidade ao transmutar em imagens as coisas criadas por Lewis, desde conceito até as palavras inventadas pelo próprio escritor. Entre elas, o terrível “jabberwocky” e a dança maluca (fudderwipping), esta última tão bem materializada por Burton, através de Jhonny Depp, incorrigível. Algo muito interessante também é a referência a Edgar Allan Poe (de quem o diretor é fã), utilizando do sombrio para complementar o fantástico. Atente nesse ponto, para o gato risonho com a habilidade de evaporar, que é de dá arrepios e levantar de suspeitas.

Ainda há muitos nomes a mencionar, como da roteirista Linda Woolverton, que ver esse filme como uma continuação daquela historinha que (só) parece infantil, escrita por Caroll. Quem acha que os atores bons são só aqueles que aparecem em pessoa (mesmo cobertos de maquiagem) se engana, por trás das vozes dos bichinhos temos um elenco de ponta: Matt Lucas, Alan Rickman, Timothy Spall, Michael Sheen, Christopher Lee e Stephen Fry.

Somos presenteados também com um fotografia e uma direção de arte melhor ainda. A trilha sonora, de Danny Elfman, também ajuda a deixar o filme mais pop, agradando a muitos (e desagradando outros), entre os artistas que sonorizam o filme estão Avril Lavigne, 3OH!3, Franz Ferdinand, Metro Station, Tokio Hotel, entre outros.

Este é mais um filme grandioso, colorido demais, como foi (e é) Avatar, mas com um diferencial. O primeiro é que este desbancou o anterior logo no primeiro dia. E outra que o tema abordado aqui é social e não ecológico, permitindo uma maior identificação. Alice tem que ir contra o que já está escrito no Oráculo, para agir por suas próprias escolhas e produzir um efeito tão esperado quanto o anterior já premeditado.

No fim mais uma vez temos a receita de Burton: uma pitada de sombrio, sempre característico do diretor; uma porção de Jhonny Depp, seu favoritinho; uma dose de Helena, sua esposa; um punhado de humor e ironia; meia lição de moral, ensinada nitidamente por Alice ao final; Resultando assim num filme maravilhoso, saído do forno (ou estúdio), a mais nova obra de referência, e não por acaso, Alice no País de Tim Burton.