Os Dragões Não Conhecem o Paraíso

Os Dragões Não Conhecem o Paraíso
Os Dragões Não Conhecem o Paraíso - Caio Fernando Abreu

Provavelmente Caio Fernando Abreu ao escrever seu primeiro conto aos seis anos de idade não imaginava a contribuição que um dia traria para a literatura brasileira. Nascido em Santiago do Boqueirão, no Rio Grande do Sul, acabou sendo influenciado por uma época transitória de muita industrialização e novidades sociais, desde doenças até novos meios de comunicação entre muitas outras estranhezas que influenciam o intelecto e a inspiração de autores. Os Dragões Não Conhecem o Paraíso (idem, 1988) foi um dos últimos livros publicados em vida, e é uma amostra do cunho literário desse autor.

Trata-se de um livro de contos que somam 13 histórias, cada uma particular e independente, mas também assume certa consonância em que nota-se uma necessidade de se associar as histórias, seja em situações que se explicam ou em personagem que se repetem, tendo homônimos ou não. O tema geral é o amor que se emaranha com sexo, morte, abandono, alegria, solidão, medo, loucura e memórias. Não se sabe ao certo se o livro trata-se de um todo fragmentado ou fragmentos de um todo. É muito difícil não se tocar ou se identificar com o que Caio Fernando escreve.

O autor é audacioso, e faz uma literatura diferente, sensível e sincera, onde exprime sua coragem e não se priva de revelações e pessoalidades. A excentricidade está presentes até em seus títulos. O livro começa com “Linda, Uma História Horrível” e se desenrola até encerrar com o conto que nomeia o livro. Merecem destaque “O Destino Desfolhou” que exprime uma compilação de sentimentos causados por situações desagradáveis em mentes adolescentes; “O Rapaz Mais Triste do Mundo” que figura cenas reflexivas sobre o que é ser jovem, e o produto final de uma juventude, seja ela bem ou mal aproveitada, dependendo do ponto de vista, é encantador ver a reflexão espelhar entre um jovem de 20 e um homem de 40 anos; “Os Sapatinhos Vermelhos” que de forma cômica satiriza um título ingênuo e infantil, fazendo dele uma história sexualmente selvagem, onde os instintos do homem são vistos normalmente; e por fim destaque ao excêntrico “Pequeno Monstro” que ilustra a confusão de muitos em fase adolescentes e as perturbações sofridas pelas mudanças dessa fase, sejam elas físicas ou psicológicas.

Não espere desse autor nada convencional ele não se priva a escrever textos lineares e a cada texto trás um estilo novo, seja na estrutura, no tema ou no próprio sentido. Sua linguagem é repleta de gírias, figuras de linguagem e tudo que pode ser considerado recurso lingüístico usável ou não. Eufemismos, metonímias, cacofonia, antíteses, rimas, hipérboles, personificações, metáforas e tudo que se pode fazer com palavras. Tudo é uma brincadeira bonita que dão aos contos um ar poético e encantador. Note a estrutura de “A Beira do Mar Aberto” que possui um começo e fim totalmente abertos e é composto por quatro páginas de um parágrafo único sem nenhum ponto final, é literalmente “de tirar o fôlego”.

Em suma é um livro tocante e marcante, onde prosa se confunde e se mistura com poesia. Caio Fernando consegue poetizar até coisas esdrúxulas e impoetizáveis. Um livro para ser lido e relido, interpretado e reinterpretado. Nada é o mesmo em uma segunda leitura, e esse romance fragmentado mostra bem isso.

Caio Fernando Abreu

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3 comentários

  1. C.F.A.: revolucionário das palavras. Empunha-as na ponta da caneta fazendo verbo os sentimentos sinceros.

    Bela escolha.

    Um pouco mais d’ele: “p.s.: Te escrevo, enfim, me ocorre agora, porque nem você nem eu somos descartáveis. E amanhã tem sol.”

    Abraço,
    JK.

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    • Jones,
      Realmente me encantei pela habilidade dele com as palavras, um artesão exímio.

      Uma bela citação essa. Nitidamente nota-se a essência de C.F.A.

      Abraços

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