A Fita Branca (Das Weisse Band – Eine Deutsche Kindergeschichte, 2009)

O período que antecedeu a Primeira Guerra Mundial não foi menos tenso que seu pós. O ambiente já era marcado por um clima tenso e obscuro. É nesse ambiente que se desenvolve A Fita Branca, filme do diretor e roteirista austríaco Michael Haneke – a quem devo um pedido de desculpas pela minha última resenha de um de seus filmes. Este foi indicado ao Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro, porém inexplicavelmente perdeu para o argentino O Segredo de Seus Olhos. No entanto faturou o Palma de Ouro no Festival de Cannes.

O cenário do filme é uma aldeia alemã, no ano de 1913. E tudo começa e se desenvolve em torno de assassinatos e “acidentes”. Os personagens (que são muitos)  compõem um modelo social hierárquico e patriarcal, onde os homens reinam soberanos sobre mulheres e crianças (preste atenção nestas). Partindo dessa hierarquia temos personagens destacáveis: o barão, o médico, o professor, a parteira e os empregados. Os “acidentes” seguem um padrão incomum e cheio de mistério. O médico cai do cavalo, o filho do barão é espancado, o da parteira tem os olhos furados por alguém, destacando ainda que este sofre de problemas mentais; isso só pra citar alguns.

O título, aparentemente harmonioso, esconde um amontoado do que parece ser a essência maligna que compõe o homem, inferindo sobre ele um caráter perverso. Para quem pensa que tudo é mero acaso neste filme de Haneke, devo dizer que cada mínimo detalhe é minuciosamente calculado por ele. Desde as cenas com enquadramentos excêntricos até a linguagem visual implícita que torna o filme ainda mais complexo. A exibição em preto e branco junto com a excelente fotografia faz do filme uma metáfora fabular do lobo em pele de cordeiro, o horror escondido pelo belo.

Outro detalhe é a narração da história, que é feita por um personagem secundário, mas não menos estranho, trata-se do professor da aldeia, na época com 31 anos. Michael Haneke trás nesse filme um apanhado de temas obscuros e polêmicos: incesto, repressão e abuso sexual infantil, religião, igualdade de gênero, e nitidamente a guerra. O que torna tudo mais estranho é o ar de cumplicidade que paira sobre as crianças (que não são poucas) da aldeia, há a impressão, durante boa parte do filme, de que todas elas estão tramando uma revolta (ou seria guerra?) contra os adultos repressores. Isso figura um questionamento: Todas as crianças são inocentes? Em se tratando das que estão no filme, é difícil responder afirmativamente. As crianças não são apenas os personagens principais, mas são também os responsáveis pelas melhores atuações do filme. O elenco é marcado por Leonard Proxauf, Christian Friedel e Leonie Benesch.

Michael Haneke não é um diretor qualquer, pode ser adjetivado como um excêntrico brilhante. A Fita Branca faz jus às suas indicações e deve sim ser assistido e comentado. É um filme que ultrapassa momentos temporais específicos. E mesmo que cada um tenha sua própria interpretação, atribuo aqui uma moral para o filme: As guerras nascem dentro de casa, causadas pelas relações mal sucedidas e não resolvidas.

Leia minha resenha de Violência Gratuita (Funny Games U.S., 2007), outro filme de Michael Haneke: AQUI.

Trailer:

Um comentário

  1. O Ademar falou tudo. A ironia deste filme é muito grande. Por causa do título e da fotografia que remetem à inocência e à calmaria. A fita branca é utilizada pelo pastor para lembrar a pureza das crianças. Mas crianças são puras mesmo? Michael Haneke parece acreditar que não. Ao final do filme, paira a dúvida: mas quem cometeu os crimes brutais no pequeno vilarejo? Foram as crianças? Talvez sim, talvez não. O que importa é que foi naquele ambiente que elas cresceram: uma sociedade conservadora, patriarcal e protestante ao extremo. Ingredientes que serviriam para o preparo do bolo chamado Nazismo que viria dali a pouco mais de uma década. De forma implícita, Haneke aponta para o futuro, afinal são aquelas crianças que serão adultas nas décadas de 1930 e 1940.

    Contudo, mais do que mostrar as sementes do Nazismo e mais do que falar de um momento histórico, esse filme é universal porque disseca a maldade humana, a mediocridade, a inveja e a torpeza, características que não são únicas dos alemães, mas do ser humano.

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