Pobre Gente – O Duplo

O russo Fiódor M. Dostoiéski tinha um apreço muito grande pelas classes muito baixas. Talvez fosse um reflexo de sua vivência, mas o que importa é que este foi um dos temas que mais teve espaço em suas obras. Neste livro temos duas novelas curtas, que se distinguem apenas na técnica de produção, pois o tema e plano de fundo são praticamente os mesmos: a pobreza. Nesse caso a pobreza exacerbada demais.

Em Pobre Gente (que poderia também ser facilmente chamado de Gente Pobre), Dostoiéski nos presenteia com sua primeira novela, escrita em 1844, e contada através de cartas trocadas entre os personagens principais: Makar Diévuchkin e Varvara Dobrossiélov. Ele é um escrituário de repartição pública, que mal ganha o dinheiro do seu sustento. Ela é uma moça órfã, parente distante de Makar. Eles desenvolvem um relacionamento de amor, parentesco e cumplicidade. Cada epístola é composta de grande técnica e carrega um forte traço psicológico dos personagens. É impossível não se comover com a situação dessas “pobres” criaturas. A forma da narração (através de cartas) nos permite que sejamos também cúmplices dos personagens, entrando em seu íntimo psicológico, e funciona até como uma brincadeira de caráter ético, de ler a correspondência alheia.

O Duplo foi escrita em 1846, e para Dostoiévski esta seria sua obra-prima, nem imaginava ele que somente muito depois é que viria sua Opus Magnum “Crime e Castigo”. O herói desta novela também é um empregado de repartição pública. Goliádkin sofre de uma “mania de perseguição” e para ele todos ao seu redor são inimigos. Este quadro psicopatológico leva o personagem a beira da loucura, e talvez às suas vias de fato. O autor se usa dos novos estudos psicológicos que surgiam na época (principalmente o desdobramento patológico da personalidade). De todos os inimigos que perseguem Goliádkin, o que mais o atormenta é seu homônimo, seu duplo, um ser completamente igual a ele, que segundo suas interpretações surgiu para lhe tirar tudo que tem, sua casa, emprego e amigos. Como se não bastasse ele ser perseguido por todos, agora estava sendo alvo dele mesmo. A história pode parecer confusa, mas é um ótimo texto para estudos psicológicos.

Dostoiévski e sua predileção pelos marginalizados é também observada em Humilhados e Ofendidos, que só pelo título já demonstra o teor do seu conteúdo. Além da perfeição da escrita (que para alguns é complicada demais), Pobre Gente – O Duplo, assim como as demais obras do autor, se destaca pela força dos seus personagens que são psicologicamente marcantes e verossímeis.

Leia meu comentário sobre Humilhados e Ofendidos: AQUI.

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