Rumo a Outro Verão

Sim era a palavra predileta de Grace; poupava tantas explicações; normalmente, quando você dizia Não, as pessoas pediam explicações, esperando que fale, argumentando com você, para provar que seu Não deveria ter sido um Sim.
– Grace Cleave

Livros com traços autobiográficos têm a excelente função de nos fazer conhecer seus autores. São também ótimas obras introdutórias, pois se torna mais fácil entender o que um autor escreve se o conhecermos primeiro. Janet Frame incrustou sua vida, ou melhor, uma parte dela nas páginas de Rumo a Outro Verão (Towars Another Summer, 1963). E usando-se de extrema complexidade literária nos obriga a pensar e viajar por seu mundo metafórico.

Essa complexidade já começa com a narrativa, que ora é narrada por em terceira pessoa, ora é narrada pela própria protagonista, Grace Cleave, e isso sem nenhuma divisão aparente.

Grace é uma escritora neozelandesa (alter ego de Janet Frame) que vive em Londres, “aprisionada” em seu apartamento. Rodeada por livros e com a companhia de sua máquina de escrever, ela escreve seus romances, mas em contrapartida se torna um ser anti-social, que é segundo ela, não-humano. A personagem se mostra introspectiva, mas também introvertida, tímida, indecisa, passional e sonhadora.

A autora entra no próprio romance para fazer com que as metáforas externas se tornem internas como se criadas pela personagem, que é ninguém mais que a própria Janet Frame. Trata-se de uma espécie de autoprojeção, que se confirma pelas circunstâncias em que foi escrito. Em 1963 Janet vivia em Londres e escreveu este romance, que só foi publicado depois de sua morte, por determinação dela mesma, que o considerava pessoal demais. E isso reforça a ideia de que Rumo a Outro Verão (Planeta, 288 págs.) seja talvez, mais que um romance: um diário.

Tudo se passa em um fim de semana, que Grace é convidada a passar na casa de um amigo jornalista casado com uma neozelandesa. O casal Philip e Anne, juntamente com seus filhos Sarah e Noel, recebe Grace de forma hospitaleira. Mas algo incomoda Grace, e só aos poucos ela descobre que a causa dessa inquietação é ela própria. O que surge como uma metáfora se repete tanto na mente dela, que acaba tomando por verdade; começa se comparando a um pássaro migratório e para si acaba se tornando um de fato. E ainda é capaz de questionar como os outros não percebem.

O livro é também repleto de referências à literatura clássica e neozelandesa, à música e às artes. Há ainda um amontoado de figuras lingüísticas (eufemismos, comparações, metáforas, etc.), divagações, digressões e flashbacks. Talvez o livro não agrade tão facilmente por causa da linguagem e da forma como foi escrito, que permite comparar Janet Frame a clássicos literários, e porque não dizer que seria também comparável em complexidade e introspecção à Clarice Lispector?

Dificilmente alguém não se identificará com as cenas de infância narradas por Grace. Este romance de exílio é além de tudo um chamado para o busca de si mesmo, na luta contra medos e temores. É falando de origens, nostalgia e retorno que somos convidados a voar com Grace rumo a outro verão.

Anúncios

4 comentários

  1. Nao sou muito fã de livros ditos “literários”. No entanto esse, em especial despertou minha curiosidade (até porque ganhei ele num sorteio aqui mesmo no Cooltural, rs).
    O que diser do livro?…
    Fantástico, Incrivel, enfim… Muito bom.

    Me indentifiquei MUITO com a Grace Cleave, pois assim como ela me perco em meus próprios pensamentos; nao sou muito bom com relações interpessoais, enfim… bem antisocial.

    Entrou na minha lista de favoritos.

    😄

    Curtir

  2. Curioso!
    Pesquise por Alice Sebold. Os três livros dela são incríveis. Mas especialmente o chamado “Sorte” é autobiográfico. Lembrei dele lendo esta sua resenha!

    Abração!

    Curtir

  3. Eu estava a procura de livros escritos por mulheres e me apareceu esse aqui. Fiquei mais curioso para lê-los depois de sua resenha. Espero um dia conseguir. haha

    Att,
    decaranasletras.blogspot.com

    Curtir

    • Oi Pedro,
      Que vergonha que você encontrou essa resenha antiga. Mas bem, vamos lá. Esse livro foi uma leitura muito bacana na época. Foi uma leitura fora da zona de conforto do que eu lia a época e lembro que me causou uma sensação muito boa de nostalgia e tudo mais. É um livro que eu gostaria de reler se não tivessem tantos na lista pela frente.
      Espero que consiga ler. 😉
      Abraços

      Curtido por 1 pessoa

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s