O Livro de Eli (The Book of Eli, 2010)

Filmes de época agradam muito a determinado público, mas é o futuro que desperta a maior curiosidade das pessoas. Os desastres que acontecerão daqui a muitos (ou não) anos, sejam eles de causas naturais ou proféticas, intrigam as pessoas e por vezes vêm acompanhados de efeitos especiais que enchem os olhos, e geram certo receio, que por vezes se torna medo. Neste filme dos irmãos, Albert e Allen Hughes (Do Inferno), o cenário é um pós-2012, numa Terra quase que desabitada, Eli (Denzel Washington) vagueia em uma única direção, o Oeste. De cara já temos isso, mas o que está acontecendo? Temos que assistir todo o filme para descobrir. Eis aí uma fisgada de mestre. O Livro de Eli surge assim como o mais novo filme Cult.

A Terra se encontra praticamente destruída, mas o filme não se preocupa em explicar o que aconteceu, diz apenas ter sido uma guerra, na verdade, uma grande guerra. Aparentemente só existe Eli, que é uma espécie de sobrevivente nômade, aos poucos vemos que existem outras pessoas que sobrevivem de forma inacreditável, como selvagens, lutando por mais um dia e disputando coisas que hoje consideramos supérfluos, como um vidro de xampu. Eli é o portador de um livro, ao qual ler todos os dias. Nele tem a esperança de um futuro próspero, e isso se torna seu propósito de vida. Mas não por acaso que faz tudo isso, ele segue um chamado, segundo o personagem uma voz o guia por seus caminhos.

Para quem acha isso familiar devo logo dizer que é isso mesmo, trata-se da voz de Deus, e o livro que ele carrega e ler todo dia é a Bíblia. Mas o que isso tem demais? Explicando: é que nesse futuro inóspito, a Bíblia que é o livro mais difundido atualmente no mundo se tornou raro, ou melhor, raríssimo, existindo apenas um exemplar, o de Eli. Sim, mas o que isso tem demais? Nada, não fosse o fato de que há outra pessoa interessada no livro e ai começa o conflito que irá gerar o clímax. Carnegie, interpretado por Gary Oldman, é um espécie de xerife totalitário que comanda um vilarejo inóspito gerido por suas duras leis. Ele possui um bando de mercenários que fazem uma espécie de busca pela face da Terra, a procura de um livro especial, que nada mais é que o livro sagrado que Eli carrega consigo.

Aqui podemos abrir um tópico sobre a discussão religiosa do filme, que chega a ser resumida por uma única palavra: idiossincrasia. É que a linha que divide um pró e um contra é tênue demais. Por exemplo, enquanto Eli ver no livro uma esperança de restituição do mundo, Carnegie ver uma arma de manipulação que têm o poder de encantar e controlar a todos os que ainda vivem. Lógico que num impasse desse o enfoque maior seria para o lado de Eli, não apenas pela polêmica que causaria se fosse o contrário, mas também porque ele é o protagonista e o contrário seria uma anormalidade dos finais onde tudo termina bem.

O roteiro de Gary Whitta agrada à maioria, mas deixa alguns amantes deste tipo de filme um pouco indignados por esse apelo religioso. Não quero dizer aqui que o filme seja ruim, pelo contrário ele é até muito bom. O que acontece que é falando a verdade vai ter gente ignorando-o totalmente. Um ponto duvidoso, que chega a ser negativo no roteiro, é o fato de nesse filme as Bíblias estarem extintas. Muito difícil de acreditar, pois é possível encontrar esse livro até nos ambientes mais improváveis. Para os mais conspiratórios é possível até fazer um anagrama irônico com o título original, The Book of Eli para The Book of Lie (o livro da mentira).

As cenas são dignas dos filmes estrelados por Denzel Washington, e tendo Gary Oldman como coadjuvante é de se esperar um “duelo” de titãs. Oldman já é bem conhecido pelo público, e esse novo personagem dele mescla a excelência de outros dois por ele vividos: Comissário Gordon (Batman) e Sirius Black (Harry Potter). Nenhum rouba a cena do outro, o que temos são atuações compassadas dignas de indicação ao Oscar (pelo menos para Oldman). No elenco é possível ainda identificar sem muitos exageros, Mila Kunis, Michael Gambon, Jennifer Beals, Evan Jones e Ray Stevenson.

A fotografia (ótima por sinal) é responsável por passar as sensações que emanam do filme, tudo parece monocromático. Uma angústia toma conta de quem ver todo aquele cenário sem vida. Nessa luta entre esperança e controle mundial, caminhamos (sem cansaço) até o final do filme que surpreenderá até o cinéfilo mais sagaz, e vai deixar qualquer um com vontade de ver todo o filme de novo. Eis aqui o fechamento com chave de ouro. Se fomos fisgados logo no início pela falta de explicação, ao final somos presenteados e fisgados novamente para vejamos tudo de novo. Curiosamente o primeiro livro impresso pela máquina de Gutemberg foi uma Bíblia, notem ao final uma referência e homenagem que fazem a isso.

3 comentários

  1. Lendo mais uma maravilhosa crítica aqui no Cool, me deparo com uma questão polemica: Até que ponto a igreja católica ainda exerce sua influencia nas mais grandiosas obras voltadas para o publico pop como o cinema e a musica?
    “O Livro de Eli” deixa claro que toda a questão religiosa que prega o poder de Deus na terra é ainda uma forte potência.
    Sim, digo potência, afinal religião é a terceira maior fonte de corrente econômica em todo mundo… Mas polemicas à parte, volto ao filme.
    É, sem duvida nenhuma, uma das melhores fotografias vistas na atualidade… A obra ganha um aspecto velho e ligeiramente meio podre com o excesso do amarelado e toda a cenografia presente.
    Os atores estão, sem surpresas, maravilhosos em seus papeis, bastante destaque para o cada vez melhor e versátil Gary Oldman…
    Se não fosse uma mensagem subliminar totalmente descarada e pretensiosa, o filme seria realmente perfeito, mas como dizem: não se pode ter tudo na vida…

    Parabéns pela excelente visão do filme e me desculpe se me aprofundei um pouco na visão religiosa presente no comentário… rs

    Abraços,

    Gustavo Randazzo

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  2. Achei este filme fantástico!!! Digo que é o melhor até agora do ano (considerando os filmes que chegaram em 2010 nos EUA)…

    E para quem diz que é um filme muito religioso, faço da suas palavras a minha: ” Eli ver no livro uma esperança de restituição do mundo, Carnegie ver uma arma de manipulação que têm o poder de encantar e controlar a todos os que ainda vivem.”

    Impecável tecnicamente.
    Filmaço!!

    Filipe Ferraz
    http://www.cinemmaster.wordpress.com

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  3. Gostaria de continuar a ler seus comentários desde que falasse apenas do que você acha a respeito dos aspectos técnicos, da produção, direção, etc., e porque não, também dos seus sentimentos a respeito da história. Não gostaria, entretanto, de conhecer antecipadamente os detalhes que são revelados durante a trama, e menos ainda no final.
    A respeito do O livro de Eli, se já não tivesse visto, diria que v. matou uma parte do prazer que costumo saborear decifrando aos poucos as mensagens que eventualmente um filme desses possa conter.
    Obrigado e parabéns pelo site.

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