As Sete Sombras do Gato, de Jeanette Rozsas

Sabe quando nos deparamos com um livro que nos surpreende extremamente? Pois é, esse livro de Jeanette Rozsas é capaz disso e algo mais. E posso explicar por que. As Sete Sombras do Gato (2008) chega, brinca com os sentimentos e emoções, nos põe medo e se assume com quase todos os elementos literários possíveis. Algo que parece experimental, mas que funciona perfeitamente bem. A autora usa de sua experiência para nos presentear com uma bela narrativa.

O livro é complexo pelo fato de abordar vários temas das mais diversas formas, porém não é difícil de entendê-lo, pois para isto basta um pouco de atenção, que nem é preciso se esforçar pra conseguir. O livro por si só já prende o leitor. Tudo começa com a investigação de um suicídio macabro. O Delegado José Josafá ao investigar esse caso sinistro, onde a única testemunha é um gato, ver sua vida mudar por completo. Com pena do gato, que se chama Lúcifer, que não tem onde ficar nem um dono que o cuide, o Delegado o leva pra casa, e o que seria apenas um gesto de caridade acaba por se tornar um belo presente para sua amada esposa Yolanda. Porém o gato parece carregar uma maldição, ou talvez ele mesmo seja a personificação de quem o nomeia. E isso gera o conflito desse romance que nos leva para um patamar mais alto do que a simples realidade.

Movido pelo efeito da entrada de Lúcifer em sua vida, o Delegado se ver diante de uma situação totalmente nova, onde coisas começam a acontecer, coisas começam a mudar, inclusive sua vida e sua forma de ver o mundo. Quem já assistiu o filme Caso 39 (resenhado por mim AQUI) vai se familiarizar com o que acontece com as pessoas que se aproximam desse gato. É difícil falar desse livro sem soltar algum spoiller, pois aqui uma coisa leva a outra. O machismo está estampado em todas as páginas, a troca de mulheres do Delegado, que de Yolanda passa para Cordélia que passa para Gioconda e assim vai. Todas as mulheres entram em suas vidas como se fossem únicas, mas na prática não é o que acontece, pois a condição de homem parece falar mais alto.

Além do machismo, Jeanette se aventura a nos contar com e sobre amor, mistério, crueldade e sedução. E para isso incorpora em suas palavras cada um desses ingredientes. Os elementos, principalmente aqueles que levam o romance para uma atmosfera misteriosa nos remete a uma referência estampada de Edgar Allan Poe, os violoncelos (com papel importante aqui), as lojas antigas, os dias chuvosos, os vultos sonhados são exemplificadores. Note também o acréscimo importante e intrigante das músicas de Bach, presente (misteriosamente) nos gostos da maioria dos personagens.

Aquela sensação de que nem tudo o que parece é, está presente do início ao fim, e se torna um ponto extremamente positivo, pois essa linha tênue entre fantasia delirante e realidade atrelada à ironia da autora ao trata dos temas e as referências literárias já são motivos suficientes para uma, duas ou mais leituras. Além do livro assumir um caráter de romance policial e de mistério, é possível identificar também traços do romance noir, do fantástico e de suspense. A viagem do personagem pelos países da Europa nos permite uma perfeita experiência de viagem literária. Tudo narrado em detalhes, até meio que de forma poética. As cartas enviadas ao amigo Silvestre, que  por sua vez mostra sua inocência se transformando em corrupção, as mulheres usadas e que usam e manipulam, tudo isso é um composto bem feito por mãos que sabem bem encantar o leitor.

O que intriga mais ainda em As Sete Sombras do Gato (Idea, 240 pág.) é que Jeanette Rozsas utiliza-se não apenas de um gênero literário, mas gêneros e subgêneros. É possível ver cartas, diários, contos (nas histórias paralelas), prosa poética, prosa introspectiva e outros. Brinca ainda com as formas de linguagem, usando-se de discursos diretos, indiretos e ainda, diretos e indiretos juntos. Tudo isso é que faz desse livro um expoente da literatura brasileira contemporânea. A autora já foi premiada diversas vezes, diretora da UBE (União Brasileira de Escritores) por três vezes, escreveu diversos romances, onde destaco um dos mais recentes, Kafka e a Marca do Corvo.  É possível ainda encontrar As Sete Sombras do Gato dramatizado na versão audiolivro.

Por fim repito que o livro é mais que recomendado, para os fãs de livros intrigantes e que nos fazem pensar e viajar pelo mistério. Retrata a condição humana não apenas no âmbito físico, mas no nosso psicológico que muitas vezes é mais surreal do que imaginamos.

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4 comentários

  1. Li este livro da Jeanette. Fiquei encantada com a literatura fantástica que ela desenvolveu, numa referência cíclica, como um sonho no sonho. Muitíssimo bom, vale a pena ler. Tem um pouco de Kafka, um pouco de Poe e um pouco de Ambrose Bierce, vale a pena valorizar este novo surto literário brasileiro. Parabéns, Jeanette!!! Esperamos mais coisas….

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  2. Parabéns pela resenha. Também li esse livro da Jeanette, e gostei demais. Mas não foi surpresa. Eu já tinha lido outros textos dela, e a qualidade é uma constante. Que bom que você destacou o livro aqui. Uma recomendação merecidíssima.

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  3. Livro confuso… Tenso… e surpreendente. Nao conhecia nada da autora… mas me encantei com a forma que ela leva a brilhante estoria.
    O fato da musica está presente a todos os personagens me faz nascer a curiosidade pelo musico e baixar. Por mais que seja musica classica a musica também me causou adimiração…

    Recomendadíssimo!

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