Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive, 2001)

“A vida é muito, muito confusa. E os filmes deveriam ser realizados assim também.” (David Lynch)

Se você é do tipo de pessoa que gosta de filmes auto-explicativos passe longe desse, e até dessa resenha! David Lynch é considerado um gênio, e não por acaso, por seus filmes estranhos demais. Chega a ser discriminado por aqueles que assistem seus filmes e alegam se tratar de baboseira sem fundamento. O que não tem explicação pode muito bem ter sim fundamentos. Acha isso complexo, pois paradoxos como esse não chegam nem perto da complexidade das produções de Lynch. Cidade dos Sonhos é considerado por muitos a obra máxima desse excêntrico diretor americano, apesar de ter tirado gargalhadas absurdas de alguns críticos o filme faturou US$ 7,2 milhões nas salas de cinemas norte-americanos, recebeu indicação ao Oscar de melhor diretor, quatro indicações ao Globo de Ouro e recebeu o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes em 2001.

Esse filme, de todos os outros de autoria de David Lynch, parece ser o que tem menos explicações sobre si mesmo. Especialistas em cinema, jornalistas e até estudiosos das ciências humanas tentam desde o lançamento do filme até hoje explicar os fatos narrados. São várias e várias teorias, que não passam de teoria. O próprio diretor chegou a comparar seu filme a um livro de um autor desconhecido que consegue agradar certo grupo de pessoas que ficam muito intrigados com algumas coisas, mas pelo fato de o autor do livro ter morrido antes do lançamento, essas perguntas ficarão sem as respostas de quem o escreveu, restando apenas interpretação de cada um que o ler. E Cidade dos Sonhos só funciona assim.

Nessa resenha por mais que eu tente explicar alguma coisa não passarão de meras interpretações, umas cabíveis outras não, como nos inúmeros textos sobre eles disponíveis pela internet. Antes de falar sobre o enredo é válido ressaltar que Mulholland Drive seria uma série de TV que foi recusada pela ABC e que acabou se tornando um longametragem.

Uma morena sensual acaba de sofrer um acidente (na Mulholland Drive) e ao vagar pela cidade em busca de um abrigo chega à casa da tia Ruth, que está viajando para filmar seu novo trabalho. Betty chega a Los Angeles (a cidade dos sonhos) em busca do seu sonho de ser uma reconhecida atriz hollywoodiana. Betty é sobrinha de Ruth, e por ordens de sua tia vai residir em sua casa durante sua estadia em L.A. Ao chegar lá se depara com uma estranha, que ao ver um cartaz de Gilda (sucesso de Hollywood estrelado por Rita Hayworth) pega o nome da atriz para se nomear. O fato é que a agora intitulada Rita não se lembra quem é nem de onde vem. Descobre em Betty uma amiga e bem mais que isso, uma amante. Betty é interpretada por Noami Watts, que pode se dizer foi descoberta nesse filme, sua atuação aqui é excepcional, comovente e mais que isso, convincente, atente para as cenas em que Betty ensaia um roteiro e em seguida o refaz novamente em um teste para ser estrela de um filme. Noami deu voz também à coelha Suzie na minissérie Rabbits também de Lynch, depois passou pelas mãos do também excêntrico Michael Haneke em Violência Gratuita. Já Rita é interpretada pela ex-miss estadunidense Laura Harring, que também atuou em Rabbits dando voz à coelha humanóide Jane.

Paralelo a isso temos o diretor de cinema Adam Kesher (vivido por Justin Theroux, de Zoolander) que está sendo convencido por dois irmãos mafiosos a contratar determinada atriz, Camila Rhodes, para seu novo filme. Adam, antes da reviravolta do filme, está passando por problemas com a mulher que o trai com o limpador da piscina.

Entenderam até aqui? Então isso tudo vai até pouco mais da metade do filme. Quando achar que tudo caminha para a solução pare e esqueça tudo que assistiu, ou pelo menos repense o contrário, ou ainda pense o que quiser. Porém nada vai o mudar o que David Lynch faz com sua história. Ele muda tudo sem mais nem menos. Parece ter cansado da monotonia ou de como as coisas estavam indo e muda tudo, lugares, nomes de personagens, situações, tudo se inverte e se confunde mais ainda. Parecendo que tudo que estávamos assistindo a mais de uma hora não passava de um sonho e talvez seja essa toda a explicação. Mas não é tão simples. Lynch aqui explicita tudo o que ele realmente queria abordar: o limiar entre sonho e realidade. O filme não passa de uma fantasia onírica feita explicitamente no estilo linchiano.

As referências às suas outras obras como Twin Peaks, Eraserhead e Veludo Azul são muitas, e entre elas podemos citar as músicas, cores, ambientes (como a sala onde fica o mesmo anão de Twin Peaks) e até personagens (cito aqui os anões que saem da caixinha azul que nos remetem a Eraserhead). Porém deve-se chamar atenção para a crítica de Lynch aos filmes de Hollywood, e a idolatria em torno dos mesmos. É interessante também os recursos usados pelo diretor, demonstrando seu domínio das mais diversas formas de dirigir. Atente para a cena teatral do Clube “Silêncio” onde uma peça já complexa por si é encenada e finalizada para com a música Llorando, aqui vemos o questionamento do que é realidade e do que é original, quando o personagem diz que as falas que estão acontecendo naquele momento são apenas gravações repetidas em playback, esse recurso teatral que questiona a realidade também está presente no todo da série Rabbits. Outra cena que mostra essa desconstrução é quando acontecem os testes para o musical de Adam Kesher, quando de início temos um grupo cantando e com o afastar da câmera somos levados a crer que se trata de uma transmissão para finalmente concluirmos que trata-se apenas de um estúdio de filmagens com áudio em playback.

As cenas de amor (não recíproco) entre Betty/Diane e Rita/Camila são excepcionais, atrelando sensualidade ao provocante. E na dualidade das personagens é possível identificar uma inversão de papeis na hora da reviravolta figurando assim a tão comum (entre nós) projeção de personalidade. Primeiramente Rita está confusa, insegura e atordoada, enquanto que Betty é um poço de segurança, positivismo e otimismo. Depois Rita (agora Camila) é altruísta, perspicaz e uma mulher poderosa enquanto que a insegurança passa para Betty (agora como Diane) que de certo modo vive às sombras de Camila.

Essa divisão entre parte do filmes é meramente didática, sem muita necessidade a depender de cada um. O fim da primeira pode ser marcado pela abertura da misteriosa caixinha azul (seria uma referência à Caixa de Pandora?). Na segunda parte as personagens Diane e Camila (vividas por Naomi Watts e Laura Harring respectivamente) mostram-nos uma realidade (talvez a verdadeira) diferente com situações densas e também diferentes. Nos últimos 20 minutos pelas entrelinhas é possível ver algumas dicas que podem ser usadas para tentar solucionar esse mistério sem solução. Chegamos diante um impasse se as cenas iniciais são um sonho, ou se o final na verdade é um prólogo fora de ordem cronológica, ou tudo isso junto. Até quem não consegue arriscar uma teoria irá sentir o clima tenso criado por Dabid Lynch e irá presenciar uma experiência única em se tratando de cinema. Os elementos linchinianos se mantêm nesse filme também, com a realidade distorcida, o surrealismo acentuado e uma pequena dose de sobrenatural.

Em um texto publicado no jornal inglês The Guardian, depois de vários questionamentos sobre o sentido de Cidade dos Sonhos, David Lynch aponta dez dicas para solucionar o mistério:

1. No começo do filme, antes dos créditos, duas pistas são reveladas.
2. Fique atento para o que está escrito no luminoso vermelho.
3. Qual o título do filme, para qual o personagem Adam Kesher está realizando teste de elenco? Ele será mencionado mais uma vez durante Cidade dos Sonhos?
4. O acidente é um importante acontecimento em Cidade dos Sonhos. Onde ele acontece?
5. Quem entrega a chave azul e porque?
6. Fique atento para o roupão, o cinzeiro e a caneca de café.
7. Qual mistério é revelado no palco do “Club Silencio”?
8. Somente o talento de Camilla pode ajudá-la?
9. Fique atento para o objeto que está nas mãos do estranho homem que vive perto da lanchonete “Winkie”!
10. Onde está tia Ruth?

Se você já assistiu irá concluir que não notou nem metade desses detalhes. O que ele quer dizer com esse texto é que devemos prestar atenção aos mínimos detalhes, pois eles são importantes, não que eles venham trazer uma explicação lógica, mas são eles que casam os acontecimentos e podem levar cada um para uma melhor interpretação pessoal.

Sobre a parte técnica não preciso dizer muita coisa, pois o que temos é a tipicidade de Lynch, com quase a mesma equipe de seus filmes anteriores, mas o destaque vai sempre para Angelo Badalamenti, como compositor da trilha sonora característica. Depois de mais de mil palavras tentando falar sobre essa obra-prima do cinema, não cheguei nem perto de abordar todos os pontos importantes e cabíveis, presentes nela. O que resta ao final desse filme são dúvidas e perguntas que podem ser respondidas imediatamente, após uma segunda, terceira ou quarta vez que assistir ao filme, ou ainda pela vida ou quem sabe em sonho. O importante é refletir. E a reflexão imposta pelos filmes de Lynch é tanta que chega a dar dor de cabeça.

Seria interessante lermos todas as interpretações possíveis para esse filme, mas lendo uma ou outra, o que se pode concluir é que tudo não quer dizer nada. Tudo faz parte do mesmo lugar que não leva a lugar nenhum, e esse lugar nenhum é a cidade dos sonhos.

17 comentários

  1. Acabo de ver o filme, e, natural como só poderia ser, estou extremamente perturbado por ele.

    Acredito que o seu texto seja um bom roteiro para organizar as teorias a respeito do filme. No fim, acho que é tudo como nossa cabeça, onde uma coisa puxa outra que puxa outra que, quando se vê, já não tem nada a ver com a coisa inicial.

    Muito boa a resenha. Sem respostas objetivas, muito bem trabalhada.

    Abraços.

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  2. Esse filme é uma coisa louca. Me dá uma sensação terrivel quando vejo, uma vontade de chorar doida.
    Lynch é o cara mesmo, quando a gente acha que entendeu tudo, nada foi entendido pq nada foi dito e não havia realmente nada pra dizer.
    O filme é mt mt mt estranho, e isso nao quer dizer que estranho seja algo ruim.

    Assistam e queimem as mufas pensando.

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  3. Broder, eu tinha que voltar não é?

    Agora, tenho que assistir também porque fiquei com uma pulga (do tamanho de um elefantinho de 2 toneladas) atrás (bom, dependurado hehe) da orelha.

    Vou pedir a ajuda de duas pessoas incríveis para chegar num entendimento para esse filme: minha maravilhosa esposa Jack, que tem uma visão única e gosta de quebrar a cabeça e o meu cunhado, que não tem visão nenhuma, mas é um belo doido meio que pedagogo e psicólogo. E logicamente eu, o mais alterado (no bom sentido) dos três. Creio que com um time desse alguma coisa sai… Ou não!

    Abraços e grato pela indicação!

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    • Ah Janayna, eu que agradeço pelo seu comentário.
      Muito obrigado mesmo, fico feliz que minha resenha tenha deixado você com vontade de ver o filme de novo.
      Um abraço!

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  4. So discordo quanto a ideia de reflexao, o filme mexe com todos os niveis e diria q é mais sobre sentimentos do q sobre razao, é um filme para emocionar, desde a primeira vez q vi fico c a mesma impressao: é uma belissima historia de amor e da decadencia de um anjo caido… De fato é sublime e atemorizante.

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  5. Sem dúvida alguma esse foi o pior filme que já assisti em toda a minha vida. Perdi duas horas com essa porcaria. Não recomendo à ninguém.

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    • Olá Bianca,
      Seu comentário é muito importante para nós, mesmo que discorde muito do que pensamos sobre este filme, que inclusive foi indicado ao Oscar de Melhor filme no ano em que foi lançado. É um filme muito complexo para se dizer apenas que gostou ou não. Independente do gostar ou não gostar ele nos leva a muitas discussões.
      Mais uma vez obrigado por comentar.
      Abraços

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    • Oi Lucas,
      Fico muito feliz que tenha gostado da resenha. É sempre bom reassistirmos determinados filmes, e esse em especial. Sempre há detalhes que nos acrescentam novas interpretações. Em se tratando disso, David Lynch é um expert.
      Forte abraço.

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  6. cara, muito bom seu texto. além de qualquer teorização ou interpretação, pois acredito que cinema, assim como literatura ou pintura etc., não tem que ser interpretado, mas sim sentido, e a partir daí nasce alguma reflexão, ou não. seu texto me esclareceu o que eu gostaria de saber, mas não me fez achar ‘explicação’ pra nada, até porque não era uma explicação que eu procurava, era justamente o que voce me ofereceu; um texto sobre como guiar a minha propria percepção pra absorver essa obra deste artista. fez-me sim querer assistir ao filme novamente agora – vi pela primeira vez hoje á tarde. uma resenha muito boa! obrigada!

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    • Primeiro, fico feliz que o link no post do Donnie tenha te trazido até aqui. Essa é uma resenha que escrevi há muito tempo, não sei se eu assistisse o filme hoje eu teria a mesma visão/interpretação. Mas esse é um dos filmes mais legais que já, nesse quesito de nos causar aquele desconforto e dúvida.
      David Lynch é um dos meus diretores favoritos, se quiser um dica sugiro a série Twin Peaks, e além de Cidade dos Sonhos, o filme Veludo Azul.
      Depois me conta!
      Beijão!

      Curtido por 1 pessoa

      • Oi, Ademar!
        Estou assistindo Twin Peaks. Vejo um ep a cada dois meses hahahahha Falta de tempo dá nisso. Mas acho sensacional, além disso, eu já amo café e me da vontade de tomar o tempo inteiro enquanto assisto. Já assisti Eraserhead e aquele Rabbits também. Fico intrigada, não entendo de primeira, e é ai que gosto! hhahah
        Até mais

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