Déjà-Vu: A Great Love Story

Os quadrinhos coreanos, por muito tempo, sofreram certo preconceito dos fãs de quadrinhos japoneses (otakus), e com isso certo receio das editoras de os trazerem para o Brasil. Mas em 2007 eis que surge em terras brasileiras o manhwa (quadrinho coreano) Déjà-Vu (데자부, 2004), lançado pela editora Panini, e essa foi sua primeira aposta nesse mercado. O resultado foi positivo, o manhwa fez sucesso e abriu portas para que a editora trouxesse outros títulos. Mas o que Déjà-Vu tem de tão especial? É fácil, bons desenhos, boas histórias e vários autores excelentes no que fazem.

O volume é composto por seis histórias, todas elas escritas por Youn In-Wan, porém cada uma é desenhada por um manhwaga (desenhista de quadrinhos coreanos) diferente. As quatro primeiras narrativas têm um fio de ligação e narram a trajetória de um casal que se conhece, se apaixona e tenta, em várias vidas, concretizar o seu amor. Esses quatro episódios iniciais são marcados pelas estações do ano que intitulam cada uma, Primavera, Verão, Outono e Inverno. Cada uma como já dito é desenhada por um artista diferente e são eles Yang Kyung-Il, Yoon Seung-Ki, Kim Tae-Hyung, Park Sung-Woo respectivamente. Mas o manhwa trás duas histórias bônus que aparentemente nada têm a ver com as quatro anteriores. São elas Utility e O Mar, desenhadas por Byun Byung-Jun e Lee-Vin (a única mulher do grupo).

Quem nunca teve, ou melhor, sentiu a sensação de déjà-vu? Para quem não sabe o que é devo explicar que se trata daquela sensação de estranheza e familiaridade que nos permite sentir que conhecemos determinada pessoa ou lugar sem nunca ter visto antes, ou ainda quando achamos que lemos um livro ou vimos um filme sem isso ter acontecido. Existem muitas teorias para esse fenômeno, porém não se sabe ao certo sua causa ou origem, o que se sabe é que todo mundo sente isso mesmo que não chegue a identificar por não conhecer. Alguns atribuem a sonho e acham que sonhou com aquilo, mas cada um encara de um jeito. O que é fato também é que esse fenômeno inspira muitas obras da literatura, da música, do cinema e tudo que se possa falar do ser humano. Aqui nesse quadrinho ele assume-se como tema central e regente da vida desse casal, só que num âmbito bem maior.

O déjà-vu aqui está associado ao reencontro em vidas futuras que desperta nas personagens uma sensação de familiaridade. Na primeira narrativa, Primavera, estamos no ano de 673, ele é um guerreiro desertado e renegado e ela é uma raposa branca disfarçada de humana, é tida pelos nativos como bruxa, morre logo após conhecê-lo por ser um sinal de mau agouro. Em 1945, anos de guerra, já em Verão, ele reencarna como um poeta coreano preso em Fukuoka e ela é a médica que cuida dele, novamente há um desencontro e ele é que se dar mal. Mais na frente em 1995, já no Outono, ele é um jovem coreano nos Estados Unidos com o sonho de ser um cantor famoso e ela uma jovem cega que tenta levar a vida numa boa. Seu quatro e último encontro se dar no Inverno, muitos milhares de anos depois, quando a sociedade humana da Terra já fora há muito extinta, extraterrestres superiores e que estudam a Terra tentam criar clones humanos perfeitos para repovoar o planeta e em várias tentativas surge um homem e uma mulher programados um para o outro, tudo seria perfeito se não fosse uma terceira habitante que promete criar um triângulo amoroso.

Nas outras duas histórias o tema é mais social um de forma obscura, outro mais suave. Utility é narrado por um garoto que tem a vida diante de si sendo exibida de forma nua, dura e crua. No mundinho escolar que frequenta seus amigos passam por situações que o fazem pensar, sendo ele já um filósofo da vida e cientista empírico em busca de respostas. A irmã de sua amiga é sendo assediada pelo diretor, ela o mata e depois mata a si mesmo, sua irmã reúne seus amigos para decidirem como irão se livrar do corpo que já a está incomodando com o fedor. Em O Mar um menino que não tem senso de direção se ver diante do pedido de uma cantora famosa que está perdendo a visão e lhe pede para ajudá-la a realizar seu último desejo, o de ver o mar. Eles saem pelas ruas da cidade vagando sem rumo, ele sem contar a ela do seu problema e ela idem com ele. Mas a vida faz com que eles se encontrem e tentem se aceitar como são. É um belo conto poético sobre pequenos problemas da vida.

Cada história tem um traço e mensagens que vão de encontro com nossas crenças e filosofias de vida, algumas vezes vai por caminhos de crenças que não concordamos. Contudo Déjà-Vu (Panini, 224 pág.) mexe com a emoção e os sentimentos de todos. Esta é uma obra completa que recebeu muitos elogios de outros artistas famosos da área. É cativante e cheio de complexão e referências que trazem algo novo a cada releitura. Vale a pena. Recomendo a todos!

Youn In-Wan

Nota:

Em breve uma matéria mais completa escrita por mim sairá na revista especializada em quadrinhos e cultura japonesa, Neo Tokyo. Recebi um convite antigo do meu amigo e editor chefe da revista, Júnior Fonseca, para me tornar colaborador. Resolvi iniciar com este que é um dos meus quadrinhos favoritos, ainda que coreano.

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