Histórias Naturais

“A BORBOLETA: Essa carta doce dobrada em
dois procura o endereço de uma flor.”

Jules Renard é um autor francês clássico bastante conhecido pelos amantes de livros pela autoria da frase “quando penso em todos os livros que ainda posso ler, tenho a certeza de ainda ser feliz”.  Suas obras são de grande importância para a literatura clássica, entre seus principais livros se destacam Poil de Carotte (1984) e este Histórias Naturais (Histories Naturalles, 1896). Chegou a escrever também poemas, contos, romances e peças teatrais, foi membro da Academia Goncourt, até que faleceu em 1910 (exatos 100 anos atrás).  Nesse livrinho Jules Renard escreveu crônicas, um pouco diferentes das crônicas habituais que lemos em jornais ou compiladas em livros.

As crônicas aqui não abordam o cotidiano do ser humano como costumamos ver, o objeto de análise aqui é o comportamento animal na sua forma mais humanizada. Em 84 textos, que variam de um único período até duas ou três páginas, ele nos mostra com olhar único o universo animalesco que nos rodeia, e que passa despercebido a muitos de nós. A poesia é intrínseca aos textos, é possível se comover com a morte tão bem narrada (dramaticamente) de um pobre animal como  em Dedeche morreu, ou ainda nos deliciar com sua habilidade de poetizar a quase tudo, como por exemplo o capítulo que fala de uma borboleta, que abre (na íntegra) esse texto. O teor metafórico usado por Renard é tanto que seu texto se assemelha a uma bela canção, que de fato se tornou canção pelas mãos de Maurice Ravel, que resolveu dá uma melodia ao belíssimo texto de Renard.

Esses pequenos textos podem até parecer fábulas, mas não se encaixam de fato nesse gênero. Como sabemos as fábulas,  de La Fontaine (citado no livro), Esopo e outros por exemplo, têm sempre uma lição de moral ao seu final, usando os animais apenas para metaforizar os humanos em suas atitudes, atribuindo aos inpensantes os nossos mais corriqueiros pensamentos. Os animais de Renard se assemelham sim aos humanos, mas não com o intuito objetivado de nos passar uma lição (apesar de aprendermos algo com eles consequentemente), a humanização presente aqui surge como consequência do convívio com os humanos. Essa forma de colocar a situação se assemelha à George Orwell em seu A Revolução dos Bichos, mesmo que no caso de Orwell os animais sirvam apenas de personificações de personagens históricos humanos.

Aqui os animais têm sentimentos, conversam com os humanos quando necessário, e o capítulo que fala do papagaio até satiriza o fato de que antes ele era o único que falava e que agora já fora ultrapassado. O narrador participa também da história, apesar de não se nomear, ele se comove com os animais e interage com eles, como em A Morte da Moreninha quando ele pede que os sinos se dobrem por sua morte. O ambiente também não é definido, mas pelas descrições e pelos animais que nomeiam os capítulos pode-se deduzir que trata-se de uma fazenda ou algo do tipo, os animais do início do livro são característicos desse ambiente, e a medida que vai avançando os capítulos vão se tornando mais selvagens, mas mesmo assim passam a sensação de um ambiente bucólico. Os pássaros que protagonizam muitos dos últimos capítulos são ótimos exemplos disso.

Outro ponto bastante pertinente a se pensar é a posição do narrador em relação aos animais, ora ele se encanta, ora os mata em caçadas “divertidas” acompanhado de seus amigos e seu cachorro de caça, mata as perdizes, cervos e outros, se bem que em determinado momento ele parece ter compaixão do sofrimento dos pobres bichinhos, mas mudar sua tradição talvez seja algo mais complicado, isso não fica bem definido no livro que termina com a fim da temporada de caça. E essa colocação pode significar que o sentimento de compaixão seja tão periódico quanto as temporadas de caça legalizada.

Apesar desse ponto meio polêmico que envolve os defensores dos animais, o livro se destaca simplesmente pelo conteúdo e a forma como ele é colocado. A poesia, o gênero (crônica), as metáforas e alegorias, as descrições, tudo contribui para perfeição dessa obra. O encanto que se adquire ao ler as palavras de Renard o colocam num patamar autoral de destaque e admiração. Ele cumpre bem o seu papel de artífice das palavras e as usa para nos mostrar situações corriqueiras de forma que nos fascina. O cotidiano animal envolve o humano também, seja humanizando os animais ou animalizando os homens (não estou me referindo a exemplos como Tarzan ou Mogli). A forma de se “socializar” as espécies depende de cada pessoa, povo ou cultura. O assunto “animais” desperta diversas reações nas variações humanas, hás os amantes, os fascinados, os indiferentes, os que os odeiam, porém quanto a carga literária desse livro pode-se dizer com propriedade que ele está entre os melhores livros, escrito por um dos melhores autores. Vale a pena a leitura, mesmo que o assunto não pareça animador a princípio. Recomendo!

Anúncios

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s