Virtude Indecente, de Nora Roberts

Algumas pessoas têm mania de julgarem determinados livros – ou estilos literários – fora de seu contexto. Nora Roberts é alvo disso, pois seus livros são tidos como literatura barata e sem conteúdo. Tecnicamente ela não é a melhor autora do mundo, mas é uma das que mais publicou livros, somando cerca de 200 romances publicados. Uma pessoa que escreve tantos livros aprende no mínimo a escrever bem. Se seus livros estão fadados a serem taxados como ruins, isso é questão de ela escrever o que gosta e o que vende, e não condiz muito com o mito de ela não saber escrever. Sua obra é bastante marcada por séries e esse Virtude Indecente (Brazen Virtue, 1988) faz parte da série D.C. Detectives, protagonizada pelos policiais Ben Paris e Ed Jackson, que já haviam aparecido em Pecados Sagrados.

A literatura de entretenimento, mista de romance no estilo chicklit e policial, agrada principalmente ao público feminino, mas Nora Roberts vai além em seus romances tidos como policiais. Aqui (no primeiro da série) trata-se de um thriller com um serial killer a solta matando mulheres da forma mais insana. Apesar da dupla de policiais ser o ponto em comum entre as duas histórias, eles assumem um papel secundário, e nesse caso a protagonista é a escritora (alter ego de Nora) Gracie McCabe, que após a morte de sua irmã, entra na busca pela identidade do assassino. Mesmo sendo uma série, as histórias são fechadas e com personagens totalmente diferentes, com exceção dos policiais.

Kathleen McCabe (irmã de Grace) é uma professora que nas horas vagas vende sua voz para a empresa Fantasia, uma empresa de telessexo, onde os clientes pagam para ouvir promessas, descrições e fantasias sexuais, uma forma atenuada de prostituição, que para alguns nem chega a ser prostituição. O fato é que um dos clientes de Kathleen, conhecida na empresa como Désirée, se apaixona por sua voz, e sendo um hacker descobre o endereço dela e a estupra e mata logo no início da trama. Grace apesar de não se dar muito bem com a irmã, fica chocada e entra na luta para vingá-la. Ajudada por seu vizinho o policial, por quem se apaixona, Ed Jackson, ela passa a buscar pistas de como encontrar o assassino, chegando até a se fazer de isca para o louco que começa a atacar outras funcionárias da empresa.

Em meio ao suspense (muito leve) se desenvolvem os romances de Grace e Ed, e Paris com sua já esposa, Tess. A carga romântica é muito grande, mas isso já é algo característico da autora, e não causa estranheza em quem a conhece. Nesse livro Nora usa a mesma técnica que Alex Barclay usou em seu Olhos de Falcão, de compor romances policiais que fogem do método convencional usado por Agatha Christie em seus romances, onde nem o detetive nem o leitor sabe quem é o assassino. Aqui o leitor sabe logo quem é o delinquente e a incógnita fica apenas para os protagonistas, o fato de já sabermos de antemão reduz de certa forma uma parte do suspense, ficando apenas a dúvida (previsível) se o assassino será preso ou não. De qualquer forma é divertido ver os policiais tentando descobrir de quem se trata e como o irão prender.

A quem diga que este livro se encaixa mais na obra assinada por J. D. Robb, pseudônimo que Nora usa para assinar alguns de seus livros da linha policial como a Série Mortal, que é um sucesso também no Brasil. O nome Nora Roberts ela usa geralmente para seus livros mais românticos. Não é possível se fazer uma análise muito crítica de seus livros, devemos abordá-lo dentro de seu contexto, que é o do entretenimento. Porém é notável a introspecção e riqueza psicológica dos personagens. Eles na maioria das vezes são verossímeis, mesmo seguindo o padrão americano, lógico.

O desfecho da história não é muito difícil de prever, mas o livro não é de todo ruim, e segura o leitor sem cansá-lo, e isso é bom, principalmente pra quem está começando a ler e ainda está engatinhando. Nora tem o dom de segurar o leitor, talvez pela linguagem usada que flui rapidamente e também pelo fato de seus livros terem muito do cotidiano humano. Cenas muito simples compõem Virtude Indecente (Bertrand Brasil, 294 pág.), para alguns tais cenas poderiam ser descartadas, mas elas conotam uma realidade à narrativa, permitindo o leitor identificar a ficção com sua realidade.

Recomendo aos fãs que ainda não leram esse e àqueles que desejam conhecer ou experimentar a escrita dessa americana.

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