Um Contrato com Deus

Os quadrinhos já atingiram um patamar literário de igualdade a qualquer livro escrito. Isso se deve a um certo cara americano chamado Will Eisner, autor de um graphic novel chamado Um Contrato com Deus (A Contract With God, 1978). O fato é que (como já foi dito) as histórias em quadrinhos estavam fadadas a receberem o título de histórias baratas e infantis, e em determinado momento da década de 70 as vendas foram baixando e estava mais difícil vender com tantos autores produzindo. Eisner em toda sua engenhosidade resolveu inovar em tudo para não perder o seu mercado editorial, criou uma história de caráter mais adulto – muito longe de ser permitida para crianças – onde abordava o comportamento humano de forma meio realista e autobiográfica. Para inovar mais ainda e ultrapassar as bancas de jornal (único lugar de vendas dos quadrinhos até então), ele criou o termo graphic novel, permitindo que seu trabalho fosse editado como livro e vendido também nas livrarias, e deu certo para ele e foi assim o ponto inicial (e crucial) para outros como ele.

Apesar disso Um Contrato com Deus (Devir, 200 pág.) não se encaixa perfeitamente no termo graphic novel, pois em tradução literal esse termo nomeia os romances em quadrinhos, e este livro é composto por contos. Segundo o próprio Eisner ele usou essa denominação por puro marketing, para que seu trabalho fosse mais bem aceito e vendesse mais. Essa cartada de Eisner chamou a atenção de outros quadrinhistas, então todo mundo passou a fazer graphic novel, e em certo momento tudo passou a ser editado, compilado e chamado de graphic novel. Este “romance” inicial de Eisner lhe serviu também de impulso (segundo ele, ambicioso) para escrevesse outras histórias a partir dessa e disso surgiu a chamada Trilogia Contrato com Deus, composta por este, A Força da Vida e Avenida Dropsie: A Vizinhança.

Mesmo com essa de o livro não se exatamente um romance é possível denominar os contos de Eisner com o que chamamos de “romance móbile” ou desmontável, pois apesar de não seguir uma ordem cronológica, eles narram o dia a dia da vida dos moradores de um cortiço, localizado no nº 55 da Avenida Dropsie, localizado em uma via pública do bairro do Bronx, em Nova York. E os outros dois volumes retornam ao mesmo local para contar mais sobre seus moradores e assim dar unidade à trilogia.

Este volume em questão é composto por quatro histórias independentes dividindo o mesmo espaço. A primeira é a que nomeia o livro, “Um Contrato com Deus”, e conta a relação de um homem com seu Deus, partindo de um evento autobiográfico que aconteceu com o próprio Eisner ao perder sua filha de 16 anos, aqui o alterego do autor, ainda criança faz um contrato com Deus, seguindo assim uma vida de bondade, mas é retribuído por ato cruel demais vindo dos céus, eis que surge então o questionamento sobre a fidelidade de Deus e os cumprimentos de suas palavras e promessas para com os homens. A história é impregnada de certa ironia e/ou revolta, porém é escrita à luz da razão humana.

Já em “O Cantor de Rua” o autor dá vida e homenageia personagens intrínsecos dos becos e cortiços dos subúrbios de New York. O personagem dessa historieta está a viver no ano da Grande Depressão, com a falta de empregos ele sai pelos becos a cantar (e às vezes encantar) com toda a sua teatralidade, apesar do visual maltrapilho, arrecadando uns meros trocados e até algumas zombarias. Mas seu caráter não é lá dos melhores, mesmo com certa promessa e oportunidade ele se ver diante do sofrimento de arrependimento por não dar atenção às coisas. Bate em sua mulher que está grávida (do segundo filho), bebe muito e só gasta com bebidas, deve a todos, mas não deixa a tradição, é nisso que está a fascinação do comportamento humano.

“O Zelador” está mais para mistério, protagonizado pelo zelador do prédio nº 55, é um homem asqueroso, arrogante e que carrega uma dose misteriosa e ameaçadora, e com isso todo o ódio dos inquilinos, por não fazer direito seu trabalho. É também um retrato interno de perversão, diga-se pelo seu quarto repleto de pornografia, em determinado momento do acaso se depara com uma criança com uma intenção talvez mais maligna que a dele. Aqui se discute a inocência infantil e o que sua fama de pureza pode ocasionar na vida de suas possíveis vítimas, que muitas vezes não são vítimas também, e então, alguém é inocente nesse mundo?

No último conto, “Cookalein”, o comportamento abordado é diferente, mas o mais comum entre as pessoas e isso sobrevive até hoje, o desejo de grandeza, a curiosidade pelo que é do outro e mais (ou menos?) acessível. Cookalein é uma palavra mista composta pelos idiomas inglês e iídiche e significa “cozinhar por conta própria”. Na verdade eram verdadeiros eventos que levavam a população dos cortiços (e outras também) para o campo, fazendas e casas de veraneio. Era uma forma alternativa de conseguir dinheiro, conhecer pessoas e porque não arranjar um marido ou uma esposa. Aqui são contadas várias histórias paralelas, e eu diria ser a história mais rica, pois fala de traição, falsas aparências, ambição, amadurecimento, descoberta e muitos outros assuntos mais obscuros, mas não menos humanos. Segundo o autor este é “um relato sincero de seu amadurecimento”.

Esta é umas das obras mais importantes do todo produzido por Eisner, aqui se ver sua forma narrativa e habilidade na arte sequencial. Seu traço é limpo, conciso e expressivo, passando da melhor forma a emoção dos personagens, o que permite uma perfeita interpretação das emoções que ele nos deseja transmitir. Preste atenção ao prefácio do próprio autor que nos revela muito sobre ele mesmo e sua obra em questão, e as demais, pois este prefácio foi publicado originalmente para introduzir a compilação americana para os três volumes da trilogia. Não fosse sua morte em 2005, aos 87 anos de idade, Eisner ainda teria produzido obras excelentes, pois na ocasião de seu falecimento ele ainda estava ativo em seu estúdio de criação. Fazem parte do seu currículo The Spirit, No Coração da Tempestade, O Último Dia no Vietnã, O Nome do Jogo e o mais recente O Complô. Também nos deixou livros técnicos sobre a produção da Nona Arte, algo que ele sabia muito bem produzir.

Recomendo aos fãs (que logicamente já devem ter lido), aos que desejam conhecer quadrinhos com alto valor literário e que aborde temas mais adultos da melhor forma possível. Will Eisner foi um gênio dessa arte e só por isso já merece todo o crédito e atenção especial. Tamanha foi a influência do autor, criou-se um prêmio de setor editorial sequencial com seu nome, o Prêmio Eisner, que a todo ano premia os melhores e de maior destaque nesse ramo dos quadrinhos. Vale conferir e conhecer!

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Um comentário

  1. Gostei muito, Ademar. Sou suspeito pra falar de quadrinhos, pq devo meu amor aos livros e às letras aos gibis (como chamávamos aqui) que eu colecionava e lia com avidez. Meu favoritos eram os da EBAL – Editora Brasil-América, do Rio de Janeiro, cujo editor era Adolfo Aizen. Sempre gostei dos HQs e concordo com vc quando diz que essa literatura não deve nada a outros tipos de publicações e formas de veicular a arte da escrita, aliando a isso o sabor da imagem. Sua resenha e seus comentários apropriados me deram vontade de voltar a ler quadrinhos com mais frequência, especialmente esse de Wil Eisner.

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