Aura de Asíris – A Batalha de Kayabashi

A literatura fantástica nacional (infelizmente) ainda é rejeitada por um percentual significativo de leitores desse gênero. As alegações são que os autores brasileiros são inexperientes, plagiadores e muitos outros comentários sem fundamento. Bom, o fato é que autores inexperientes, assim como o seu inverso, existem em todo lugar. Plágio é uma acusação que persegue a todos, mesmo que as ideias não tenham nada em comum. J. K. Rowling, que é considerada (mesmo não sendo) a precursora do movimento fantástico já foi acusada várias vezes de plágio. Mas vez ou outra surge um autor aqui no Brasil que despretensiosamente nos cativa e sai de um anonimato injusto. Então em vias de que isso aconteça, devo apresentar Rafael Lima e seu Aura de Asíris – A Batalha de Kayabashi (2009).

Para começar Aura de Asíris é uma trilogia e este é seu primeiro volume. O livro se encaixaria entre um meio termo da fantasia com a ficção-científica, o que é bom, pois agrada aos dois públicos que são formados na maioria das vezes pelos mesmos membros. Aqui há um pequeno detalhe que deve ser abordado, na verdade funciona mais como um aviso: é aconselhável que não se confunda referência com plágio. De início digo que A Batalha de Kayabashi (Isis, 420 pág.) é bastante original, porém é repleta de referências, oriundas dos gostos de juventude do autor. É possível notar traços de séries japonesas e clássicos da ficção americana. Nitidamente pode-se destacar Dragon Ball, Final Fantasy e Guerra nas Estrelas. Há muito mais, e a sensação que se tem é a de que se está assistindo há uma série animada de TV.

Rafael cria um mundo, o que parece ser um planeta distante, onde os humanos deixaram de existir. Este mundo de nome Asíris, dividido e habitado por duas raças, os banshees e os furous, os primeiros pela sua descrição lembram muito os humanos, já os segundos são mais animalescos (ou alienígenas) com um instinto selvagem (ou maligno). O fato é que essas raças disputam o domínio deste mundo, que por enquanto pertence – em sua maior parte – aos banshees. Quando uma nova guerra (a maior delas) está para começar eis que surge Yin Ashvick, um garoto de doze anos que dá indícios de ser o protagonista de uma antiga lenda que profetizava um salvador da raça banshee.

Quando os furous, que aparentemente estavam sob controle, aumentam inexplicavelmente suas forças, dá-se início à batalha no Deserto de Kayabashi. Uma comitiva de heróis é montada para liderar o exército banshee, onde os oficiais Hanai Ashvick (mestre de Yin) e Irwind Heatbolth (general do exército) são os principais. Yin entra na história da forma mais adolescente possível, infiltrando-se. Dá-se início a aventura, que por sinal é longa e cheia de obstáculos.

O livro poderia basicamente ser dividido em três partes, na primeira somos apresentados ao mundo, às raças, aos personagens principais, a construção social dos povos e um pouco da história dos mesmos. Na segunda seria aquela em que acontece a batalha que aparentemente dá a impressão de ser a final, o que depois descobrimos se tratar de um primeiro clímax. E por fim a terceira parte seria a aventura que se desencadeia no território furou, em busca do inimigo e temos assim o clímax maior. Ao longo da epopéia surgem novos personagens, como Lwan (amigo de Yin), a humana (e misteriosa) Sara, a enfermeira Aljolie, o soldado Jess, mas o destaque maior deve-se a Nina (uma soldada), que além de cativante é dona de uma das histórias paralelas mais tocantes e cheia de emoção. O que pode vir a ser um empecilho para a leitura – e também um dos pontos negativos – é que em determinados momentos a narrativa torna-se cansativa, mas nada que não se possa transpor. O final feliz que encerra o livro mostra-se apenas como um prólogo daquilo que está por vir, afinal este é apenas o primeiro volume de três.

Há destaque também para os seres animalescos que povoam esse mundo, a maioria deles apresenta-se como inimigos, outros são raças que apenas figuram partes da aventura, pode-se citar os limps, os kharkis, os marakis e os prarkhis. Quando a história muda de rumo e surge um inimigo, Mornkion, e um desafio ainda maior a narrativa passa a ter as faces do estilo tolkeniano de se escrever o fantástico. Em meio a tudo os cenários são mesclados entre paisagem naturais e ambientes futuristas com naves espaciais, veículos flutuantes, armas inimagináveis e muitos outros componentes de odisséias espaciais. Outro ponto interessante é a unidade religiosa da sociedade banshee que é politeísta, mas é formada pela Aura, que cria tudo e está em tudo. Essa unidade metafísica onipresente é abordada de diversas formas em várias obras, a exemplo temos o lifestream de Final Fantasy ou o de Fronteiras do Universo. No site da obra é possível visualizar algumas ilustrações de personagens e cenários e ainda ler contos que ajudam no bom degustar desse livro.

Esse mundo fantástico de Rafael Lima, nada mais é do que uma alegoria do nosso, onde ele questiona e às vezes critica elementos do nosso sistema social, que muitas vezes é falho. Política, religião, disputas sociais, desigualdades, discriminações e muitos outros temas serão facilmente encontrados pelos leitores mais atentos. Essa forma de questionar o mundo é válida. Fantasia não é apenas fuga de realidade, mas também uma discussão da mesma de forma codificada, onde é preciso pensar para que se decodifique. Aura de Asíris serve bem para isso. O que nos resta é esperar pelas suas continuações. Recomendo!

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