A Menina que Roubava Livros, de Markus Zusak

Nos ares da Segunda Guerra Mundial acontece algo incomum, eis que uma pequena menina consegue escapar das garras da Morte por três vezes. Quem não a conhece não se impressiona, mas quem tenta levá-la fica mais que surpresa e resolve então contar sua história numa espécie de biografia. Trata-se de Liesel Meminger, aquela que venceu a Morte, sendo que essa faz questão de acompanhá-la desde então. Além dessa perseguição Liesel sofre outros dissabores. É obrigada a se afastar de sua mãe e vai parar na casa de um casal atípico, Hans e Rosa Hubermenn, um pintor desempregado e uma senhora dona-de-casa nada simpática. Em meio a isso tudo ela vai conhecendo pessoas novas e desenvolvendo uma habilidade que aprendeu ao acaso, mas que se mostra importante para sua formação. Ela rouba livros, num tipo de cleptomania proposital. Essa é a proposta de Markus Zusak em seu A Menina que Roubava Livros (The Book Thief, 2006).

Segundo o próprio Zusak as ideias para esse livro vieram de formas distintas e em momentos também diferentes. Após escrever seu Eu Sou o Mensageiro (igualmente bem sucedido) ele queria algo com um ladrão de livros, guardou a ideia e depois acrescentou o que seus pais passaram na Alemanha nazista e na Áustria. A fórmula funcionou e seu livro tornou-se um best-seller mundial. Após O Diário de Anne Frank e este, outros enveredaram por esse rumo de usar crianças em cenário de Guerra, principalmente a desse período entre 1939 e 1945. Um exemplo notório é John Boyne com seu O Menino do Pijama Listrado, que também se tornou sucesso por onde passou (e passa).

Mas se o tema não é novidade, o que chama tanta atenção nesse livro? Talvez (ou certamente) seja pelo elemento chave que Zusak usou, a narradora que é ninguém mais ninguém menos que a Morte, aquela que persegue a todos. Esse personagem irreverente que em determinado momento irá marcar encontro com todos, parece gostar daquela que a desafiou. Há pessoas que têm muito mais a viver e essas, muitas vezes, conseguem se desvencilhar dos braços da morte, e foi isso que aconteceu com nossa protagonista. Aqui há certa lição de moral mascarada, na verdade um conselho subentendido, em que a regra é fazer a vida valer a pena. Para narrar essa história o autor usa uma linguagem objetiva, metafórica em determinados momentos, mas poética em quase todo o texto. A poesia é até mesmo explícita em períodos que mais parecem versos métricos. Há uma estrutura irregular no corpo do texto, com partes divididas em subpartes, com lembretes e adendos, em que a Morte se dirige a nós leitores em um diálogo quase informal onde a recíproca não passa da mente de quem se doa de fato à leitura.

Os livros que Liesel rouba refletem em palavras aquilo que ela vive ao longo de sua vida, surgindo como uma alegoria inserida dentro da própria ficção. O Manual do Coveiro, seu primeiro troféu aparentemente não lhe acrescenta em nada então ela parte em busca de algo que possa entender e lhe servir de alguma forma, e surge uma busca ávida por conhecimento. Personagens surgem e se mostram muito importante em relação a isso, a mulher do prefeito que mesmo não sendo reconhecida mostra-se a melhor amiga de Liesel. Max Vandenburg, o judeu escondido em seu porão, se mostra um amigo quase imaginário, cujo diário torna-se uma das obras da coleção da garota. Com a influência desses Liesel põe a mão em O Dar de Ombros, Mein Kampf (o livro de Hitler), um diário, O Assobiador, O Carregador de Sonhos e até um dicionário. Mas Liesel não passa de uma criança e Zusak também não se esquece disso, insere um bando de meninos na Rua Himmel (e veja que ironia este céu), uma das que cortam a pobre Molching. Entre esses meninos que cercam Liesel, há um destaque para Rudy Steiner, seu melhor amigo, e talvez namorado(?). Não, Liesel é nova demais para que Zusak lhe atribua algo tão maduro, mas a alegoria não deixa de existir.

A Menina que Roubava Livros (Intrínseca, 480 pág.) é uma bela obra que termina com uma surpreendedora revelação da Morte. O final mesmo sendo triste, – algo de se esperar de uma história narrada por um ser tão agourento (para alguns) – nos deixa uma mensagem que todo mundo sabe, mas que alguns fazem questão de ignorar: das garras da Morte ninguém consegue escapar (pelo menos não mais do que sortudas três vezes).

OBS: Eu já havia feito um comentário sobre o livro aqui no Cooltural, porém foi no início do blog (quando ainda se chamava Papéis Avulsos), e era apenas um breve comentário de iniciante sem muita atenção crítica, que pode ser lido AQUI.

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4 comentários

  1. Gostei muito desta resenha, Ademar. Vc cada dia mais se superando nos comentários. Li este livro assim que foi lançado, mas infelizmente num momento não muito bom para mim. Por isso, pretendo lê-lo novamente, desta vez superando aquela época de problemas na minha vida. Abraços e mais uma vez parabéns. Sou seu fã.

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    • Olá Sérgio,
      É sempre bom ver seus comentários por aqui.
      Muito obrigado pelos elogios.
      Eu também li esse livro numa época não muito boa para mim, ele não se encaixou no contexto em que eu estava e eu acabei achando ele ruim de início.
      Recentemente tive que revisitá-lo e resolvi fazer essa resenha mais completa que a primeira.

      Eu que sou seu fã, e da sua biblioteca. rs

      Abraços!

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