Kiki de Montparnasse, de Catel & Bocquet

Kiki era maravilhosa de se ver, sendo seu rosto naturalmente bonito, ela o havia convertido em obra de arte, tinha um corpo prodigiosamente belo e uma voz agradável…. Kiki foi sem dúvida a rainha desse bairro de artista, sonho e destino de milhões de pessoas nos anos 20, e chegou a simbolizar tudo que oferecia Montparnasse.
(Ernest Hemingway)

Nos anos 1920 reinava uma Paris boêmia, e nesse lugar tão memorial o trono pertencia à Kiki, ou como era conhecida: A Rainha de Montparnasse. Ela foi uma das primeiras mulheres emancipadas do século em que vivia, devendo isso a sua personalidade forte, impetuosa e prepotente. Kiki era uma mulher multifacetada e todas as suas faces são agora pintadas nesse álbum francês intitulado Kiki de Montparnasse (Idem, 2008), com autoria de Catel Muller (desenhos) e José-Louis Bocquet (roteiro). Aqui temos uma biografia em quadrinhos (graphic novel) de uma das maiores personagens da história das artes. Nessa edição especial acabamos conhecemos momentos importantes da vida daquela que foi modelo, cantora, dançarina, pintora, atriz e até escritora, mas que no fim das contas era vista como prostituta.

Kiki nasceu Alice Ernestine Prin (02 de outubro de 1901 – 29 de abril, 1953) e não teve uma das melhores infâncias. Sua mãe a abandonou, deixando a aos cuidados da avó, por quem tinha grande apreço. Em busca de uma vida melhor Kiki parte – já adolescente – para Paris e lá encontra uma nova construção social, mais urbanizada e movida por certa marginalidade. Sua mãe praticamente a ignora, tachando-a de inútil. É nessa fase que a pequena garota encontra um monstro urbanístico que a obriga a amadurecer cedo demais, tornando-a um adulto precoce. Com um corpo escultural (para a época) e em posse de um carisma único e exclusivo ela começa a posar para artistas da época em troca de onde dormir ou o que comer. Ao longo de sua vida ela se torna a musa de artistas como Kisling, Fujita, Per Krog, Calder, Léger, Utrillo, Picasso, Cocteau, Modigliani, Duchamp, Desnos e outros.

Por ser uma das figuras mais emblemática e carismática da vanguarda do entre guerras, Kiki conseguiu um posto de destaque entre as artistas que disputavam espaço com ela. Sempre foi a preferida de todos. Tinha amigos influentes e em todos os campos artísticos, inclusive da literatura, visto que Ernest Hemingway, seu amigo, foi quem prefaciou sua autobiografia Memórias de Kiki. Além de narrar a vida dessa personagem esse livro funciona como um retrato da expressão artística desse período e país. Os autores usam a nona arte para ilustrar e referenciar todas as artes anteriores a essa.

Kiki de Montparnasse (Galera Record, 416 pág.) chega ao Brasil em uma edição excelente, que conta com uma minibiografia dos personagens que aparecem no livro e uma cronologia da vida de Alice Prin. O tecnicismo do álbum é impecável, com desenhos delicados e sutis de Catel, que nos faz sentir a evolução da vida a personagem. Com um traço expressivo ele nos permite visualizar (com emoção) o crescimento de Kiki e todas as suas fases de apogeu e decadência. O roteiro é bem elaborado e apesar de mostrar apenas momentos pontuais e marcantes da vida dessa artista a história flui naturalmente. Mesmo com essa fragmentação – que acaba se tornando inevitável para um único volume – é possível ter uma noção completa dos fatos omitidos. Lembrando que a narrativa é incrementada com certas doses de ficção (como avisam os próprios autores) para adequar o enredo à mídia utilizada. A bibliografia no final do livro, além de servir como referência para se conhecer mais sobre essa personagem ímpar, serve também para mostrar como o trabalho de pesquisa dos autores foi extenso e demorado. Já valendo uma conferida, apenas por isso. Na capa vê-se uma ilustração baseada em uma de suas imagens mais famosas O Violino de Ingres (1924).

A vida adulta de Kiki foi marcada por um desregramento social, em que ela se impunha onde quisesse. Teve amores e desamores, sendo Man Ray a figura de maior destaque em seus relacionamentos. O fotógrafo (e cineasta) americano fez de Kiki a personagem principal de sua vida e obra. Mas foi com o seu envolvimento com drogas (cocaína) que ela sentenciou seu declínio e morte. Todas as suas revoltas sociais (e aqui se inclui suas brigas e escândalos) eram em prol de uma liberdade que ainda hoje só existe na teoria, a liberdade de expressão e de pensamento. Ela mandava em si e possuía uma liberdade emocional e sexual, porém se sentia reprimida pelos ditames de uma sociedade opressora, que era contrariada por um submundo que escondia uma cidade libertina.

O trabalho dessa graphic novel é impecável, sendo o único ponto negativo atribuído ao erro da tradutora que ao invés de nomear Bocquet como roteirista o colocou como cenarista, ao fazer uma má interpretação da palavra scénariste (que em português significa roteirista). Excetuando-se esse detalhe trata-se de uma leitura que vale muito a pena. Recomendo a todos.

José-Louis Bocquet & Catel Muller
O Violino de Ingres
Traço simples, nítido e bem feito

4 comentários

    • Olá Cris,

      Eu que agradeço a sua visita e o comentário.
      Obrigado pelo elogio, fico feliz que tenha gostado do meu texto. Você também escreve muito bem.

      Volte sempre!
      Abraços!
      Ademar Júnior

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  1. Nossa, o post é de faz tempo e não conhecia esse HQ, mas valeu pela sugestão. Adorei o estilo do desenho e a protagonista tem um quê de underground que me fascinou. Também me atraiu esse “histórico” da personagem, infância marcada pelo abandono, ou seja, há um certo aspecto psicológico interessante e uma boa construção dos personagens. Com certeza procurarei conhecer essa história, seja em português ou em francês. =)

    Um beijo, Livro Lab

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    • Oi Aline,
      Então, o mais legal desse quadrinho é que ele se trata de um biografia. A história de Kiki e o envolvimento dela com grandes nomes das artes é muito interessante mesmo.
      O traço é de um típico quadrinho francês, ou seja, ótimo.
      Espero que tenha curtido.
      Beijão.

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