O Vale dos Anjos: O Torneio dos Céus – Parte I

Diz-se que “anjos” é a nova modinha entre o público jovem, e que eles surgem como válvula de escape para a saturação da literatura vampiresca que se instalou pelo mundo nos últimos dois anos. Porém, bem antes de se pensar em uma nova modinha de substituição aos sugadores de sangue, Leandro Schulai já projetava sua história com características e mundo próprio. O Vale dos Anjos: O Torneio dos Céus – Parte I (2010) surge como o primeiro volume de uma saga que tende a ser a inserção de seu criador no mundo das letras e é também o ponto de partida para que se possa avaliar sua evolução literária.

Ao contrário da fórmula de sucesso dos livros juvenis compostos predominantemente por jovens, aqui as personagens são praticamente adultos ou jovens adultos, com raras exceções de algumas personagens adolescentes e crianças. E esse é outro ponto a se mencionar, o livro é composto por inúmeras personagens, a maioria secundários e figurantes, mas essa rede complexa e  hierárquica nos permite ter uma noção da dimensão do planejamento do autor para criar um mundo regido por regras e moralismos milenares, muitas vezes inspirados em crenças pré-existentes, mas em outras criada por ele próprio para que o ambiente se adequasse ao seu desejo inventivo. Aqui os anjos fogem um pouco do padrão convencional de belos homens (ou bebês) com asas, para se imaginar seres como nós que apenas mudaram de dimensão e adquiriram outro corpo capaz de atingir um nível superior de força através da energia angelical.

A referência mais marcante a se identificar nessa construção é o filme Cidade dos Anjos (1998) de Brad Silberling, estrelo por Meg Ryan e Nicolas Cage. Os anjos como pessoas, cheios de sentimentos e angústias, em corpos muito parecidos com os que tinham na Terra, e que podem voltar a ela por certo tempo. Mas há outras fontes de inspiração para o autor, nota-se também a presença de elementos vindos de animes e mangás (desenhos animados e quadrinhos japoneses), e desses pode-se destacar Dragon Ball. Um amor aparentemente eterno é usado como viés de condução da trama, mas o foco se concentra mais na ação, fugindo ainda mais dos romances melosos que geralmente surgem para representar os movimentos de criaturas fantásticas. Talvez seja uma característica dos brasileiros essa preferência pela ação, pois A Batalha do Apocalipse (que também aborda os anjos) de Eduardo Spohr igualmente tem mais adrenalina.

Quanto ao enredo, somos apresentados ao nosso protagonista logo no primeiro capítulo. Trata-se de Dimítris Saloustros, um jovem grego cheio de vida, que se casou muito cedo e que busca dar uma vida digna a sua esposa. Mas por acaso (ou por certa influência celeste) ele morre e é obrigado a deixar sua vida para trás. É levado ao julgamento final na presença de anjos e anjos deuses, e consegue o direito de ir ao Paraíso. Nesse ínterim ele conhece um amigo, Obelisco, um anjo-guia-de-enterro, que foi o responsável por conduzi-lo até onde ele se encontra. Além disso, ele faz outros amigos ao longo de sua estadia no céu, e começa a aprender as regras e hierarquias do seu novo lar. Eis que surge em sua vida, Anne, uma cupido e outros que passam a ser de grande valia para seu propósito maior: voltar a vida para continuar a viver com sua esposa, Mariah.

Além da falta de explicação de sua morte precoce, Dimítris chega ao Paraíso às vésperas do maior evento desse lugar, O Torneio dos Céus, que acontece uma vez a cada mil anos e está em sua segunda edição. Como prêmio o vencedor é coroado anjo-semideus e é disso que ele precisa pra voltar a Terra, para isso ele encontra um mestre (Ramirez) e descobre que possui o poder do anjo-deus do vento, Spner. O Paraíso é governado por oito anjos-deuses, cada um com um poder e uma atribuição, eles são a autoridade máxima do lugar. Isso mesmo, nada de um único deus como pensa a maioria. Para Dimítris isso não foi tão assustador, afinal ele veio da Grécia. Durante seu treinamento ele descobre ter um imenso poder e acaba por se tornar um dos favoritos ao prêmio, porém nem tudo são flores e começam a surgir ameaças das oito prisões. Algo maior e assombroso começa a se desenrolar nas entrelinhas e vai se tornando mais nítido ao final e em flashes de capítulos até culminar em um final inesperado e cheio de suspense. Boa cartada de Leandro para prender o leitor.

O livro é narrado em terceira pessoa e tem uma leitura rápida. Como é de esperar para um primeiro livro, o autor ainda se mostra pouco experiente com a narrativa, mas é algo que vai evoluindo ao longo do livro, e é de se esperar que evolua bem mais ao longo da série. Como ninguém começa a escrever como Dostoiévski, é de se admitir que a escrita experiente só surge com a prática e deixar ideias engavetadas é uma opção bem pior para quem quer começar. É necessário se colocar a prova, e ouvir (ou ler) críticas e sugestões para que se possa lapidar o estilo e técnica narrativa. J.K. Rowling que o diga com seus inúmeros erros em Harry Potter e a Pedra Filosofal, erros esses que só vão sendo corrigidos ao longo da série.

O Vale dos Anjos: O Torneio dos Céus – Parte I (Novo Século, 416 pág.) que é lançado sob o selo Novos Talentos da Literatura Brasileira, além de surgir em um momento oportuno se mostra um livro com um potencial cativante muito grande. Deixa certa saudade após a leitura e uma ansiedade por sua continuação, o que é algo positivo para o autor, que faz bem o ofício de prender o leitor. Que venha a segunda parte do torneio e que se revelem os segredos e mistérios da vida após a morte.

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