O Ciclista, de Walther Moreira Santos

O sentimento de perda talvez seja um dos piores que tenhamos que experimentar. Muitos absolutamente não conseguem lidar com ela, ainda mais quando se trata de uma perda irreparável. Há momentos ainda em que a perda culmina na loucura. O tema é forte e intrínseco do ser humano, e é esse o tema que Walther Moreira Santos usa em seu livro, O Ciclista (2008). Nada com exageros, ele apenas se expõe ao campo das emoções humanas para compor uma pequena narrativa de ficção que surpreende na habilidade com as palavras e com os elementos que elas projetam. Aqui a imaginação do autor dá a luz a um livro cheio de perda, perdão, amor, compaixão, intensidade, emoções e até polêmica.

O autor tem uma linguagem e estilo próprios, mas se comparado a alguém é impossível não mencionar Caio Fernando Abreu. Ambos são hábeis artesãos de palavras em se tratando de relações humanas. Quem é fã de Caio irá se apaixonar por Walther, e ambos irão dividir o mesmo espaço. O livro recebeu o 1º Prêmio José Mindlin de Literatura e mais do que merecido recebeu diversos elogios do júri que o julgou. Esse livro encanta pela dramaticidade atrelada com a poesia que o tornam um retrato de um anseio do ser o humano pela beleza que surge paradoxalmente à tristeza. O perdão em relação à perda. A espera por um final feliz que muitas vezes nem aparece, ainda mais quando se quer ser fiel à realidade, e Walther é. A única fantasia que o autor utiliza é o campo metafísico, psicológico e religioso que alimentam os anseios humanos, nada de mundos paralelos ou utopias, tudo faz parte da complexa mente humana.

Quem narra a história é Edgar, um biólogo e bibliófilo, que está chegando a Bariloche, para de lá seguir em busca de uma missão a cumprir. Isso é apenas um prólogo do todo que vai ser contado pelo narrador em uma espécie de mega-flashback, na verdade como se nota ao longo do livro, parece mais que ele está “lendo” fotografias que o fazem lembrar-se de todos os fatos. Caio é alguém muito importante na vida de Edgar, a princípio não se sabe que tipo de importância é essa, mas à medida que a narração avança descobrimos que os dois são meio-irmãos. Um é profissionalmente estabilizado, casado e com uma vida sedentária pra cuidar, o outro (Caio) é jovem, modelo, quer mais é curtir sua vida nômade e de falso glamour. Estranhamente Caio é pivô de um ciúme grosseiro da mulher de Edgar, Ceres, que odeia o meio-irmão do marido.

Chega um momento em que todas as peças se juntam e conseguimos visualizar a imagem fragmentada do quebra-cabeças. Edgar está só, sua mulher o abandonou por conta da saturação do ciúme que sentia de Caio, mas é quando surge em sua casa um ciclista, que supostamente é namorado do seu irmão é que vem a tona a tragédia e a confusão dos sentimentos de Edgar. Ele ver que praticamente perdeu tudo, ele queria sua mulher de volta, mas uma perda maior lhe acometeu e, o perdão e a volta de sua esposa não remediariam nunca o que ele está sentindo. E aqui se revela mais uma faceta obscura do romance. Nota-se que o sentimento de Edgar por seu irmão vai além de um padrão normal de amor, talvez se trate do Ágape grego, mas isso não é muito esclarecido e o que dar pra se deduzir (ou interpretar) é que Edgar nutre um sentimento incestuoso por Caio.

O Ciclista (Autêntica, 128 pág.) é ainda enriquecido por ensinamentos e filosofias budistas, fruto das discussões dos irmãos em busca de uma verdade, ou algo que os suprisse espiritualmente. Leis universais, ensinamentos milenares e populares muitas vezes nos regem mais coerentemente que qualquer doutrina imposta. Melhor do que seguir regras é seguir um caminho para dentro de si em busca de um equilíbrio. Esse livro é apenas mais um belo trabalho desse exímio autor, que assina também os livros Dentro da Chuva Amarela, O Doce Blues da Salamandra, Helena Gold, Um Certo Rumor de Asas, Ao Longo da Curva do Rio e outros.

Esse livro inevitavelmente mexe com as emoções de quem o ler, e sem favoritismo, é com todas elas. A perda, o perdão e a esperança são só os três primeiros degraus de uma escalada sentimental que culmina em um final não tão convencional, mas surpreendente e que volta ao início. Há inúmeras referências literárias em conseqüência de o narrador ser um bibliófilo, e há também certa semelhança com o desenvolvimento dos fatos do filme O Segredo de Brokeback Mountain, talvez não seja nem inspiração nem referência, apenas semelhança ocasional. A leitura desse livro é uma experiência ímpar. Recomendo!

10 comentários

  1. Aproveitando a sua dica e como gostei da resenha, comprei o livro ontem. Assim que recebê-lo e ler faço comentário. De qualquer maneira, valeu pela dica. Sempre procuro livros novos para adicionar à minha biblioteca. Como é um livro de autor premiado, com certeza tem qualidades. Thank you.

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    • Olá Sérgio,

      É sempre bom ver um comentário seu por aqui.
      Fico feliz que tenha comprado o livro. Quando li eu lembrei de você e imaginei que você poderia gostar, por ser um livro introspectivo e bem subjetivo, um pouco sentimental demais.

      Espero que goste da leitura, esse se tornou meu segundo livro favorito, acredita?
      Mas mesmo que você não goste é sempre bom ter coisas novas na biblioteca, né?

      Abraços!

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  2. Bem, em primeiro lugar quero (mais uma vez) te parabenizar pela excelente resenha Ademar. Tenho de admitir que essa resenha foi uma das minhas favoritas, mesmo ainda não conhecendo a obra. Costumo gostar mais das que possuo conhecimento, pois podermos discutir mais igualmente, mas essa me chamou bastante a atenção.
    São poucos os críticos que possuem essa habilidade tão rara e bela de apreciar ao máximo as emoções humanas, que são as nossas engrenagens nos mais diversos tipos de relacionamentos.
    As vezes apreciamos apenas o lógico e nos esquecmos de que existem razões muito mais profundas para as nossas ações e reações.
    Gosto muito de tramas extremamente entrelaçadas ás emoções, em que estas justificam as ações da personagem, e se esse for mesmo o caso de “O Ciclista”, precisarei expandir meu TOP 5 literário para TOP 6!

    Mais uma vez, parabens pelo blog em si, está perfeito a cada dia mais!

    Abraços,

    Gustavo Randazzo

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    • Olá Guh,

      Bom ver vc comentando aqui no blog depois de tanto tempo sumido.
      “O Ciclista” é um livro surpreendente pois é impossível ter ideia do seu conteúdo até que se leia o texto inteiro.
      Em breve postarei uma entrevista com o autor aqui no blog, aguarde.
      Uma notícia interessante é que esse livro foi escolhido pelo Governo para fazer parte do acervo das bibliotecas de escolas públicas. Se puder leia o livro o mais breve possível. Acho que vc vai gostar.
      Depois que ler volte aqui a comente o que achou.
      Volte sempre!

      Abraços…

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  3. Sua resenha disse tudo e um pouco mais Ademar, parabéns!! quanto a minha opinião no início fiquei confuso com a o desenrolar da história justamente por essa volta ao passado e depois ao presente, enfim. Mas a forma como é narrada é bem atrativa e é um diferencial do Walther. Fora as citações do Budismo (gostei muito). Porém o ponto negativo na minha opinião foi o final, que ficou em aberto, tipo acabou?!..hehe, mas é um livro que de fato meche a fundo com vc, suas emoções e sentimentos.
    parabéns pelo livro!!

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    • Então, Gustavo

      Primeiramente agradeço o comentário de estréia aqui no blog. Realmente o livro começa de forma estranha, mas basta se acostumar com a escrita do autor para que essa sensação desapareça. Recomendo que leia Caio Fernando, esse tem muito em comum com Walther.
      As citações do budismo são ótimas e elas demarcam a independência espiritual que foge de dogmas.
      Sobre o final eu gostei bastante, não achei aberto, o que acontece com Caio já é uma justificativa para um final, mesmo que triste. Esse forma de encerrar sem os clichês dos contos de fadas dá certa verossimilhança ao livro.
      Mas gostei da sua opinião, compartilhe-a sempre conosco.

      Abraço!

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  4. Ademar,
    Terminei a leitura de O Ciclista na sexta-feira última (8/10). Embora seja um romance pequeno (124 páginas), não o li com pressa, mas pausadamente. Posso lhe dizer que na verdade eu bebi o livro, página por página. Talvez eu não consiga expor aqui tudo o que senti em relação a ele. Um belo livro. Lembrou muito Caio F., a quem eu e vc devotamos uma adoração extrema, não é mesmo? Gostei das considerações que o autor faz a respeito do amor/apego, inserindo aí a filosofia budista do desapego às coisas e aos sentimentos para se alcançar a felicidade plena. Difícil isso, muito difícil. Não é fácil ser desapegado. Não é fácil renuncar ao que amamos. Não é fácil abrir mão do que desejamos.
    Fico feliz que vc tenha se lembrado de mim quando leu o livro. Na verdade ele realmente deixa abertas portas que permitem lembrar coisas da minha vida e do personagem.
    Em suma, Ademar, o livro é maravilhoso e eu só tenho a agradecer ao amigo por mais uma vez ter me disponibilizado uma obra tão significativa para minha vida.
    Um abraço do seu amigo.

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  5. Já li o livro mais de 8 vezes e pretendo continuar a fazê-lo, porque cada página do livro é uma gota de humanidade a mais em mim.

    O Walter é meu conterrâneo, o que me deixa muito mais feliz em admirá-lo.

    O ciclista, é sem dúvida, o livro da minha vida. O personagem Edgar é fascinante. A acuidade que ele tem para com o irmão me deixa paralisado diante das páginas. Eu realmente não seria capaz de tamanha delicadeza e compaixão.

    O universo de Caio é de uma beleza tímida e triste, porém inspiradora. Um menino no corpo de um homem, que entendeu desde muito cedo o quanto viver pode machucar.

    A vida de Ceres, na minha opinião, é o que podia ser. Ela foi feita pra ser a mulher do Edgar, não tenho dúvidas.

    O ciclista, apesar de ser o nome do livro, é o personagem que menos se destaca, exceto pelo fato de ser o anunciador da grande dor.

    Recomendo: comam o livro com calma e com a alma limpa.

    Walter Moreira Santos é um dos maiores escritores desse país.

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  6. Só uma pequena (e amigável) correção: MECHE -> Mexe. No mais, está de parabéns! E já estou com o livro em mãos para me aventurar. Abs

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    • Oi,
      Obrigado pela correção, por mais que tentemos evitar erros, sempre tem aqueles que passam despercebidos pela revisão, rsrs.
      Olha, sinceramente, eu adorei o livro, espero que você se delicie com ele o tanto que eu me deliciei.
      Abraços e volte sempre! =D

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