Insight

Para um autor novo entrar no mercado editorial brasileiro é preciso muito empenho de sua parte. Isso por conta do processo complicado que é necessário para que aconteça o lançamento do primeiro livro, sem contar que ainda tem a questão da aceitação do público. De nada adianta um livro lançado se não houver leitores para o seu consumo. Roberto Campos Pellanda conseguiu um feito ao lançar seu segundo livro (sinal de que o primeiro, resenhado AQUI, agradou aos editores e aos leitores também). Insight (2010) é fruto de uma verve do autor ao criar dois detetives para compor suas histórias policiais repletas de temas polêmicos e que não ficam atrás de obras exportadas de outras mentes e culturas.

O cenário de atuação das personagens é uma das maiores capitais do país, São Paulo, onde se escondem redes de crimes e mentes estratégicas. Em seu primeiro livro, Mentes Roubadas, conhecemos os dois protagonistas, Paulo Westphalen e Miguel D’Andrea, tentando solucionar um mistério que envolvia seqüestros, controle da mente, o projeto MK-ULTRA e até a CIA. O livro foi composto por esses elementos que permitiram ao  autor se colocar em um estilo de escrita próprio já que a fórmula é usada novamente no segundo. Experimentos com seres humanos é tema comum entre alguns autores deste tipo de romance. E Roberto conhece bem o assunto, pois tudo é pautado nos conteúdos de bioética, que discute de forma crítica os procedimentos e finalidades deste tipo de ato experimental. O autor é médico e isso permite, sem se perder em chavões, que ele utilize seus conhecimentos para traçar a trama de forma realista e crível.

Em Insight (Porto de Idéias, 168 pág.) há certa ousadia e maior inventividade. Desta vez – um ano após os fatos ocorridos em Mentes Roubadas – os detetives se deparam com um caso sinistro em que crianças começam a desaparecer e as pistas que levam aos motivos disso são vagas e aparentemente sem nenhuma ligação com o fato. O único ponto em comum é que as vítimas começaram a ter visões de Gengis Khan. Esse fantasma do passado nos leva a crer que o autor queira nos forçar a acreditar numa explicação sobrenatural, mas não é nisso que culmina o fim de tudo. Em casos como esse é preciso mais racionalidade que atribuição fantástica às coisas inexplicáveis. Afinal tudo tem uma explicação, o que acontece às vezes é que não se consegue ou não se sabe como chegar a ela. Mas isso não acontece aqui, afinal em livros deste gênero o autor deve uma explicação de tudo a quem o ler.

Os fatos acontecem no decorrer da segunda semana de 2009, e o que ocorre é que as visões de Gengis Khan escondem uma verdade muito mais aterradora, que é composta por interesses políticos, o uso de empresas não-governamentais, experimentos ilegais e manipulação de pessoas. O que parece ser uma psicose coletiva, algo improvável que aconteça de fato, e se fosse seria uma explicação inapropriada para um romance policial (quem sabe em algum livro de terror), se torna um poço de questionamento sobre a influência e uso (e abuso) de poder político para o alcance de desejos pessoais. É mais uma ousadia do autor tratar assuntos políticos de forma tão atual, e não é de se estranhar o fato de que algo semelhante ao que o autor descreveu foi noticiado no mês passado sobre certo deputado.

Uma característica marcante de Roberto Campos Pellanda é que ele não escreve apenas entretenimento, ele quer também fazer refletir, filosofar no sentido mais literal do termo, questionar. É preciso que tenhamos opinião sobre assuntos de bioética, e que possamos emiti-la de forma livre. Porém isso às não é possível, porque na maioria das vezes somos calados por forças superiores que manipulam e mascaram lacunas que possam prejudicá-las, e essa hierarquia de poderes é que faz com que isso aconteça. Os detetives Paulo e Miguel vivenciam isso na pele ao final de sua investigação, eles são obrigados a conter sua ira social. O final não decepciona em nada e é possível ainda notar uma melhora na narrativa do autor (algo natural que surge com o exercício), que desta vez se apresenta mais enxuta e objetiva, mesmo com o cuidado que Roberto teve de inserir mais detalhes dos protagonistas que parece (tomara) que irão aparecer em muitos outros livros do autor. O que nos resta é esperar ávidos por outra aventura. Enquanto isso não acontece, recomendo que conheçam a obra do autor, tanto o primeiro livro quanto este que é lançamento.

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