A Essência do Dragão: Ressurreição

Os dragões são criaturas milenares que povoam a imaginação das pessoas, sendo que para algumas culturas eles são de uma importância divina. Vez ou outra eles aparecem como elementos para a composição de livros de fantasia e nem é preciso fazer uma lista, pois ela seria enorme. Na maioria das vezes eles são os vilões, e em outras o mocinhos, podem aparecer em bandos e em espécie única, mais eis que o autor carioca Andrés Carreiro resolve estrear na literatura de uma forma diferente. O primeiro livro de sua primeira e mais recente saga, A Essência do Dragão: Ressurreição (2010), trás essas criaturas sob um novo ângulo, aqui não é seguido nenhum dos exemplos já citados. O autor nos apresenta uma sociedade de dragões como uma raça inteligente e que precede em milhões de anos o surgimento de outra raça com o mesmo naipe intelectual, os humanos.

A ideia proposta pelo autor pode parecer estranha e inconcebível à primeira vista, mas ao longo de suas páginas ele consegue se justificar bem e argumentar tornando sua história, apesar de fantástica, crível. É preciso bastante atenção logo no início, pois o autor pauta apenas momentos importantes para guiar o leitor pelos fatos indispensáveis para compreensão do que ele quer contar.

Tudo começa há três mil anos atrás (isso levando em conta a era cristã, que no contexto do livro nem existia ainda) quando um objeto espacial, a princípio interpretado como um asteróide, cai na Terra e é encontrado pela tribo Li-Seug, que é formada apenas por Shoi, Zhi, Goo e Ji. Logo em seguida vamos parar no ano 1985, onde o líder da empresa Seug Corporation tenta a expansão de sua empresa altamente tecnológica, e surge então o personagem e ser misterioso, Tloügodärami. Já no terceiro capítulo o ano é 2015 e o engenheiro aeronáutico norte-americano Andrew S. Carter está indo para o Brasil a fim de desenvolver um de seus projetos espaciais com o apoio da poderosíssima Seug Corporation. Aqui ele conhece os milenares Li-Seug e então o dragão Tloügodärami começa a narrar sua longa história e é essa a essência de apresentação desse primeiro volume. O dragão inicia a narrativa de um megaflashback que ocupa a maioria dos capítulos do livro.

É nesse ponto que se centra a tradicional apresentação daquilo que vem a ser um prólogo de uma saga. Conhecemos o surgimento da raça dos dragões e como eles evoluíram como sociedade e como era sua organização social. O autor materializa em sua ficção um sistema social utópico para nós humanos, mas que no âmbito ficcional funciona muito bem. Porque afinal quem cria é quem comanda e dá as regras, e se Andrés quer que funcione ele precisa apenas de bons argumentos para que leiamos e acreditemos que aquilo está indo bem. Já nos últimos capítulos retornamos à narrativa anterior e somos presenteados com um segundo clímax.

O que vem a ser ponto negativo pode também ser considerado ponto positivo, mesmo que paradoxalmente. Se por um lado o autor mistura demais elementos como dragões, alta-tecnologia, viagens espaciais, passado e futuro de uma forma não tão comum; por outro isso é que chama a atenção, algo novo e inédito (algo difícil de conseguir nos dias de hoje). Isso também permite ao autor colocar sua obra em um patamar que transcende uma classificação convencional de gênero, aqui temos um livro de technofantasy, que mistura fantasia, ficção-científica e outros elementos para saciar a sede dos leitores ávidos desse gênero, que inclui o autor Rafael Lima com seu Aura de Asíris: A Batalha de Kayabashi.

Em A Essência do Dragão: Ressurreição (Novo Século, 312 pág.) as referências são outro ponto forte. O autor se utiliza de bons referenciais para compor a narrativa. Além das já óbvias lendas antigas dos dragões, não há como ler o livro e não lembrar pelo menos de A Guerra dos Mundos, Star Wars e alguns traços da fantasia inglesa que pode ser notada pela experiente narrativa do autor. É admirável como Andrés narra tão bem e com propriedade da técnica já em seu livro de estréia. A linguagem típica deste tipo de livro encanta com detalhes, desenvolvimento e ainda as filosofias e poética presente nas palavras. O final é intrigante e nos deixa a margem de uma reflexão sobre a proporção que a decisão dos personagens irá tomar. Qual será a conseqüência disso? Essa foi a cartada final do autor para nos deixar curiosos pela continuação da Saga dos Dragões. Andrés é com certeza um dos novos talentos da literatura brasileira, é de se esperar que o autor venha a melhorar sua já excelente escrita e isso é um passo enorme para o reconhecimento. Recomendo!

Um comentário

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s