A Morte de Bunny Munro

Sabe aquele livro que te chama atenção logo pela capa? Então, muitas vezes a capa não é o parâmetro mais correto pra se analisar livros. Já ouviu o ditado “não julgue o livro pela capa”? Então esse é um bom exemplo de livro que prova que esse ditado é a mais pura verdade. Quem não se encanta com esse coelhinho ao pegar esse livro na mão? Mas devo dizer que aqui o coelho é usado como simbolismo no mais pervertido dos seus significados. Sabem da fama de que coelhos são animais férteis e que gostam de acasalar? Então é por isso que ele está ilustrando essa capa do segundo livro do também cantor australiano (que mora na Inglaterra) Nick Cave. Esse seu segundo romance, A Morte de Bunny Munro (The Death of Bunny Munro, 2009), é uma ilustração vulgar de uma das mais importantes relações humanas, a paternalidade. Aqui vemos um caso típico, porém nada convencional de lidar com essas situações, escritas de uma forma envolvente e que não deixa quase nada a desejar.

Bunny Munro é um boa vida que além de qualquer coisa pensa primeiramente em transar e possui um fetiche incomum pela vagina (imaginada) da cantora canadense Avril Lavigne, que é citada quase cinqüenta vezes (ou mais) durante todo o livro. E não só essa, mas também a cantora Kylie Minogue, de quem é fã, principalmente da música Spinning Around e de seus shortinhos apertados. Além dessas são citadas outras divas da música pop, entre elas Madonna, Britney Spears e Beyoncé. Aqui o autor brinca com o personagem atribuindo-lhe gostos contrários à sua pose de machão conquistador. Quem acha que o livro é fraquinho é porque não conseguiu absorver todas as ironias e críticas do autor. Atente para a posição dele em relação a alguns programas infantis. Além de carregar o nome de coelho, o personagem conserva um forte culto desse animal, que se nota pelo fato de que tudo que o cerca é ilustrado por esses bichos.

Para entender melhor é preciso atentar bem para Bunny e sua vida, a forma como o autor narra o texto e como os personagens se comportam nessa narração. De início conhecemos o protagonista em sua extrema perversão e constante luxúria. Bunny é casado e tem um filho de 9 anos. Sua mulher depressiva e consciente das traições do marido se suicida de uma forma muito trágica. Então Bunny se ver diante de uma situação nova para ele. Cuidar sozinho do seu filho e dá-lhe uma educação decente, embora que aconteça na maioria desses casos uma projeção espelhada, e aqui não é diferente. Bunny Júnior parece que seguirá alguns passos do pai, embora não possamos ter certeza disso já que a trama se passa em apenas quatro dias.

Incomodado de habitar o local da morte de sua esposa ele parte pra ganhar a vida como caixeiro-viajante que vende produtos de beleza. Enquanto sai vendendo seus produtos, Bunny também oferece um serviço libidinoso às senhoras (e senhoritas). A cada visita o personagem encontra situações diferentes que representam uma diversidade social tão heterogênea que até o surpreende algumas vezes. Enquanto isso Bunny Júnior fica no Punto amarelo do pai lendo uma enciclopédia que ganhou da mãe e se tornando um autodidata já que não está mais indo à escola. Bunny não é um exemplo de pai e isso se mostra como um reflexo do que ele sofreu enquanto filho, seu pai que também se chama Bunny, está sofrendo de um câncer de pulmão, porém não quer parar de fumar. Além dos problemas, sua falecida esposa começa atormentá-lo até que em pouco tempo tudo culmina na morte de Bunny, o que não é surpresa já que isso é dito no título.

O final é confuso, mas compreensivo, requer certa atenção já que o autor se usa de técnicas narrativas onde mistura a “realidade” da ficção com a própria imaginação de alguns personagens. Por falar nisso o autor também se posiciona como o deus que está criando tudo, e em momentos ri dos próprios personagens colocando-os em situações muito engraçadas e é assim que o livro funciona. Um drama altamente triste e pervertido, temperado com altas doses de comédia, no estilo mais inglês possível. Assim como cria suas músicas o autor escreve usando de sua ousadia e sutileza de escrita. Aqui é preciso destacar que o protagonista tem plena consciência de que é fruto da imaginação de um autor, ou que para ele, o seu eu não passa de um ator em uma peça de teatro, sendo manipulado por aquele que o criou, e isso é notável em várias de suas falas.

Não há como não comparar a relação Bunny e seu filho com o livro do também músico, falando de paternalidade, David Gilmour, O Clube do Filme. As relações são parecidas, sendo que no livro de Gilmour, o autor conta sua própria história incrementada com certa ficção para dá um ar literário à obra. Aqui toda a narrativa é ficcional, embora alguns trechos possam ter surgido das vivências do autor. Outro livro que pode ser citado como semelhante, mas que da forma mais vaga e grosseira possível é O Dia do Curinga do filósofo norueguês Jostein Gaarder, que também aborda (de forma mais filosófica) essa relação fraternal.

Além de A Morte de Bunny Munro (Record, 352 pág.) Nick Cave escreveu And the Ass Saw the Angel (1989), que torçamos pra que chegue logo por aqui. Chegou a escrever o roteiro do filme A Proposta e ainda no cinema contribuiu com a trilha sonora de alguns filmes como o mais recente A Estrada.  No seu ramo de mais aptidão, a música, ele é vocalista das bandas The Birthday Party, The Bad Seeds (a mais famosa) e The Grinderman, porém já colaborou com PJ Harvey e a própria Kylie Minogue que é excessivamente citada nesse livro. E esse talvez seja um dos pontos negativos: a  repetição exagerada de algumas palavras, sendo que o recorde vai para a palavra “vagina” e suas variantes.

Apesar de toda a depravação, o livro nos faz rir e chorar. E refletir sobre relações humanas de uma forma diferente, quase indiferente ou grotesca. Apesar de ser um anti-herói é impossível não sentir pena de Bunny. O livro pode despertar as mais variadas reações e é por isso que o recomendo a todos. Mesmo tendo a plena certeza de que você o achará o livro mais obsceno e com a linguagem mais chula que você já leu.

Leia o primeiro capítulo do livro: AQUI!

Um comentário

  1. Quando vc mencionou que estava lendo este livro e emitiu seu inconformismo com a obscenidade achei engraçado e fiquei curioso a respeito do livro. Agora, lendo a resenha, a curiosidade aumentou mais ainda. Normalmente livros de personalidades do meio pop (música, principalmente), vêm carregados de experiências lisérgicas, absurdas (a nosso ver) e espantosas. Talvez resultado do meio onde vivem e circulam. Livros assim provavelmente devem ser lidos mais de uma vez, para fins de se capturar toda a intenção e a arte do autor. No mínimo este livro é curioso. Talvez não tenha nada a ver, mas a figura do coelho me lembrou o filme Donnie Darko. Não sei… mas sua resenha como sempre é muito enriquecedora.

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