PxP

O mercado animangático brasileiro apresenta-se em uma espécie de transição quanto aos gêneros de mangás mais comercializados. Onde antes predominava o shounen (mangá teoricamente voltado para garotos), hoje o gênero que mais ganha espaço nas bancas é o shoujo (teoricamente para garotas) e suas variações como shoujo-ai, shounen-ai e yaoi. Se aqui o shoujo está conseguindo um espaço maior só agora, no Japão ele já está consolidado há muito tempo, tendo como mangaká mais clássico Osamu Tezuka, e hoje emprega mais de 400 mangakás (mulheres) que se dedicam a este gênero. Wataru Yoshizumi é uma dessas, e eis que chega ao Brasil mais um de seus trabalhos. Dessa vez conhecemos um mangá one-shot (volume único) chamado PxP (2006), que nos apresenta duas pequenas histórias divertidas e com um pequeno fundo moral.

A primeira história e que nomeia o álbum é a mais longa, um total de três capítulos, e narra as aventuras do Ladrão “P” no Colégio Seiou. A ação desse ladrão é feita por encomenda, numa espécie de roubo mercenário, onde o contratante informa o objeto a ser roubado e deposita antecipadamente a quantia de 30 mil ienes (aproximadamente R$ 551,00). Isso poderia ser comum não fosse o fato de o valor do objeto ser inferior ao valor cobrado. É que “P” só aceita o serviço se o objeto roubado não tiver valor algum para seu proprietário, e aqui as coisas saem do seu valor material e partem para o valor sentimental de quem o deseja. Os casos geralmente são de ex-namorados que querem certos presentinhos de volta, um admirador secreto que quer algo que o faça lembrar quem ele ama e por ai vai. As ações do ladrão são de um exímio profissional, agindo em um padrão que sempre deixa um cartão com a letra “P” no lugar do objeto para fazer sua fama boca a boca.

A história não tem muitos mistérios, comum desse gênero de mangá. Quem nos narra é Ruri Himeno, mais conhecida como Hime. Ela é vice-presidente do grêmio estudantil e ex-membro do clube de vôlei, em conseqüência disso possui uma agilidade ímpar, era tida como a salvação do clube de ginástica até desistir dele. Em reuniões para discutir a ação do ladrão P as suspeitas caem sobre o bolsista Yuuma Susa, um nerd (com 250 de QI) que ganhou um laboratório de estudo particular. Essa suspeita surge do apelido de Yuuma, “Kyouju” que significa Professor, daí a letra P. Porém logo no inicio a narradora quebra o mistério já ausente revelando ser ela mesma o tal ladrão. E a explicação também está em seu apelido “Hime” que significa Princesa. Yuuma é apenas seu assistente e a ajuda a selecionar os pedidos e cria dispositivos que a auxiliam nos roubos. Hime é apaixonada por Yuuma que parece não está nem ai para ela, e é nesse romance não correspondido que se concentra o clímax.

A discussão colocada aqui é a de que até onde um roubo é um ato inocente e sem prejuízos? Mesmo que o objeto roubado não tenha valor o ato em si é o mesmo, e assim também é passível de condenação. Até mesmo porque a questão de valor é algo relativo, seja ele sentimental ou material cada um atribui o valor que a quer a cada objeto. Há ainda a questão de que a personagem cobra um valor absurdo pelo que faz, tornando-se outra espécie de roubo, mas como foi dito cada um atribui seu valor e vai depender do contratante aceitar ou não. No contexto do mangá essa escola é de milionários então para eles não há muito problema no valor.

A segunda história é bem mais curta, composta por um só capítulo, e fala sobre um grupo de Takarazuka, uma das maiores referências dos shoujo-mangás. O Takarazuka é um tipo de teatro musical muito comum no Japão, é encenado apenas por mulheres que interpretam os papéis masculinos e femininos. São de uma elegância ímpar, altamente inspirados em musicais da Broadway. As atrizes são chamadas takarasienne, que por sinal é a junção dos termos “takarazuka” com “parisienne”, do francês “mulher nascida em Paris”. Nesse teatro a atriz principal, aquela que faz o papel masculino, é denomidada TOP. Em meio a isso tem o romance de Kumi Nagumo, a garota mais popular de escola, com seu professor de matemática Tadashi Fukamachi. Nessa história se revela mais uma faceta do shoujo, a admiração exagerada e amor implícito entre personagens do mesmo sexo. Aqui nossa protagonista recebe muitos presentes no dia de São Valentim. É que no dia de São Valentim (14 de Fevereiro) as garotas presenteiam os rapazes de quem gostam com chocolates.

PxP (Planet Mangá/Panini Comics, 192 pág.) não é o primeiro mangá de Wataru Yoshizumi a chegar em terras brasileiras. Por aqui já foram lançados Marmalade Boy, Ultramaniac e Spincy Pink. Seu traço é belíssimo e PxP mostra uma grande evolução desde Marmalade Boy, seu primeiro trabalho a chegar por aqui. Sua narrativa também sofreu uma evolução e algumas de suas ilustrações são de encher os olhos pelos detalhes. Há muitos outros títulos de autoria dela, porém continuam inéditos no nosso mercado, sendo o espanhol a língua mais próxima a que foram traduzidos, já que a Espanha é um dos países que mais importa mangás do Japão. Esse mangá é uma boa forma de conhecer o trabalho da autora, porém há aqueles que não gostam de historinhas curtas.

 

Obs.: Este é mais um mangá sobre o qual escrevi uma matéria para a Revista Neo Tokyo. Já enviei a matéria ao editor e estou aguardando confirmação de seu encaixe em alguma das edições futuras. Em breve (para os padrões editoriais) a matéria, mais completa que essa resenha, estará nas bancas de todo o Brasil e eu os avisarei aqui no blog.

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