Não Contem com o Fim do Livro, de Umberto Eco e Jean-Claude Carrière

“O livro irá desaparecer?” Essa pergunta permeou (e permanece) a mente de muitas pessoas quando surgiu a ferramenta digital de valor equivalente ao livro impresso, o e-book. A novidade permitia que o leitor tecnológico tivesse a mão (ou em memória virtual) inúmeros títulos que poderia ou não vir a ler. Em seguida surgem os e-readers que são dispositivos portáteis de leitura, que permitem armazenar uma infinidade de livros nesse formato, numa espécie de superbiblioteca personalizada ao alcance de um clique. Os livros digitais tentam em tudo se assimilar ao modelo tradicional. Porém em meio a tanta tecnologia, surge o sentimento, sendo mais específico o amor ao objeto. O livro é cultuado desde a mais tenra idade, antes mesmo de se instituir livro. Remetendo ainda ao papiro, numa história de cinco mil anos, até aportar na discussão atual sobre se esse objeto frágil irá resistir e por quanto tempo. Não Contem com o Fim do Livro (N’espérez pás vouz débarrasser dês livres, 2009) é o resultado de uma discussão erudita e descomplicada acerca do tema, entre o escritor italiano Umberto Eco e o cineasta francês Jean-Claude Carrière, mediada pelo jornalista Jean-Philippe de Tonnac.

Eco e Carrière estão entres os maiores bibliófilos que já existiram, e esse amor extremo ao objeto livro lhes dar autoridade para falar com veemência sobre o destino do seu objeto de culto. Este livro é resultado de conversas entre eles que aconteceram na residência de ambos. Aqui é colocado em foco esse contraponto entre o livro impresso e o digital, porém os autores enveredam por outros assuntos, são sugados por discussões secundárias que devem ser exploradas usando o livro como parâmetro. Nisso entra a bibliofilia, a política, a religião, a cultura, a história e tudo o mais que se liga direta ou indiretamente com o objeto. São feitas críticas, colocações, suposições e previsões de um destino que para alguns ainda é incerto, mas que no fundo não é difícil de conjecturar. Afinal, se o livro for condenado ainda restarão aqueles que não abrem mão dele por nada. Se o livro não for mais um objeto de consumo para a sociedade futura ele ainda será pelo menos objeto de amor de bibliófilos, colecionadores ou de museus. A perda de utilidade não culmina no seu desaparecimento.

É inegável a praticidade e a funcionalidade dos meios eletrônicos, que aceleram e muito as buscas e pesquisas. Perde-se menos tempo digitando uma palavra para busca do que folheando o livro inteiro para se encontrar um trecho específico, porém isso não anula a identidade que o objeto impresso já adquiriu. Poucos são os que preferem ler em uma tela. No objeto há certa magia, o virar de páginas, o cheiro do papel, o tato e tudo mais. Talvez o e-book seja só uma evolução da alternativa anterior (que deu certo) para facilitar o transporte do conhecimento. Era praticamente impossível transportar consigo muitos livros por causa do seu tamanho e peso, em uma viagem por exemplo. Para isso inventou-se o livro de bolso, que além de reduzir o tamanho do objeto, reduziu seu preço e permitiu que fossem transportados numa quantidade maior. O e-book funciona mais ou menos assim, porém enfrenta alguns adversos.

A maioria dos e-books­ que circulam pela internet é pirata (um problema para as editores e autores) e estes na maioria das vezes estão fadados a péssimas traduções e diagramação de igual valor. Os que são legais e vendidos pelas editoras são caros demais por ser apenas um arquivo e não o objeto de desejo maior. Sem mencionar que para ter acesso ao objeto virtual precisa de um suporte e outros recursos, como eletricidade. Já no livro em papel ele funciona bem por si só, precisando apenas de luminosidade. Esses aspectos são discutidos com mais propriedades pelos autores do livro, que já repetiram a técnica de bate papo com outros temas, e já escreveram por si só acerca da bibliofilia. O argumento maior que sustenta a estabilidade do livro é o mesmo aplicado às outras artes que já foram ameaçadas. O teatro não desapareceu com o cinema, nem o quadro com a fotografia, o rádio com a TV e por aí vai.

Para quem gosta de boas dicas de livros e filmes, este é o lugar certo. Eco e Carrière se perdem em meio a tantas coisas a recomendar ou não, falam acerca de suas culturas e outras mais, e ainda sobre suas coleções e o futuro delas. E se arriscam falando do maior inimigo do livro, o fogo. As conseqüências de uma censura incandescente. Carrière conhecem um pouco sobre o Brasil e parece carregar certo apreço por nosso país, acaba por mencionar o maior bibliófilo brasileiro, José Mindlin e entre tantos incunábulos (livros editados entre o surgimento da tipografia até o último dia de 1500) e livros clássicos, menciona também a primeira edição de O Guarani e como Mindlin fez para consegui-lo. Mencionam também a situação atual do livro e suas formas de publicação, inclusive a vanity press, tão comum entre os novos autores brasileiros, onde os autores pagam para serem publicados obedecendo aos critérios de cada editora.

Não Contem com o Fim do Livro (Record, 272 pág.) é repleto de curiosidades históricas acerca do tema. Mas seu valor maior está na teoria e segurança dos autores acerca do assunto. Eco que já é por demais conhecido por causa de seus livros, entre eles O Nome da Rosa, O Pêndulo de Foucault e Baudolino nos deixa a par de muita coisa que não se houve falar todo dia e ainda fala sobre a influência de sua bibliofilia em suas obras. Carrière têm um currículo não menos a altura, é autor de mais de 80 roteiros para cinema, trabalhou com Luis Buñuel, colaborou com Peter Brook e é autor de mais ou menos 30 livros, entre eles Meu Tio e A Linguagem Secreta do Cinema. Este livro se torna fundamento e por que não dizer essencial para os amantes desse objeto de maior representação do conhecimento da nossa sociedade. Indispensável!

Umberto Eco
Jean-Claude Carrière
Jean-Philippe de Tonnac

4 comentários

  1. Caro amigo,
    conhecia Eco e Carriére de outras obras e confesso que quando este livro foi lançado não despertou muito meu interesse. Mas olha como são as coisas: bastou ler uma resenha bem feita e aprofundada como a sua, inclusive despertado pelas impressões das suas leituras, quando conversamos, para que eu me sentisse atraído por este livro.
    Umberto Eco é realmente aquilo que vc diz com propriedade: um bibliófilo amante incondicional dos livros, das imagens e da palavra.
    Parabéns, caro, pela resenha. Despertou meu interesse pelo livro.

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    • Olá Sérgio…

      Pois é, do Eco foi a primeira vez que o li. O Carrière eu já havia lido o “A Linguagem Secreta do Cinema”, que inclusive já resenhei aqui no blog.
      Esse livro com os dois é excelente e indispensável aos amantes de uma boa literatura.

      Espero que goste do livro!

      Abraços!

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