O Dom do Crime, de Marco Licchesi

O que aconteceria se Machado de Assis optasse por escrever um romance policial usando a trama de Dom Casmurro? Logicamente isso não aconteceu, mas para o autor Marco Lucchesi isso não seria difícil de imaginar. É com essa premissa que ele constrói seu mais novo romance, O Dom do Crime (2010). Passando-se entre 1866 e 1900 a narrativa une autores e personagens dessa época em um ambiente comum e de mútua interação. Um narrador desconhecido assume a responsabilidade de nos contar tudo que aconteceu, já que está escrevendo um livro de memórias e sendo que a vida dos outros é sempre mais interessante que a sua própria. Para evitar falatórios o narrador agenda a publicação de seus escritos apenas para o final de 2010, quando não existirá mais nenhum daqueles a quem menciona.

De início o narrador se explica, porém não se apresenta. Ele nos conta o que está se passando no Rio de Janeiro, que ainda é capital do país à época, e nos apresenta às figuras mais importantes tanto da cidade quanto da história a ser contada. Machado de Assis não é seu principal alvo, mas decerto aqueles que o inspiraram a escrever seus livros e aqui assumem o palco narrativo Capitu, Bentinho, Escobar, José Dias, Helena, o Conselheiro Aires e muitos outros que permeiam as histórias de Machado, e não apenas deste. Muitos dos contemporâneos de Machado entram em cena para “pescar” idéias para seus romances, entre eles Joaquim Manoel de Macedo, José de Alencar e Aluísio de Azevedo.

O mistério – e nem há mistério na verdade – gira em torno do assassinato de Helena por seu marido, o doutor José Mariano da Silva. Um caso que veio a ser julgado e que chamou a atenção da mídia da época. No decorrer da trama acompanhamos o julgamento do doutor, que conta como platéia o nosso narrador e outras figuras importantes, entre elas o próprio Machado. Como este é quem edita o jornal Diário do Rio de Janeiro, se interessa particularmente por esse caso e aqui vemos como Machado o usa de inspiração para escrever seu romance e construir sua estética narrativa. Paralelo ao julgamento do crime, temos o desenrolar do relacionamento de Bentinho, advogado, e Capitu, que fica à janela olhando os transeuntes, e com isso despertando então ciúmes em seu marido.

O livro não tem muito mistério, mas prende pela curiosidade que desperta naqueles que já leram as obras de Machado. Ainda que ficção, esse relato funciona como um ensaio sobre a vida desse autor e de suas obras que são constantemente citadas de forma explícita. Sem contar que há um mar de referências literárias, além dos autores que já foram citados, há ainda a influência das obras de Dante (Divina Comédia e Inferno) e em especial O Médico e o Monstro de Stevenson, que reflete todo o caráter do crime em questão.

O Dom do Crime (Record, 160 pág.) brinca com possibilidades e hipóteses que talvez tenham de fato acontecido, não literalmente como é narrada aqui, mas em essência, já que a criação literária no geral reproduz a vida real, tirando delas personagens, ambientes, casos entre outras coisas. A habilidade de Lucchesi ao construir bem essa história torna-a crível, o que é basicamente o que se espera de um romance que se utiliza de fatos históricos. Há até quem acredite que o relato seja de fato verdadeiro.

Marco Lucchesi é professor da UFRJ e já escreveu vários livros, sendo premiado diversas vezes por eles. É também tradutor e ensaísta. Nesse romance ele se utiliza de sua notável erudição, dando à sua obra um caráter literário pesado, que não fica muito atrás da narrativa do próprio Machado. Ele usa-se dos mesmos elementos estéticos que foram usados por Machado em suas obras, e aqui soma-se a mentira, a ilusão e a ambiguidade, que se tornam mais nítidos em casos de adultério. A realidade ficcional criada por Lucchesi é tão verossímil que chega a ser palpável por quem conhece de fato a história do autor e seu contexto histórico e geográfico. É com isso que o autor no prende, dispensa-se o mistério por muitos exigido, não se precisa dele para que a leitura flua. Recomendo.

OBS: O Dom do Crime é uma cortesia da editora Record para sorteio no Clube de Leitura do dia 06/02, onde será discutido o livro O Alienista de Machado de Assis.

2 comentários

  1. Ademar, suas resenhas simplesmente instigam a nossa vontade de ler. Nesta, por exemplo, minha curiosidade foi aguçada e o interesse pelo livro foi despertado pela clareza com que vc expõe as linhas gerais do romance. Parabéns, mais uma vez, pelo blog e pela satisfação cultural que vc nos oferece com seu trabalho. Abraço.

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    • Olá Sérgio,

      Seus comentários são excelentes e instigadores!
      Fico feliz que tenha gostado da resenha, creio que irá gostar mais do livro, que por sinal é excelente!

      Obrigado mais uma vez pela visita e comentário!
      Abraços!

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