O Alienista


Machado de Assis é de longe considerado o melhor brasileiro, mesmo que alguns discordem, é assim que ele é conhecido. Sua extensa obra é marcada por duas fases da literatura brasileira, romantismo e realismo, sendo que a segunda é considerada sua melhor fase. O Alienista (1882) foi publicado originalmente no periódico A Estação sendo em seguida incluído no volume Papéis Avulsos. Trata-se de uma das duas novelas escritas por esse autor, embora haja quem o classifique como um conto longo devido a sua estrutura, mas isso é algo a se discutir, levando em conta o número de personagens da história. Bom, conto ou novela, o que importa é que essa foi uma de suas obras mais bem aceitas pela crítica. Ainda que sua obra máxima seja considerada Memórias Póstumas de Brás Cubas. Mas também há quem prefira Dom Casmurro. Isso mostra como o autor se reflete na qualidade de suas obras.

Em O Alienista (Ática, 56 pág.) conhecemos Simão Bacamarte, um médico formado na corte portuguesa e amigo de Dom João VI, que veio ao Brasil, mais precisamente a Itaguaí, para exercer seus estudos científicos. Ao se apaixonar pela psiquiatria ele resolve criar uma Casa de Orates, ou melhor dizendo, um hospício, ao qual nomeia de Casa Verde. Nela são internados todos aqueles que segundo Simão apresentam algum desvio psicológico, sendo os casos mais frequentes os de monomania. Quando quatro quintos da população é internada é que se instala o pânico e a revolta dos cidadãos de Itaguaí. Há sucessivas tomadas de poder e é então que Simão muda sua teoria e solta a todos resolvendo internar o um quinto que estava solto.

Essa mudança teórica de Bacamarte não apenas causa espanto aos habitantes da pequena cidade como também nos mostra boa parte da ironia machadiana. Ele critica não apenas o fato da constante mudança científica em que hoje estudamos algo que amanhã é diferente, como também nos faz refletir que não existe perfeição. É muito tênue a linha que divide a sanidade da loucura, sendo notórios apenas os casos extremos. Sabe o ditado “de gênio e louco, todo mundo tem um pouco”? Então se cada um que tivesse suas manias fosse taxado de louco, todos estariam internados, e é o que Bacamarte tenta, em vão, fazer. Mas será que existem pessoas perfeitas? É constatando que não, que o então doutor resolve prender aqueles que aparente o demonstrem ser. Errar é humano, e é o erro (ou a grosso modo o pecado) que vai diagnosticar o ser humano normal. Isso fica nítido quando Simão testa o senso de “justiça” das pessoas.

A trama beira o exagero e isso marca a obra como inovação do autor até então, mesmo que essa temática e estética perdurem, como é o caso das citadas Memórias Póstumas, que eu creio todos conheçam. A habilidade maior de Machado não é de fato escrever bem, já que o fazia naturalmente, mas sim prender o leitor. Quem se abstrai em sua linguagem e consegue progredir com a leitura dificilmente largará um de seus livros pela metade, pelo menos não aqueles citados aqui.

O Alienista é ainda um meio que o autor usa para abordar outros aspectos, entre eles o científico, filosófico, político e religioso de várias situações sociais que vivemos. A constante disputa pelo poder da Câmara Municipal é um exemplo forte, chega a lembrar A Revolução dos Bichos de George Orwell, quando um critica o outro, mas no seu lugar faz o mesmo ou até pior. Há uma pauta religiosa, marcada pelos personagens eclesiásticos e também por elementos e citações bíblicas, note quando ele usa o termo “hebreu” para metaforizar a diáspora, pode-se ainda fazer analogia das crônicas que contaram a história no universo narrativo ao livro bíblico homônimo.

Esse livro não é apenas leitura obrigatória para se conhecer a obra de Machado, mas é também uma experiência literária única. Impossível não ter vontade de reler. Para quem se interessar pela história é possível ainda desfrutá-la em forma de filme com um especial homônimo da Globo de 1993 e um longa-metragem chamado Azyllo Muito Louco de 1970 com direção de Nelson Pereira Santos. O livro ganhou ainda quatro adaptações para quadrinhos sendo uma delas assinada pelos gêmeos Fábio Moon e Gabril Bá, que fizeram um excelente trabalho. Há também uma adaptação para fantasia feita por Natália Klein intitulada O Alienista Caçador de Mutantes. Vale a pena conferir!

OBS: o livro O Alienista foi sorteado para ser o tema do primeiro clube de leitura de 2011 que acontecerá neste domingo 06/02. Este exemplar é ainda uma cortesia da editora Ática para sorteio no dia do encontro.

Um comentário

  1. Ademar,
    li O Alienista há muitos anos atrás, e a obra é cada vez mais atual. Fico feliz por vários motivos, ao ler mais essa excelente resenha nesse blog não menos excelente.
    O primeiro motivo é reencontrar esta pérola da obra machadiana comentada com tanta propriedade e atualidade por um jovem amante da cultura e dos livros como vc. Suas resenhas, nao canso de repetir, são um incentivo à leitura ou á releitura, como nesse caso específico, pois vc fala com grau de conhecimento daquilo que escolhe postar neste blog.
    Outro motivo é saber da escolha de o Alienista como abertura para o Clube do Livro, coordenado por vc. Felizes os participantes que terão na sua pessoa um sólido alicerce para embrenhar no mundo rico e inesgotável da literatura.
    Meu afetuoso abraço amigo e o desejo de que na reunião do Clube do Livro tudo corra a contento e que cada dia mais surjam novos participantes.

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