A Última Entrevista de José Saramago

É sabido de todos que José Saramago foi, e ainda é, um dos maiores escritores de língua portuguesa. Ainda que tenha falecido no ano passado, o nome de Saramago carrega a fama de ter sido o primeiro autor de língua portuguesa a ganhar um Prêmio Nobel de Literatura. Recebia também o título de embaixador da Lusofonia, e carregava consigo um ódio confesso pelo cristianismo (e demais religiões). Sendo suas obras um reflexo explícito do seu ateísmo militante. É por tudo isso que o jornalista português José Rodrigues dos Santos resolveu registrar em A Última Entrevista de José Saramago (2010), suas conversas com seu ídolo, que acabou sendo publicada como este livro-entrevista.

O livro foi autorizado e recebeu revisão do próprio Saramago, que morreu exatamente oito meses após a conversa aqui presente. Apesar de ser um volume bem pequeno, que na verdade nem chega ao tamanho convencional de um livro, A Última Entrevista de Saramago (Usina de Letras, 62 pág.), funciona como documento memorial e até um marco da vida pública do autor, por ter sido de fato a última entrevista dele, onde ele fala abertamente sobre sua obra no geral (não apenas de um livro específico) e até sobre sua vida. Porém há que se acrescentar que o autor poderia ter aumentado o número de páginas com dados biográficos ou bibliográficos. O que não deixa de ser uma dica para futuras novas edições que possam vir a surgir.

O que marca no livro é a curiosidade que ele trás pelas respostas de Saramago. Com uma abordagem ampla José Rodrigues, tenta conduzir o veterano em uma conversa rápida, e tinha que ser, dita pelo estado de saúde de Saramago, mas que no fim das contas engloba suas opiniões acerca de religião, política, literatura, vida e morte. Explica também um pouco sobre sua forma lingüística, que para muitos é tida como sensacionalista.

Saramago chega a dizer que em um livro “o mais importante de tudo é linguagem” e é assim que explica o modo corrido com que usava para escrever suas obras. Nisso ele põe em questão que não basta apenas ter uma boa história para contar, uma boa história, para que se torne um bom livro, deve ser primeiramente bem escrita e estruturada. Quando perguntado sobre a militância usada em Caim, ele responde que não se arrepende de nada do que escreveu e que tudo aquilo que ele dita acerca de Deus é apenas o que se pode interpretar ao ler a Bíblia.

José Saramago não deve ser conhecido apenas por tudo isso que foi dito aqui, mas também pela sua contribuição à literatura como um todo. Torna-se leitura obrigatória, da qual pode-se enumerar suas obras mais conhecidas apenas para começar Memorial do Convento, Ensaio Sobre a Cegueira, As Intermitências da Morte, O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Caim. Recomendo!

 

Um comentário

  1. Ademar, José Saramago é meu escritor contemporâneo favorito. Desde o momento que tive contato com uma primeira obra desse autor, que foi As Intermitências da Morte, não parei mais de lê-lo. Seguiram-se Ensaio Sobre a Cegueira (um dos melhores livros que li na década passada), Caim, Ensaio sobre a Lucidez e Todos os Nomes, dentre outros. cada livro uma revelação. Cada livro a certeza de mais e mais me identificar com as idéias desse grande escritor e grande homem do nosso tempo.

    Esse livro-entrevista, tão bem apresentado por vc em sua resenha, aliás, uma coisa comum nesse blog, somente demonstra que José Saramago foi um diferencial nas letras de língua portuguesa. Li o pequeno livro em viagem e gostei muito, embora nao traga novidades.
    Parabéns, mais uma vez, pela sua resenha esclarecedora.

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