Entrevista: Alex Barclay

ALEX BARCLAY tem 36 anos, é formada em jornalismo com especialidade em moda, já chegou a escrever para revistas nessa editoria, mas hoje se dedica integralmente ao ofício de escritora. Seu romance de estréia, Olhos de Falcão, foi publicado aqui no Brasil pela editora Bertrand do Grupo Editorial Record, numa edição belíssima e luxuosa. Leia minha resenha AQUI. Alex já está em processo de produção do seu quinto romance e o segundo tem previsão de ser lançado aqui no Brasil ainda esse ano. Dona de uma escrita eletrizante e cativante, Alex Barclay se apegou ao gênero policial para escrever seus livros. Apesar de que sonha em escrever em todos os gêneros. Em entrevista exclusiva ao Cooltural, Alex, mesmo sendo muito reservada, nos conta sobre sua rotina de escrita e fala sobre os temas complexos de seus livros. Confira!

Cooltural – Alex, você foi uma grande revelação para nós (brasileiros) esse ano.
Alex Barclay: Muito obrigada, que país tão legal para ser uma revelação.

Cooltural – Como foi seu início de carreira e como é sua rotina de escrita? O mercado editorial na Irlanda é muito exigente?
Alex: Eu trabalhei como jornalista e redatora durante dez anos, em seguida comecei a escrever Olhos de Falcão. Desde então, eu escrevi mais três romances policiais, e estou na metade da produção do quarto livro. Os dois primeiros, Olhos de Falcão e The Caller, apresentam o Detetive Joe Lucchesi e o Departamento de Polícia de Nova York. Blood Runs Cold e Time of Death apresentam o Agente Especial do FBI Ren Bryce e as histórias se passam no Colorado.
Eu não tenho rotina quando estou escrevendo – Eu considero a rotina realmente sufocante, então todo dia é diferente, e toda noite também.

CoolturalOlhos de Falcão, seu romance de estréia aborda diversos temas, muitos deles polêmicos. É sua intenção nos passar uma mensagem específica acerca desses temas ou seu livro tem como única finalidade o entretenimento?
Alex: Um romance policial tem que entreter, mas para mim é impossível não incluir uma mensagem em algum ponto. Em Olhos de Falcão, eu queria mostrar os devastadores efeitos do abuso. Eu desprezo como os pedófilos justificam seus crimes, ou como, em primeiro lugar, eles nem ao menos reconhecem que cometeram um crime. As crianças são muito preciosas e é muito fácil prejudicá-las, isso parte meu coração. Com Olhos de Falcão, eu escolhi um futuro dramático e violento para este garotinho interrompido, mas essa foi apenas uma história, um possível resultado de uma infância com abuso, mas felizmente, uma incomum. Há muitos fortes sobreviventes de terríveis passados.

Cooltural – Esse livro apesar de ser um romance policial, foge um pouco do padrão clássico, onde tentamos descobrir quem é o assassino, aqui o mistério se concentra em saber se o assassino será preso. Porque escolheu esse gênero para começar e porque o desenvolveu dessa forma?
Alex: Eu cresci lendo romances policiais, então é um gênero que conheço e amo. Porém, esse não é um gênero que eu estudei, analisei e desmontei. Acredito que uma história deve vir do seu coração e não deveria seguir uma fórmula ou uma idéia ou experiência de um autor de como um romance deveria ser. Cada um dos meus romances leva a uma abordagem diferente para a resolução de um crime – para manter a escrita um entretenimento para mim, mas também para excitar e surpreender os leitores, e permitir a eles que sempre levem sua própria imaginação ao longo da viagem.

Cooltural – O livro, além de várias abordagens psicológicas, trás diversas curiosidades, como é o caso da entomologia, que chama a atenção do leitor. Como se deu o processo de pesquisa para esse livro? Foi muito difícil e demorado?
Alex: Eu dedico muito tempo à pesquisa de cada livro, e essa é uma parte do trabalho que eu amo. Sim, consome tempo, mas nunca é difícil – é sempre algo que eu aprecio, mas isto porque eu escolho temas que me interessam, do contrário seria como uma tarefa. Quando surge a trama, eu vou aos peritos nos vários campos dos quais estou tratando, converso com eles sobre o enredo, faço perguntas, portanto mantenho contato com eles durante o processo. Tenho sido inacreditavelmente sortuda com minhas fontes… Eles são um verdadeiro grupo de pessoas inteligentes, interessantes, generosas e divertidas.

CoolturalAlex, você é graduada em jornalismo, especializada em moda, e nós podemos ver a influência disso na personagem Anna Lucchesi, que tenta ser uma designer da Vogue. Isso é uma demonstração de insatisfação profissional ou apenas um modo de projetar a si mesma na sua própria história?
Alex: A Anna trabalha como uma designer de interiores porque esse é um emprego que proporciona aos Lucchesis uma oportunidade para viver em outro país, e ainda manter o padrão de vida, enquanto Joe estava de folga. Essa também foi uma boa maneira de mostrar alguns de seus traços característicos. Porém, naturalmente, eu dei a Anna um emprego que me interessa. Eu amo todos os tipos de design – de gráficos, moda, interiores, filme. É também uma área da qual sou familiar, junto com publicidade de revista. Se eu não estivesse neste emprego, ser uma designer de interiores seria uma das minhas cinco principais alternativas. Para mim, uma das melhores coisas em ser escritora é poder escolher os temas sobre os quais eu escrevo. De certa forma, é como ter cem empregos em um.

Cooltural – Joe Lucchesi tem uma personalidade meio anti-heroica, sendo às vezes humano demais. Você acha que falta essa verossimilhança na maioria dos protagonistas de livros?
Alex:Joe Lucchesi é um rígido, esperto e talentoso detetive do Dep. de Polícia de Nova York. Mas eu não queria parar por aí – eu queria mostrar algo da sua vida em família, para aumentar a tensão, e aumentar as apostas quando as coisas vão mal. Na vida real, as pessoas estão interessadas na vida pessoal de qualquer um com um emprego dramático, nós queremos ver aquele outro lado dele, por isso em todos os meus livros, você tem a visão do que está acontecendo fora do trabalho, junto com o que acontece no trabalho. Eles sempre causam impacto um no outro.

Cooltural – O vilão da história (Duke Rawlins) parece executar seus atos de crueldade e vingança como consequência de traumas da infância. Para você não existe maldade sem causa, ou como você vê a influência de nossas lembranças da infância na vida adulta?
Alex:
Todos nós somos influenciados, de muitas maneiras diferentes, pelas nossas experiências da infância, e obviamente as más experiências causam maior impacto. Mas eu penso que é importante não viver pensando nos eventos do passado, porque ninguém deveria ser permitido destruir o seu futuro inteiro. Se, por exemplo, alguém prejudicou você de alguma forma, acho que você deveria falar a um profissional, contar às pessoas que você ama, e tentar reivindicar a vida que você merece, ao invés de deixar que outra pessoa prive você do futuro que você merece.

Cooltural – Apesar de que aqui só foi lançado seu primeiro livro, você já escreveu quatro romances (que estamos torcendo para que cheguem logo por aqui). Como você encara essa abrangência do seu trabalho?
Alex: Eu não penso muito nisso – em geral, fico apenas absorvida com o livro que estou trabalhando atualmente.

CoolturalOlhos de Falcão é sucesso aqui no Brasil. Sabendo disso, você tem interesse de conhecer nosso país, um dia?
Alex: Eu acho que o Brasil é um daqueles países que todo mundo quer visitar. Eu sempre quis ir a esse país. Parece tão vibrante, cheio de cores e acolhedor. Estou feliz por Olhos de Falcão ter sido um sucesso aí – você nunca sabe como seu livro será recebido em territórios diferentes. Se eu puder, espero viajar para o Brasil em 2011.

Cooltural – Está com algum projeto em andamento? Pode nos adiantar alguma novidade?
Alex: Estou trabalhando a sequência de Time of Death – que será publicada em 2011. Em seguida, estarei no próximo avião com destino ao Brasil.

Cooltural – Você usa muito a internet para divulgar seus trabalhos e projetos? Onde podemos ficar por dentro de novidades? Você tem Twitter?
Alex: Apesar de ser uma pessoa pública, eu sou bastante reservada, portanto sou muito tímida com relação à publicidade. Sei que eu deveria ser mais presente na internet, mas eu escrevo o dia todo, então quando não estou trabalhando no livro, gosto de ficar longe do meu computador, fazer outra coisa. Os leitores podem enviar e-mails para mim diretamente [alex@alexbarclay.co.uk] e sempre vou responder, por isso acho que ainda sou acessível e deixo as pessoas saberem no que estou trabalhando.

Cooltural – Que conselho você daria para os novos escritores que pretendem lançar seu primeiro livro?
Alex: Aproveitem enquanto estão escrevendo e quando terminam de escrever. Não se aflijam e não se preocupem demais com isso. Eu não sei como isso funciona no Brasil, mas no Reino Unido e nos EUA, você sempre deve enviar o livro a um agente primeiro, não diretamente a um editor.

Cooltural – Check-list Cooltural:
Livro favorito:Rebecca, de Daphne du Maurier
Autor favorito: Jim Thompson
– Ator ou Atriz: É tão difícil de escolher só alguns, portanto estou trapaceando: Tom Hardy, Oliver Platt, Robert de Niro, Anthony Hopkins, Phillip Seymour Hoffman, Jesse Eisenberg, Mark Ruffalo… Atrizes: Cate Blanchett, Helen Mirren, Eva Mendes, Meryl Streep, Michelle Williams, Carey Mulligan…
Filme: Faço menção especial ao brasileiro “Cidade de Deus” – um excelente filme.
Diretor: Com Cidade de Deus como meu filme favorito, consequentemente, Fernando Meirelles. Também Martin Scorsese, Ridley Scott, The Coen Brothers, Guillermo del Toro, Peter Jackson, Steven Spielberg, Christopher Nolan…
Um sonho a realizar: Escrever um livro em cada gênero.
Um álbum musical:Nevermind do Nirvana.

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3 comentários

  1. Muito boa entrevista Ademar, e a Alex parece-me, de fato, ser uma pessoa muito acessível. Ainda não tive a oportunidade de ler o livro dela, mas é um gênero que me atraia e entrará na minha lista de livros para serem lidos “urgentemente”.

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    • Meu caro amigo Ademar, vc como sempre se superando. Essa entrevista está DEMAIS. Gostei de conhecer a escritora e sua proposta literária. Vou procurar ler o livro aqui mencionado, pois despertou meu interesse.
      Mais uma vez parabéns pelo seu trabalho e pelo blog COOLTURAL, que é uma riqueza.
      Abraço.

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  2. Parabéns pela entrevista Ademar!
    Creio que as entrevistas que você faz, tornam o seu blog muito mais dinâmico e gostoso de ler.
    Adorei as idéias da Alex, e já que o livro “Olhos de Falcão” é um sucesso aqui no Brasil, desejo lê-lo em breve.

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