Boiando em Moçambique

Há certo tempo atrás dizia-se que a internet seria o pivô que culminaria com o fim do livro impresso, diga-se pelos blogs e a facilidade de se expor através deles, e ainda pela disseminação dos tais e-books. Certo tempo já se passou desde que esse comentário foi proferido e o livro persiste firme e forte, e eu diria que com força maior atualmente. Está ficando cada vez mais fácil publicar, ainda que muitas vezes seja preciso pagar por isso. E a internet tem sido um suporte para a divulgação dos livros. O que se ver agora são os livros sendo meios de divulgação da internet, e este livro é um exemplo disso, em Boiando em Moçambique (2011) temos a impressão de um blog criado em 2009 por Rafael Moralez, que de forma abrupta resolveu passar um semestre nesse país africano.

Acho que alguns já ouviram falar, mas nem todos sabem que dividimos o mesmo idioma com esse país do sul africano. A diferença está no fato de que Moçambique é um país extremamente precário, que vive ainda num estágio primordial e quase inerte de evolução na área política, cultural, saúde, educação e muitos outros setores (quase todos pra falar a verdade). Rafael estava terminando seu mestrado na área de epistemologia e resolveu ir pra África conhecer, “descansar” e concluir seu trabalho de conclusão de curso. Incentivado pelos amigos ele resolveu criar o blog, homônimo ao livro, para manter seus amigos, família e qualquer curioso sobre o modo de vida desse país. Em suas postagens Rafael fala como um morador e não apenas um turista, nisso ele tenta evitar certos comentários pejorativos em relação ao país.

Tentando também fugir da chatice de um falatório infindável, o autor fazia suas postagens rápidas e se concentrava mais nas curiosidades sobre o modo de vida local. Instalado em Tete (e Moatize), cidadezinha do interior que passa algumas dificuldades, que Rafael sente na pele (eu diria no organismo todo), como o calor, a falta de saneamento, os insetos e outros fatores dificultantes para um estranho. Mas o mundo que se abriu para o autor, e para nós leitores, é imenso. Conhecemos fatos históricos e culturais desse nosso irmão lusófono, que pouco conhecemos ou quase não nos interessa. O bom humor nas postagens quebra parte do sentimento de pena que geralmente aparece quando se fala da extrema pobreza africana, e é impossível não “morrer de rir” em algumas peripécias de Moralez. Sem contar o fato de que o livro é ilustrado com diversas fotos dos melhores momentos da estadia.

Boiando em Moçambique (Balão Editorial, 216 pág.) é mais que um relato, é um retrato de uma cultura, pintado por um estranho que se prestou a se tornar um nativo por um tempo determinado. E o resultado é excelente, merecendo mesmo ter sido impresso. A Balão Editorial é uma editora muito nova e que conta ainda com poucos títulos publicados, mas o trabalho editorial é excelente e vale a pena conferir. No blog é possível ver fotos inéditas no livro, e ainda ler todas as postagens. No site da editora é disponibilizado gratuitamente um fanzine baseado nessa aventura de Rafael Moralez, que por sinal é roteirista de quadrinhos também. No fanzine chamado Boiando em Moçanzine Rafael quadriniza alguns episódios, servindo assim como complemento para a leitura do livro. Recomendo!

8 comentários

  1. Haha, só uma correção. Ele não tava lá propriamente conhecendo ou “descansando”. Ele trabalhava lá em alguma empresa ou órgão (não sei ao certo) ligado à educação. Rafael não menciona isso, parece que não podia, sascoisas.

    Mas a resenha tá legal. 🙂

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    • Então Cássia!
      Obrigado pelo comentário!
      Pois é, eu esqueci mesmo de mencionar o trabalho, mas acho que pelo fato de que ele não fala muito nele! Lendo o “prólogo” eu percebi que a intenção maior era conhecer mesmo outro lugar, já que o emprego nem era lá essas coisas e ainda com todas as adversidades, foi por isso também que coloquei o descansar em aspas, porque ele sabia das adversidades por ter lido as tais letrinhas miúdas do contrato!

      Beijos linda, sempre bem vinda!

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  2. O melhor de tudo, é que encontramos uma forma legal e criativa de não abandonar os amados livros, e ainda assim conectarmos estes as novas tecnologias.
    😀

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    • Oi Malu,
      Eu achei o livro super divertido, tem umas partes que sufoquei de rir! E em outras eu abria a boca por ser ignorante em relação a hábitos e tradições da cultura de Moçambique!
      Conheci alguns moçambicanos aqui em Teresina, no Festival de Teatro Lusófono e eles são muito simpáticos!
      Essa união de impresso/virtual muitas vezes dá certo sim, e acaba por complementar um ao outro!

      Beijos

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  3. Sim, Ademar, mas nem sempre se arranja um emprego pelo que ele proporciona de retorno financeiro ou algo do tipo. Pelas passagens em que ele fala sobre seu trabalho, tenho a vaga impressão de que Rafael Moralez estava lá mais para ajudar. Até mesmo porque a educação de Moçambique não é boa (acredito que não deva ser muito diferente de muitos lugares daqui, principalmente no interior nordestino).

    E eu fiquei com a impressão de que o emprego dele era bom pros padrões locais (da cidade em que ele vivia). Ele tinha como se alimentar bem, tinha internet, podia viajar, tinha uma bicicleta (que lá é um item caro que nem todos podem ter). Era uma vida que nem todos ali poderiam ter. Como ele bem falou, naquela cidade, ele era “rico”.

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    • Pois é Cássia, essa do ajudar fica mesmo implícito! Eu também pensei assim, e acho que se fosse eu lá, teria essa intenção, pelo menos em partes!

      O padrão dele lá era alto mesmo, e chega a ser engraçado, mas mostra como as coisas são relativas quando se leva em conta as diferenças dos lugares. Contudo, eu penso que além da vontade de trabalhar e ajudar, havia também a sede por conhecer lugares diferentes, como ele fala quando cita outras viagens e episódios marcantes delas, sem contar as viagens que ele fazia dentro do próprio país!

      Eu particularmente tenho muita vontade de sair por ai conhecendo o mundo afora, mas quando penso em algumas adversidades fico meio receoso! Achei digna a coragem do Moralez!

      Beijos!

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    • Guilherme,
      Fico feliz de vê-lo, como editor, comentando nesse blog!
      Muito obrigado por tudo, principalmente pelo livro!
      Abraços!

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