Odara, de Márcio Paschoal

Alguns livros marcam a gente pela excentricidade ou apenas pela experiência da leitura. Odara (2011) se encaixa nessa afirmação pelo fato de ser um livro que trata de um tema peculiar e pouco comum. O livro escrito pelo economista Márcio Paschoal traz como personagem principal um garoto chamado Normando, que desde cedo se ver uma pessoa diferente, entenda-se por diferente aquilo fora do que se considera convencional. A medida que cresce, Normando se torna também Odara, um travesti incomum e ao mesmo tempo marcante. A polêmica que geralmente se atribui ao tema torna o livro ainda mais interessante.

Devo dizer que de longe foi um dos livros que mais me surpreendeu nesses últimos tempos. Narrado em primeira pessoa por Odara/Normando, todos os fatos são explicados pela visão desse ser humano marginalizado que muitas vezes não tem voz (nem vez). No que a narrativa avança a personagem vai amadurecendo, porém com esse avanço surge também certa dúvida sobre sua índole. Márcio não coloca o arquétipo marginal como vítima, mas como ser humano, e esse é o ponto mais positivo. Aqui Odara é vítima na mesma medida em que é também predadora.

 Com uma personalidade multifacetada o travesti, vai construindo sua história com diversas aventuras, muitas delas sexuais, usando também um nome para cada situação. A ficção aqui, assim como a realidade, é nua e crua, tornando o livro tanto crível como verossímil. A narrativa de Odara é intercalada com o depoimento dos demais personagens acerca dela mesma. E na maioria das vezes as versões não batem, colocando sobre a protagonista um ar de falsidade, dissimulado e manipulador, algo tipicamente humano. A irreverência está não apenas ai, mas também no fato de que Odara, foge mais uma vez do que se acha convencional, e se mostra um travesti letrado, amante dos grandes poetas russos e da alta literatura, nutrindo também o sonho de se formar em biblioteconomia.

Márcio se inspirou em algumas personalidades que representam bem esse tema, entre elas dá pra citar homenagem a Roberta Close, Ariadna (ex-BBB) e a modelo Lea T. A feminilidade não é exclusiva ao sexo feminino, e Odara, ainda que não queira mudar de sexo, sente-se cheia de feminilidade. É meiga, educada e bem resolvida, e na maioria das vezes passa-se facilmente por uma mulher perfeita.

Em Odara (Record, 256 pág.) há certa busca pela aceitação, sendo a protagonista o baluarte maior dessa luta. O autor mescla a vulgaridade típica do tema com referências a mais alta estirpe literária. É possível se repugnar em algumas falas, onde o autor utiliza palavras do mais baixo calão (e por isso o livro é recomendado para maiores), como também é possível se maravilhar com referências implícitas e sublimes. Achei interessante quando o autor compara a transformação (corporal) de Odara a um caso kafkiano, diga-se pela metamorfose. Em determinado momento o autor envereda por narrar um fato atípico e de certo modo incoerente, levando o travesti para um meio que dificilmente lhe caberia. Não sei se tentando inserir o tema no meio, o fato é que nesse momento a narrativa perde um pouco a verossimilhança.

De qualquer forma é uma leitura que vale muito a pena. Recomendo (ao maiores de idade, pelo menos).

39 comentários

  1. Hum,eu achei bem interessante,e me interessei um pouco embora eu não goste muito de ler,mais essa historia de um travesti me interessou mesmo ;D Parabéns Ademar pela sua resenha você é ótimo

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    • Felipe,
      Odara é um ótimo livro mesmo! É raro ver livros tratando desse tema de forma tão aberta, então já vale dá uma lida!
      O livro é bem curtinho e gostoso de ler!
      Obrigado pelo comentário!
      AbraçoS

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    • Zé,
      O livro é realmente interessante, e o que achei mais interessante é que quando o livro vai se desenrolando acontece reviravoltas que me deixaram boquiaberto!
      Abraço!

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    • O livro é realmente curioso, Gerson!
      A sinopse não diz muita coisa sobre ele, a surpresa fica mesmo durante a leitura!
      Abraço!

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    • Então, Allysson…
      Espero que goste mesmo, mas acho que esses temas polêmicos parecem muito com o que você gosta de ler!
      Caio F. apesar de já ser consagrado também escrevia coisas inusitadas, e você também muito fã dele, né?
      Abraços!

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  2. Devo confessar que adoro temas ligados à sexualidade, por isso, obviamente, esse livro me chamou a atenção! Mais do que simplesmente entreter, ‘Odara’ deve, de uma certa forma, cumprir uma função social – de ajudar na aceitação de uma homossexualidade ou simplesmente servir de espelho para alguém, já que muitas vezes, acreditem, se enxergar em uma personagem que tem uma história semelhante a nossa é extremamente confortante. Em suma, o livro deve ser bom, os escorregões – poucos, fazendo justiça – do crítico não tirou a curiosidade de ler!

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    • Kaio Eduardo,
      Eu também gosto de temas ligados a sexualidade [preciso ler logo os livros de Foucault a respeito] e religião, acho que devem ser temas discutidos abertamente, sem tabus e isentos de preconceito gratuito. Márcio Paschoal traz uma abordagem diferente para o travesti, não por falta de conhecimento sobre a vivência deles, mas simplesmente para mostrar a possibilidade de diversas personalidades para eles, que pela imagem que são pintados, estão fadados a pessoas sem caráter e que vivem apenas do sexo, o que não é verdade!

      Você falou algo legal, usar personagens homossexuais permite que muitos leitores que pertencem a essa orientação sexual se identifiquem mais com certos livros, que fogem do massantes romances com casal “padrão”! Achei bem válido!

      Obrigado pela atenção aos meus escorregões, ninguém melhor que um técnico pra apontá-los, hehehehe

      Abraços!

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  3. Me interessei bastante pela resenha bem feita q vc fez Ademar…
    O livro parece ter um drama psicologico muito grande em torno da propria indentidade da Odara e isso me deixou aguçado e com mais interesse de ler!!!

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    • Kaio Rodrigues,

      O livro tem sim uma abordagem psicológica da personagem, ela passa por um imenso conflito interno na fase da adolescência, onde o bullying era opressor. Depois já adulta você verá [durante a leitura], que Odara quer se multifacetar propositalmente para evitar que a pressão caia apenas em uma de suas faces.

      Espero que goste! Abraços!

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    • Jay,
      O assunto é inovador em se tratante de literatura, né?
      Embora o mercado editorial nessa linha já esteja engatinhando, temos aqui no Brasil até selos editoriais que publicam sobre o tema!

      Acho que assim como os outros temas e gêneros, esse merece espaço também!
      Abraço

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  4. muito interessante a proposta do livro em tratar de um tema de grande interesse…muito boa sua abordagem!
    ótimo como sempre!

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    • Obrigado, Carlos!
      O tema é interessante sim, apesar de que desperta certo receio em alguns, mas o autor conduz bem a história. A questão é que precisamos olhar a situação com menos julgamentos prévios, por isso digo que vale a pena dar uma lida!

      Abraços!

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  5. O que gostei foi desse outro lado mostrado; o lado humano. Já que outros veículos de informação utilizam o lado mais marginal, uma espécie de “pelo menos toquei no assunto”, utilizando de piadinhas preconceituosas… Fiquei curioso, por causa desse ponto.
    Boa resenha, Ademar.

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    • Sim Eddie,
      O lado humano é o que falta em muitos personagens, Odara tem bastante disso. Ela enfrenta muitas mazelas sociais, o que a torna uma pessoa de personalidade forte!
      Você falou algo muito interessante sobre o que alguns veículos colocam como imagem para caracterizar os travestis!
      Obrigado, abraços!

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  6. Odara, é de fato uma história bem instigante de ser lida
    Como fora mencionado anteriormente é um livro que vem pra cumprir uma função social, e, trabalhos que primam por essa temática, têm o meu respeito e minha admiração!Parabéns pela resenha Ademar, você trouxe um quê de leveza para a narrativa, aguçando a curiosidade de nós leitores! Recomendarei aos meus amigos e amigas! Um abraço

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    • Raylson,
      Odara é além de tudo um livro gostoso de ler, mal tinha começado a ler e já estava chegando as suas últimas páginas!
      Recomende sim, além da função social, o livro apresenta o tema sem enrolação e permite que se conheça um pouco sobre o assunto!
      Obrigado pelo comentário!
      Abraço!

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  7. Ademar, a resenha, como sempre, é estimulante, pois chama a atenção para um autor que não é tão conhecido assim (pelo menos para mim). Gostaria de saber se esse é o único livro dele (romance). Deixo aqui meus parabéns para vc, pois suas resenhas além de ótimas, prestam grande serviço aos leitores ávidos por novidades. Abraços!

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    • Sérgio,
      É sempre bom ver um comentário seu por aqui! Respondendo a sua pergunta: Sim, Márcio Paschoal tem outros livros lançados desde romances, contos, crônicas até livros infantis! Como lhe interessam os romances, ele publicou Os Atalhos de Samanta e Sofá Branco[este já esgotado], todos pela editora Record também!
      Além desses ele escreveu Pisa na Fulô mas não Maltrata o Carcará, biografia do compositor maranhense João do Vale.

      Espero que tenha sanado sua dúvida! 🙂
      Abraços

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      • Ademar,
        sanou minha dúvida sim, e com a mesma competência de sempre! Claro que Odara já faz parte da minha lista de livros para ter e ler! Obrigado, amigo.

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        • Sérgio,
          Fico feliz de ter ajudado, no site do autor [tem link na resenha], você poder ler a sinopse de todas as obras dele. Dá uma passada lá!

          Espero que goste mesmo de Odara!

          Abraços

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  8. Em épocas como essa,onde a criminalização da homofobia está sendo tão discutida.É importante que se entenda como funciona a coerção social que prende os iguais.E, nesse aspecto,a figura da travesti é ainda algo que oscila do estranho ao enigmático.E, a partir do momento em que consideramos tal visão: subjetiva,cotidiana,oscilatória. Desta figura.Fica bem mais fácil entender porque o preconceito se faz presente.Mostrar o lado humano,muitas vezes contraditório do personagem.Só nos faz senti-lo mais próximo a quem lê. Porque todos nós temos um pouco de anjo e de devasso.Porque vivemos num mundo onde os olhares podem nos absolver ou nos condenar.E,esse convite que o autor propõe sobre os diversos olhares a cerca da personagem, nos fazem entender como as amarras sociais moldam o nosso comportamento…ansioso pra ler.

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    • Olá Jean,
      Belas palavras as suas. A homofobia é um problema sério, e você colocou pontos muito importantes dessa discussão! Esse assunto não é algo que devamos esconder e sim discutir abertamente, tentando ao máximo se isentar de preconceitos!
      Obrigado pela sua contribuição nessa discussão!

      Forte Abraço!

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    • Oi Aline,
      Que bom que gostou do livro, eu também adorei!
      Obrigado pela visita e continue visitando o blog!
      Abraços

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  9. Oi Ademar! adorei a resenha, suas palavras me desafiaram a ler o livro, e este superou minhas expectativas! A forma como o livro aborda o tema principal, que é bastante polêmico, nos faz entrar na pele de Odara e viver todos os sucessos e fracassos d@ protaginist@ com emoção. Um livro cheio de referências a clássicos da literatura e do cinema, além de uma boa dose de humor e drama sempre bem-vindos. Em suma, uma leitura que vale a pena! Obrigado pela indicação!
    [Um abraço grande!]

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