Entrevista: Sérgio Pereira Couto

SÉRGIO PEREIRA COUTO, jornalista e escritor. Já escreveu mais de 30 livros e colaborou com diversas revistas importantes. Tem atuação na área de história e esoterismo. Além de diversos livros de referências sobre os mais variados temas, o autor envereda-se também pelo campo ficcional, escrevendo principalmente no gênero policial. Seus principais romances são Sociedades Secretas, Investigação Criminal, Renascimento e Help – A Lenda de Um Beatlemaníaco (que já foi resenhado AQUI). Sérgio é também editor da revista Leituras da História, da editora Escala e mantém contato com seus leitores através de seu blog Canto do Oráculo. Tudo isso permite ao autor ter uma ampla visão do mercado editorial brasileiro, e é disso que ele trata nessa entrevista exclusiva ao blog Cooltural. Aqui ele fala sobre seu processo criativo, sobre seu livro HELP e dá dicas para novos autores acerca do nosso mercado editorial, que ainda não é tão acessível para iniciantes. Confira!

Cooltural – Sérgio, para começarmos gostaria de conhecer um pouco mais sobre você, pode se apresentar melhor?
Sérgio Pereira Couto: Sou jornalista e escritor, especializado em história e esoterismo. Sempre faço meus trabalhos focados em livros para principiantes em determinado assunto e procuro o maior número possível de fontes para que possa se ter um panorama geral e completo sobre o assunto que está em foco. Também escrevo ficção e já tenho pelo menos cinco romances publicados, dos quais os de maior sucesso são Sociedades Secretas e Mentes Criminosas.

Cooltural – Você já possui mais de quarenta livros publicados. Como foi que você despertou para a escrita?
Sérgio: Um jornalista já começa “despertado” quando resolve seguir o caminho da escrita ainda antes de entrar na faculdade. Meu trabalho com reportagem começou bem cedo, ainda no primeiro ano, quando me ofereci para resenhar filmes, coisa que até então era exclusividade dos alunos do terceiro ano para frente. Com o tempo percebi que alguns assuntos careciam de análises mais profundas e, ao mesmo tempo, de enfoques que permitissem que alguém que não conhecesse bem o assunto, lesse e se interessasse em partir para leituras complementares. No campo da ficção comecei com o Sociedades Secretas, que era originalmente um livro de entrevistas, que mais tarde, por sugestão do editor, foi romanceado para melhor aproveitamento do público.

Cooltural – Seu livro HELP – A Lenda de Beatlemaníaco tem como tema a música dos Beatles. Como foi essa escolha?
Sérgio: Numa conversa informal entre um editor e eu veio a ideia de um assassino serial que atacava de acordo com a discografia dos Beatles, que ainda é e acredito que será por um bom tempo um nome bastante popular. Eu mesmo já tive minha fase de beatlemaníaco e o próprio termo deu margem para que pudesse brincar com essa ideia. Viajei para Liverpool em 2002 e já naquela época recolhi o material que usaria mais tarde no livro.

Cooltural – No livro você dedica e agradece a sua irmã por tê-lo inserido no mundo dos Beatles. Foi isso que o inspirou a escrever esse romance?
Sérgio: Sim, foi. Afinal, o mundo do rock é vasto e amplo. No caso eu era apenas um garoto quando John Lennon morreu em 1980. A partir daí, e com o pesar que minha irmã sentiu pela morte dele, fiquei curioso e comecei a investigar um pouco mais. Foi quando me “converti” a essa religião dos quatro rapazes de Liverpool.

Cooltural – Este não é seu primeiro romance policial, nem é também a primeira vez que usa temas excêntricos. O que esse gênero tem de especial?
Sérgio: Justamente esse ponto: a flexibilidade na hora de se criar histórias. O policial sempre foi um gênero que, quanto mais sui generis, mais interessante ele se torna. Basta vermos os clássicos do gênero (Padre Brown, Arséne Lupin o Ladrão de Casaca ou o detetive Ellery Queen) para termos essa noção. Assim decidi enveredar um pouco por esse caminho. O suspense de um policial é tão intenso quanto um de terror, com a diferença de que o mal, no primeiro caso, é algo mais aceitável por ser de um mundo cotidiano, enquanto que, no segundo caso, o mal sempre tem uma origem sobrenatural.

Cooltural – Nota-se uma meticulosa construção dos fatos e referências em HELP. Como é o seu processo de criação? Você escreve tudo de forma acabada ou escreve para depois reescrever? Segue uma rotina de escrita?
Sérgio: Minha rotina de escrita envolve, antes de mais nada, a elaboração de uma trilha sonora, especialmente escolhida, que dará o tom da narrativa. Depois, com essas músicas, fabrico o esqueleto da história, a ficha dos personagens, as partes da narrativa e, por fim, começo a escrever. Depois passo para uma leitura crítica e faço as alterações de acordo com o feedback recebido.

Cooltural – Em HELP os personagens assumem diversas facetas, com dualidade de personalidade, uns são muito simpáticos, outros um tanto excêntricos. Você tem algum personagem favorito ou que se identifique mais?
Sérgio: Eu tenho um pouco de mim em cada um e não possuo um predileto. Curioso mesmo, nesse caso, é ver a reação das pessoas que me conhecem e lêem para depois dizer “vi o seu jeito de falar ou agir em tal personagem”. É muito engraçado, pois não é algo consciente. Porém, às vezes, só mesmo uma opinião de fora para vermos isso.

Cooltural – Você tem alguma obra sua que seja favorita? Ou não tem preferências?
Sérgio: Não, no momento não tenho preferências, mas sim alternativas. Gosto muito de meu romance Renascimento, da Giz Editorial, onde falo sobre reencarnação com pitadas de literatura fantástica, e do próprio Help, onde extravaso minha paixão pelo rock clássico.

Cooltural – Pode traduzir em palavras e importância da literatura para sua vida ou da vida em sociedade?
Sérgio: Muito amplo falar de tal coisa. Temos que ter em mente que a literatura é uma maneira de analisarmos os hábitos tanto nossos quanto dos demais com quem convivemos. E por vezes só vemos esses detalhes quando nos enxergamos em certos personagens ou situações. Trabalhar ficção é muito diferente de trabalhar não-ficção, onde o lado repórter assume por completo. A literatura é, assim, uma espécie de válvula de escape, onde podemos observar os erros em outras “pessoas” (no caso, personagens) e analisar a nós mesmos como nos sairíamos nessa ou naquela situação.

Cooltural – Depois de tantos livros publicados, você acha que é possível viver no Brasil do ofício de escritor?
Sérgio: Não, não é. Viver apenas disso é um privilégio de pouquíssimos autores. Envolve recursos financeiros próprios, a presença de um agente literário que realmente lute para te posicionar no mercado, um editor que acredite que seus livros irão agradar e, principalmente, do autor conseguir desenvolver uma visão comercial na hora de propor este ou aquele livro para um editor. Infelizmente poucos possuem esses itens juntos.

Cooltural – Além de escritor, você é editor de uma revista, permitindo assim que experimente vários campos editoriais. Qual a sua perspectiva sobre o mercado editorial brasileiro, hoje? Ele está aberto a novos escritores? Ou é ainda é difícil, para o escritor iniciante, publicar seu livro?
Sérgio: O mercado editorial nacional ainda se queixa, e com razão, da falta de interesse dos autores nacionais em entender como ele funciona. Não acredito que está aberto a novos autores. Um lugar ao sol é conquistado com muito sangue, suor e lágrimas, algumas bem salgadas. Isso porque é uma relação viciante: o autor não acredita no editor e vice-versa. Os autores ainda tem uma visão meio romantizada dos livros que lançam e acham que vão virar best sellers no primeiro deles. O editor, por sua vez, não tem paciência para esperar cultivar um autor e acha que todos serão como um Dan Brown da vida. Eles próprios esquecem que Dan Brown lançou pelo menos três romances antes de estourar. E não ajuda nada um editor propagar que prefere licenciar um livro estrangeiro a gastar divulgando um autor nacional.

Cooltural – Você publicou seu livro pela editora Idea, que também é nova no mercado editorial. Acha que as grandes editoras brasileiras não atuam de forma a valorizar os novos escritores nacionais?
Sérgio: Certamente. Nenhuma editora é perfeita. Há apenas aquelas que são mais abertas do que outras, e ainda assim elas vão cobrar resultados concretos mais cedo ou mais tarde. As editoras são um negócio como outro qualquer, então é normal que cobrem resultados. Os autores é que precisam se conscientizar disso e fazer pesquisa de mercado para saberem da melhor forma possível se seu projeto terá ou não um futuro comercial. Assim, poderão escapar da sina de encalhar seu livro e achar que basta ter uma boa relação de contatos no Facebook ou no Twitter para garantir a venda da tiragem.

Cooltural – Está com algum projeto em andamento? Pode adiantar algo como título, gênero ou tema?
Sérgio: Pelo menos mais três romances policiais. Também mantenho um projeto de divulgação e incentivo para leitores e autores de literatura policial, o Grupo Polígrafos (www.grupopoligrafos.com), que, juntamente com o SESC Pinheiros, de São Paulo, realiza palestras, oficinas, jogos e outras atividades. Tudo pela maior divulgação da literatura. Também organizo coletâneas de literatura policial, em conjunto com a Editora Andross, das quais o primeiro volume (Jogos Criminais), somente com autores iniciantes, já saiu. Estou agora organizando o segundo volume.

Cooltural – Uma pergunta de praxe: Que conselho daria aos novos escritores brasileiros?
Sérgio: Primeiro: escrevam muito. Mesmo que sejam crônicas de meia dúzia de linhas. Criem o hábito da escrita, é importante. Segundo: façam pesquisas, tanto de mercado quanto de tema. Muita gente escreve e nem se toca do quanto de besteiras colocam em suas histórias. Por fim, apóiem os autores nacionais. Ler os estrangeiros é algo interessante, mas não adianta nada se não houver um incentivo para os daqui. Somente assim se criará um mercado consumidor forte o suficiente para garantir que as editoras invistam em obras nacionais.

Cooltural – Chek-list Cooltural:
– Livro favorito: Criação, de Gore Vidal.
– Autor favorito: Umberto Eco.
– Ator ou Atriz: William Petersen. Sem ele, CSI ficou muito chato!
– Filme: O Nome da Rosa.
– Diretor: Alfred Hitchcock.
– Um sonho a realizar: Vender os direitos de um livro para o exterior.
– Um álbum musical: The Doors, de 1967.

Cooltural – Obrigado pela entrevista, sucesso a você e seus livros. Forte abraço!
Sérgio: Obrigado pela oportunidade. Um grande abraço a todos!

Sérgio Pereira Couto no Programa do Jô.

5 comments

    • Tanner,
      O Sérgio já tem uma leva de publicações, como eu disse no texto muitas delas são obras de referências sobre determinados assuntos, geralmente históricos e/ou esotéricos.
      Dá uma passada numa banca de revista e vê se não encontra algo dele!
      Abraços e obrigado!

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  1. “Numa conversa informal entre um editor e eu veio a ideia de um assassino serial que atacava de acordo com a discografia dos Beatles,” Que coisa louca, adorei!

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    • Fulvyo, o processo criativo dos autores é um coisa bem inusitada mesmo.
      Até eu tenho um pouco disso. Quando menos se espera surge uma ideia bacana! hehehehe

      Abraços

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  2. Adorei a entrevista com Sérgio, sou admirador da forma com ele escreve. Já li duas criações dele… Adorei a entrevista! Valeu Ademar!

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