Suicidas, de Raphael Montes

Suicidas

Tentei desviar o olhar, mas não consegui. Minha própria dose de sadismo me fazia querer ver cada detalhe do ato. Sou curioso. Assim como você, leitor, que percorre com avidez estas linhas, eu queria saber exatamente o que iria acontecer.”
Raphael Montes, Suicidas. 

É sempre um prazer ler um romance policial. E quando esse livro é de um autor competente, que cumpre com o papel que se propôs, mesmo sendo seu livro de estreia, o prazer é incalculável. Confesso que ler sobre um grupo de jovens suicidas mexeu comigo, visto que os personagens podem ser identificados mais próximos de nós do que imaginamos. Mas vamos ao livro!

A sinopse do livro traz a seguinte informação: “Um porão, nove jovens e uma Magnum 608. O que poderia ter levado universitários da elite carioca – e aparentemente sem problemas – a participarem de uma roleta-russa?”. Não é necessário nem terminar de ler a sinopse para que se fique curioso em ler o livro. Mas ainda assim, a sinopse segue: “Um ano depois do trágico evento, que terminou de forma violenta e bizarramente misteriosa, uma nova pista, até então mantida em segredo pela polícia, ilumina o nebuloso caso.” Mas que pista? Porque só depois de um ano? Essas e várias outras perguntas surgem após se iniciar a leitura.

A história é narrada em três tempos: anotações cotidianas do jovem Alessandro Parentoni; o diário em tempo real deste adolescente, encontrado pela polícia no porão onde aconteceu a roleta-russa; e a gravação da reunião com a delegada Diana Guimarães e as mães dos jovens, onde se está lendo estas anotações e discutindo-as. Alessandro tem o sonho de ser um escritor reconhecido, por isso ele está sempre escrevendo sobre os principais acontecimentos da sua vida, e é por esse motivo também que ele escreve os acontecimentos em tempo real da roleta-russa, onde ele vislumbra uma fama póstuma.

A leitura fica bastante dinâmica, já que a historia é contada em três momentos diferentes, o que faz com que o leitor permaneça com o gostinho de “quero mais”. Isso também possibilita uma revelação dos segredos de forma gradual, onde o leitor vai conjecturando junto com a delegada e as mães os reais motivos que levaram esses jovens a cometerem suicídio.

É impossível não se identificar com os personagens, já que eles representam uma parte dos jovens atuais: adolescentes de classe alta, arrogantes, prepotentes, preconceituosos, estúpidos, individualistas e superficiais. Essas características se tornam ainda mais preocupantes quando se conhece que alguns desses jovens são estudantes de direito, ou seja, as pessoas que aplicarão as leis num futuro próximo. Essas características comportamentais se sobrepõem às breves descrições físicas, onde o leitor tem a liberdade de visualizar aquele personagem como alguém que você já conhece.

O livro não é nem um pouco moralista ao mostrar a vida desses adolescentes. Um exemplo é a presença de palavrões e demonstrações de raiva ou desprezo por quem, geralmente, se deve amar, respeitar. Os jovens falam palavrões sim, odeiam sim, desprezam sim, e isso fica bastante claro no livro. Essa verossimilhança possibilita ainda reconhecer os personagens pelo nome, mesmo que este não esteja sendo citado.

Chegar ao desfecho é um prazer, já que os segredos só são revelados nas últimas linhas. Se prolongar no fim do livro é abrir espaço para spoiller, e este não é o propósito. Quero apenas deixar registrado que as quase 500 páginas passam quase despercebidas pelo leitor, no entanto, as emoções causadas por elas são tão fortes quanto deve ser a sensação causada durante uma roleta-russa, onde todos os acontecimentos de uma vida passam diante dos seus olhos numa fração de segundo. No livro há alguns pontos negativos, mas como são insignificantes não irei me ater a eles, já que estes em nada prejudicam a qualidade da obra.

Suicidas é um livro lindo, forte, marcante e persuasivo. Ele não permite que o leitor o abandone. Assim, chegar às últimas páginas, além de uma obrigação, passa a ser uma necessidade. Raphael Montes, este é o nome da mais nova promessa da literatura policial. E só para registrar: é nacional, é nosso. Espero poder ler mais obras dele. Fica como dica para um excelente presente de Natal!

Título / Título original: Suicidas
Autor(a): Raphael Montes
Editora: Saraiva (selo Benvirá)
Edição: 2012 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2012
Páginas: 488

Onde comprar:
Saraiva | Cultura

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by José Mailson
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