A Felicidade é Fácil, de Edney Silvestre

A Felicidade É Fácil

A felicidade é fácil. Basta uma folha de papel e uma caixa de lápis de cor, pensou, quase no mesmo instante em que a primeira bala o atingiu.
Edney Silvestre, A Felicidade é Fácil, pág. 13.

Este é mais um livro que li há algum tempo, mas não poderia deixar de ser resenhado por aqui. À primeira vista, título e capa não me despertaram atenção – pois como acontece com a maioria, achei que se tratava de certa autoajuda ou um romance disfarçado disso –, mas já começo dizendo que nem um nem outro fazem jus ao que de fato o autor nos apresenta. A Felicidade é Fácil não chega nem perto de autoajuda, tampouco de um romance disfarçado. Disfarce é a palavra que menos cabe aqui, o que temos é um romance nu, cru e crível.

Edney Silvestre estreou na ficção de forma bem favorável. Seu primeiro romance, Se Eu Fechar os Olhos Agora, recebeu o Prêmio Jabuti de Melhor Romance e o Prêmio São Paulo de Literatura. Isso mostrou que seu nome era mais um entre os autores promissores que mereciam atenção e que despontavam como verdadeiro talento na literatura brasileira contemporânea. O autor é jornalista e já trabalhou como correspondente do jornal O Globo e da TV Globo, atualmente faz reportagens para telejornais e apresenta o programa semanal Espaço Aberto Literatura na Globonews.

Apresentado o autor, vamos ao livro. A Felicidade é Fácil é como aqueles pratos fáceis de comer, mas difíceis de digerir devido à complexidade dos elementos que o compõe. Ambientado no governo Collor no início da década de 1990, ainda que o ano não seja especificado no livro, vemos um cenário de um Brasil decadente que luta a todo custo para combate uma inflação absurda, que punha medo até nos ricos que tinham suas poupanças confiscadas, entre outras medidas da época. A narrativa se passa durante um período que não supera 24 horas e se dá no convívio da família de um publicitário rico e corrupto que tem sua fortuna diretamente ligada às falcatruas políticas da época.

Vencida essa má impressão causada pelo título, dizer que é apenas um romance político também não faz jus nenhum ao livro. Edney Silvestre atrela toda sua minuciosa pesquisa jornalística à estrutura do romance policial moderno, criando um suspense sobre um caso fatídico. Além disso, temos um arsenal de personagens bem construídos e com excelente desenvolvimento. Vamos a eles.

Olavo e Ernesto, publicitários corruptos ligados ao governo; Mara, uma ex-acompanhante de ricaços, mulher de Olavo; Olavinho, filho destes; a doméstica e submissa Irene, acompanhadas por seu marido e filho; Major, motorista particular do publicitário; sua filha Bárbara; e os sequestradores de uma quadrilha internacional.

Com um enredo simples, o autor se preocupa mais em nos mostrar as angústias dos personagens, fazendo-nos montar um quebra-cabeça do caso. Por fazer parte da elite, Olavo está na mira de uma quadrilha, que planeja sequestrar seu filho visando um bom pagamento de resgate. No entanto, no dia planejado para o sequestro, houve uma mudança de rotina e no lugar de Olavinho no banco de trás do Mercedes-Benz está o menino surdo-mudo dos empregados. O motorista é morto por um tiro e a criança é levada para um cativeiro. É assim que o livro começa, deixando o leitor cheio de suspenses, expectativas e questionamentos. Uma fisgada e tanto.

Com o intuito de ironizar e aguçar ainda mais os questionamentos, o autor atribui características aos personagens que suscitam maiores reflexões. Entre elas está o fato da família do publicitário ser negra e a dos empregados branca. O que por um lado gera uma subversão do que é comum para a maioria, por outro nos leva a refletir sobre o preconceito racial, que ainda é forte hoje e se fazia colossal à época. Apesar de ser uma família negra rica, ainda que por meio da corrupção, foi ao menino branco que os sequestradores levaram, numa demonstração da associação tão superficial dos brancos à classe alta.

Em meios às reflexões, questiona-se: será que o caso receberá a devida atenção pelo fato de o menino sequestrado pertencer à família de empregados? Os patrões irão arcar com o dinheiro do resgate, já que não é seu filho que está em perigo? Qual será a reação dos sequestradores ao descobrirem que cometeram um erro em seu plano? Matarão a criança que nem sequer fala? O que acontecerá com a filha do motorista, que nem ao menos tem como se sustentar? Basta uma situação dessas para que sonhos sejam destruídos, planos sejam modificados e vidas sejam mudadas para sempre e de forma irreversível.

Quanto ao título, não passa de uma dessas reflexões a respeito do que seja ou represente a felicidade das pessoas. A frase que centra o primeiro capítulo e inicia esta resenha exemplifica bem isso. A contradição entre o título e a narrativa talvez sirva de base para mostrar que este é um conceito essencialmente relativo, ou ainda para mostrar que a felicidade de fato não é nada simples. Talvez seja para o menino que é alheio ao mundo, privado de falar e ouvir, inserido apenas no campo visual de um ambiente afortunado, ainda mais em um momento nada animador da história do nosso país.

A narrativa do livro é singela, com um discurso indireto, em que o narrador desesperado se apressa em nos contar tudo e acaba misturando sua narrativa às falas dos personagens, deleitando-se de toda a sua onisciência. Nesse atropelo proposital do narrador, a narrativa perde a sua estrutura linear, indo e voltando no tempo ficcional através de flashbacks, fazendo surgir assim a figura a ser montada no tal quebra-cabeça. E para completar o grande estilo do autor, o livro é permeado de músicas que embalam e se casam com a tragédia narrada. Àqueles que gostam de ler ouvindo uma trilha sonora, Edney Silvestre presta o favor de listar sua playlist ao final do livro. Vale muito a pena conferir.

E vocês leitores, já leram o livro? Ficaram interessados? O que fariam diante de uma situação parecida? Não deixem de comentar logo abaixo.

Título / Título original: A Felicidade é Fácil
Autor(a): Edney Silvestre
Editora: Record
Edição: 2011 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2011
Páginas: 224

Onde comprar:
SubmarinoEstante Virtual | Saraiva | Cultura

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by Ademar Júnior
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3 comentários

  1. O Edney Silvestre está caminhando para se tornar um novo Carlos Heitor Cony (ou até melhor) ao se sobressair do “padrão Globo de jornalismo”, apesar das ótimas coberturas, e mostrar muita criatividade em sua literatura.

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    • Kaio,
      Concordo com o que disse, embora eu não acompanhe muito o trabalho do Edney na televisão, acho que ele se sai muito bem na literatura sim. Ainda não li o primeiro livro dele, mas pretendo ler assim que possível.
      Obrigado por comentar!
      Abraços

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  2. Já li os dois primeiros romances de Edney e estou iniciando a leitura do Vidas Provisórias…
    Parabéns pela resenha! Como sempre uma boa leitura… O que posso dizer é que após o segundo capitulo do novo livro, Edney já conseguiu segurar a história com toda a trama característica criada por ele para prender o leitor.
    Ao final da leitura volto!
    Vlw!

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