Caim, de José Saramago

Caim

“A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele”.
José Saramago, Caim, pág. 88.

Falar de José Saramago é um pouco complicado para mim por dois motivos principais: o primeiro deles é um trauma dos tempos de vestibulando, onde era obrigado a ler Memorial do Convento, que mesmo com várias tentativas eu nunca o concluí; e o segundo é o fanatismo exacerbado de algumas pessoas em relação a ele. Este tipo de postura me distancia mais das coisas do que me aproxima. Mesmo assim, contra todos os meus princípios e traumas, eu concluí meu primeiro livro do autor, e confesso de antemão que não foi experiências das piores.

Mesmo não curtindo esse fanatismo todo em relação ao Saramago, eu reconheço que ele merece a fama que tem. Ele é um escritor grandioso e um irônico sem precedentes. Essas duas características fazem da leitura de Caim uma leitura fluente, agradável e instigante. Mas se você for esperar por todos aqueles parágrafos belíssimos, diálogos organizados com todos os seus travessões e aspas necessárias desista. A narrativa de Saramago é desprovida dessas normas de formatação. O que de certa forma traz a leitura para mais perto do leitor.

De forma resumida, Caim é um romance, narrado em terceira pessoa, que traz por meio da figura do primogênito de Adão e Eva uma aventura por terras apresentadas inicialmente na Bíblia Sagrada. Mas se engana quem pensar que essas aventuras são apenas histórias bíblicas sendo contadas sobre outra ótica. Não deixa de ser, mas acredite não é só. O leitor é confrontado a todo o momento sobre o posicionamento de Deus e os principais preceitos religiosos dos tempos antigos.

Quem conhece o Caim da bíblia sabe que ele foi condenado a errar pelo mundo. De posse desse detalhe, Saramago nos apresenta um Caim que foi condenado a errar pelos tempos, só que neste caso, os tempos bíblicos. Para que isso aconteça, a narrativa se apodera de um pouco de fantasia, onde o personagem se vê diante de fronteiras temporais. E é a partir desses fatos que Caim passa a testemunhar episódios do Antigo Testamento, o que difere este romance de Evangelho Segundo Jesus Cristo, onde os acontecimentos se passam no Novo Testamento.

Podemos observar que, na narrativa, os dois personagens principais – Deus e Caim – vivem em um constante confronto ideológico. O primeiro é apresentado como um tirano, desprovido de piedade e bondade, e muito atrapalhado; o segundo é um personagem desprovido de pudores e que faz questão de mostrar que esse “deus de bondade e misericordioso” não passa de uma farsa. O leitor ainda pode perceber que todos os julgamentos feitos acerta da religião e da igreja são completamente pessoais, já que não se pode encontrar um único posicionamento crítico direto em relação ao texto bíblico.

Dentre os personagens bíblicos que Caim interage, estão: Abraão, Ló, Jó, Moisés, Josué, Isaac e Noé. Podemos encontrar ainda a questionável figura de Lilith, onde o autor une outro mito ao contexto. Além disto, o leitor encontrará palavrões, irritações, insinuações e descrições de atos sexuais, diálogos rápidos e aguçados entre Caim e o Senhor, guerra e morte. Não espere atos minimamente descritos, pois José Saramago sabe fazer o leitor imaginar mais do que ele mesmo escreveu. Isto faz com que o leitor veja o tal ato muito mais abominável e desagradável do que poderia ser descrito.

José Saramago, ateu por convicção, foi ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, em 1998. Este é um autor que merece ser lido em algum momento da vida – por isso o fiz agora –, mas não apenas por tudo que foi dito agora, mas também pela sua contribuição literária conhecida por muitos. Dentre suas principais obras publicadas estão Memorial do Convento, Ensaio Sobre a Cegueira, As Intermitências da Morte, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, A Jangada de Pedra, A Viagem do Elefante e Claraboia.

Para quem curte desafios como eu, esta é uma boa dica. Mas acredito que não lerei algo dele tão cedo, acredito não estar preparado. A indicação dos livros do Saramago pode se dar por vários motivos, mas o fato de ser uma leitura rápida (apesar de difícil, para quem não tem costume com sua escrita) e de se encaixar em vários contextos, fazendo o leitor refletir sobre coisas que geralmente são impostas, são os dois principais.

E ai, quem já leu alguma coisa do Saramago? Quem mais sentiu dificuldade além de mim? Não deixem de comentar!
Leia também: A Última Entrevista de José Saramago, de José Rodrigues dos Santos (2010)

Título / Título original: Caim
Autor(a): José Saramago
Editora: Companhia das Letras
Edição: 2009 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2009
Páginas: 172

Onde comprar:
Submarino | Saraiva | Cultura

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by José Mailson
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10 comentários

  1. Hmmm, ja tentei ler o Ensaio Sobre a Cegueira, mas não terminei por achar o modo que ele escreve massante demais, acho que vou me obrigar a tentar ler ele de novo. Pela tua resenha Caim pareceu até ser interessante.

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    • O livro é sim muito interessante, Dan.
      Mas para quem já tem alguma espécie de trauma com o Saramago, o desafio é ainda maior. Mas no fim é uma maravilha, quando você faz um apanhado geral e vê que conseguiu!
      Obrigado pelo comentário! ^^

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  2. Muito bom o teu texto, Mailson. Gostei. Tu fizeste uma resenha bem objetiva e conseguiu transmitir bem a reflexão que o texto do Saramago evoca, tanto nas questões metafísicas como no sentido da própria escrita do texto literário. 🙂

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    • Obrigado pelo comentário, Cássia.
      Confesso que estava com um pouco de medo de escrever, justamente por existir essas benditas questões “metafísicas” e de eu não conseguir transmitir o que realmente senti ao lê-lo. Garanto que foi uma das experiências mais incríveis que já tive.
      😀

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  3. Mailson, eu tenho o livro “Memorial do Convento”, e pense num livro que eu já tentei ler várias vezes. Nunca consigo ir adiante na leitura. E juro que me esforço muito.
    Você fala de não estar preparado para o Saramago. Além do Saramago, acho que não estou preparado também para o Julio Cortázar. Apesar de já ter conseguido concluir algumas leituras dele.

    Parabéns pela resenha, e pelo seu esforço, rs.

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    • Pois é, Júnior Lustosa. Este livro é “uma confusão”, como diz uma prima minha. Mas ainda ultrapassarei este obstáculo que me impede de lê-lo.
      Eu ainda não tentei ler nada do Cortázar, embora tenha muita curiosidade. Espero que eu consiga engatar uma leitura de primeira. rs
      Obrigado pelo comentário e apoio! *-*

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  4. Oi, José.

    Você gosta de ler. Ponto. Mas diga-me: você gosta de quebra-cabeças? Já viu alguma caixa de 1000 peças? Mais: já teve a oportunidade de montá-lo e no fim perceber que falta uma peça maldita que fugiu sabe-se lá como?

    Pois bem, essa é uma experiência maravilhosa. Assustadora, porém maravilhosa. Principalmente quando você consegue terminar de montar e visualizar aquela figura completa (ou não, no caso de perder alguma peça).

    Costumo comparar a obra de Saramago (seu xará, ó!) e também a literatura portuguesa contemporânea com essa experiência de montar grandes quebra-cabeças. A gente lê, acho meio chato de início, afinal devemos nos acostumar com a linguagem, que apesar de ser português, é português de Portugal e não do Brasil. Mas, após nos acostumarmos com aquela língua que pensávamos ser a nossa mesma aqui no outro lado do oceano, as coisas ficam mais claras.

    Vou voltar ao quebra-cabeça. Você consegue montar em um dia? Um de mil peças, por exemplo? Se sim, meus parabéns, sou sua fã, por favor, me ensina, obrigada! Se não, acho que você é um mortal como eu, rsrs. Ler Saramago exige uma maturidade que eu não tenho. Exige um pouco de persistência também, afinal as referências são muito mais que as óbvias: não é só o Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa (me refiro ao romance O ano da morte de Ricardo Reis), não é só Jesus Cristo (em O evangelho segundo Jesus Cristo), não é só Platão (que vem logo na epígrafe do romance A caverna) e não é só Caim em seu romance homônimo.

    Maturidade talvez não tanta, mas te digo que um pouquinho de persistência eu tenho. A primeira vez que peguei um livro do Saramago pra ler eu havia acabado de concluir o Ensino Médio e fiquei chocada com aqueles parágrafos imensos. Parei na segunda página. Fui atrás dele de novo 3 anos depois, faltando um ano pra completar minha graduação e ~tadãã~ A caverna é um romance muito bom, um dos meus preferidos (o preferido, até agora que li somente 3 e estou no início do 4o, é O ano da morte de Ricardo Reis), atual, apesar de se passar em Portugal mostrando problemas DE Portugal, mas que são encontrados em qualquer lugar do mundo. Falamos disso como a “universalidade da literatura”.

    Quando você diz
    “Mas se você for esperar por todos aqueles parágrafos belíssimos, diálogos organizados com todos os seus travessões e aspas necessárias desista. A narrativa de Saramago é desprovida dessas normas de formatação. O que de certa forma traz a leitura para mais perto do leitor.”

    Eu te digo: lembre-se do quebra-cabeças. O puzzle é a referência, em termos de crítica, para a compreensão do que se vem produzindo em Portugal da Revolução dos Cravos pra cá. A fragmentação da linguagem, do ser humano, o questionamento da história, a própria intervenção na História (O ano da morte…, A jangada de pedra, Memorial..), a desconstrução, a subversão do que se considera “organizado […] e necessário”, a experimentalização são alguns dos temas e características da prosa atual. Te digo também que é essa aparente falta de organização que faz de um José um Saramago. São essas referências, que nunca em momento algum serão justificadas que compõem a genialidade do autor. É a ironia saramaguiana, o pessimismo até, que nos faz pensar sobre a nossa reles condição humana.

    Como num puzzle, entender a literatura contemporânea é exercício, mais do que nunca, do próprio leitor. Cabe a nós descobrir que referências são essas e o motivo delas estarem lá.

    Você pediu a opinião no final do post e eu vou além e te deixo uma sugestão: continua tuas leituras, depois de, sei lá, um ano de muita leitura de qualidade, volta pro Saramago, lê algum conto (sugiro, eu cheia de sugestões, O conto da ilha desconhecida) e compara com tua resenha dagora. Depois fique à vontade para os romances. Não é um tutorial de ~como gostar de Saramago ~, até porque a gente gosta do que a gente gosta, né? Mas se quiser algum dia voltar a ler Saramago e quiser fazer como eu disse, me diga o resultado depois. ^^

    Um abraço e… sorry pelo comentário enorme.

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    • Olá, Geisy!
      Quando vi seu comentário fiquei meio assustado, mas gostei de algumas coisas que você disse.
      Sinceramente, eu ainda não me considero “preparado” para ler alguma coisa do Saramago atualmente. Não por achar ele chato ou difícil (embora essa opinião passe de forma sutil na minha mente), mas apenas por saber que ele vai exigir um tipo de reflexão que não estou pronto para ter. No momento, procuro livros que me divirtam e que tenham leituras fluidas.
      Mas adorei sua dica para quando for voltar a ler Saramago. E pode ter certeza, irei adorar conversar com você sobre ele (e/ou o que li).
      Quanto ao tamanho do comentário, relaxa. Eu adoro quando as pessoas dão seus pontos de vista, independente se eles sejam iguais ou diferentes ao meu. É bom saber que podemos ver uma mesma coisa de várias formas.
      Obrigado pela visitinha!
      Abraço! 🙂

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    • Olá, Mathias.
      Sinceramente, eu nunca li a Bíblia. E, por se tratar de um livro de ficção, não vejo essa necessidade.
      Toda referência que você precisar, acredito que você já tenha, caso tenha sido criado numa família cristã.
      🙂

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