Dom Casmurro, de Machado de Assis

Dom Casmurro

“Capitu, apesar daqueles olhos que o Diabo lhe deu… Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada. Pois, apesar deles, poderia passar, se não fosse a vaidade e a adulação”.
Machado de Assis, Dom Casmurro, pág. 45.

Quem não conhece o romance da encantadora Capitu e o encantado Bentinho? E a velha polêmica: Capitu é ou não culpada de adultério? Publicado originalmente em 1899 e ambientado no Rio de Janeiro do século XIX, Dom Casmurro, juntamente com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Quincas Borba (1891), é uma das narrativas mais famosas e polêmicas de Machado de Assis.

Comecei a leitura dessa obra de forma meio egoísta. Eu possuía o livro há bastante tempo (desde a época do vestibular), no entanto só cheguei a lê-lo atualmente, pois comprei uma paródia do mesmo (Dom Casmurro e os Discos Voadores, de Machado de Assis e Lúcio Manfredi) lançada pela Lua de Papel na Coleção Clássicos Fantásticos. Esta coleção traz outros títulos como A Escrava Isaura e o Vampiro, de Bernardo Guimarães e Jovane Nunes; O Alienista: Caçador de Mutantes, de Machado de Assis e Natalia Klein; e Senhora, a bruxa, José de Alencar e Angélica Lopes. Assim, me senti obrigado a ler Dom Casmurro, já que acredito que só devemos ler uma paródia depois de conhecer o texto original. Então, assim o fiz. Li-o em uma noite e confesso que me pergunto porque não o fiz antes.

Chega de prerrogativas e vamos ao livro. A história é narrada por Bentinho, seu protagonista, um velho solitário e frustrado que busca, por meio da narrativa, rememorar e compreender fatos do seu passado, principalmente os que envolvem Capitu. Esta, por sua vez, é a personagem mais intrigante e misteriosa da literatura brasileira.

Esse livro é considerado uma das obras mais ambíguas da nossa literatura. No entanto, o leitor deve estar atento a cada detalhe. Mesmo que os fatos indiquem que houve uma traição, não se pode ignorar o seguinte fato: Bentinho, além de narrador, é advogado. Assim, ele possui todos os atributos intelectuais para envenenar a narrativa, capaz de levar o leitor a condenar Capitu.

Houve ou não uma traição por parte de Capitu? Talvez essa pergunta seja repetida por todos que leem esse livro. No entanto, acredito que esta é a parte menos importante, já que, como dito no próprio título, a história é de Bentinho e sua personalidade infeliz, calado, introspectivo, teimoso e obstinado, o qual traz a atenção toda voltada para si mesmo e que, por ser incapaz de amar, se coloca fora do alvo e o aponta para Capitu. Assim, a traição de Capitu (questão de resposta pessoal) serve apenas para mostrar de forma alegórica sua mente doentia.

Embora Escobar, amigo de Bentinho e possível amante de Capitu, seja o catalisador das crises de ciúmes do protagonista, acredito que este seja um dos personagens menos importantes da obra, já que pelo que percebemos de Bentinho, esse ciúme poderia se voltar para qualquer pessoa que se aproximasse da sua obsessão, Capitu.

Existem dois momentos lindos no livro. O primeiro é na descrição do primeiro beijo entre Bentinho e Capitu. E o segundo, descrito nas páginas 84 e 85, onde Bentinho está tentando criar um soneto. Os dois únicos versos que ele consegue criar são: Oh!Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura! // Perde-se a vida, ganha-se a batalha!. Achei esse momento de uma sinceridade e romantismo tão grande que chego a parafrasear os superlativos do José Dias (o agregado) para descrevê-lo: lindíssimo, belíssimo, romanticíssimo.

Quanto à traição, a conclusão que cheguei, mesmo com muitas dúvidas ainda, é de que Capitu era inocente. O ciúme de Bentinho que era excessivo, fazendo com que ele visse semelhanças e situações suspeitas onde poderiam não existir. O momento em que ele compara o filho ao Escobar chega a ser vergonhoso. É como se ele quisesse transmitir a admiração que tem por Escobar para o filho e isso só seria possível se este último se parecesse com o primeiro. Fato este que só poderia ser se um fosse pai do outro.

A narrativa segue um ritmo envolvente, onde o leitor sente-se confidente do protagonista. Como se ele estivesse contanto a história exclusivamente para você. É também por isso que acredito que Dom Casmurro deve ser lido ao menos uma vez na vida. Não só pela polêmica da traição, mas também por sua complexidade literária que vai além da superficialidade textual com a qual estamos acostumados, principalmente atualmente.

Após a leitura, eu li um texto do Fábio Lucas, Uma ambiguidade insolúvel, que discorria sobre os pontos importantes da obra, bem como críticas de outros autores sobre a mesma. E li também uma minibiografia do Machado de Assis intitulada Um mundo que mostra por dentro e se esconde por fora, escrita por Carlos Faraco. Das adaptações da obra, as mais famosas são: o filme Dom (idem, 2003), com direção de Moacyr Góes; o filme Capitu (idem, 1968), dirigido por Paulo Cesar Saraceni; e a série Capitu (idem, 2008), dirigida por Luiz Fernando Carvalho, exibida na Rede Globo.

E ai, quem já leu Dom Casmurro? Para vocês, Capitu traiu ou não Bentinho? Não deixem de comentar aqui!

Postagens relacionadas:

– O Alienista, de Machado de Assis
– O Dom do Crime, de Marco Lucchesi

Ficha Técnica:

Dom Casmurro

Título: Dom Casmurro
Autor(a): Machado de Assis
Editora: Edições BestBolso
Edição: 2010 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1899
Páginas: 252
Sinopse: Ambientado no Rio de Janeiro do século XIX, é narrado por seu protagonista: Dom Casmurro, um velho solitário e frustrado que, em virtude de sua “simpatia”, recebe esse apelido de um conhecido. O personagem busca, por meio da narrativa, rememorar e compreender fatos do seu passado, principalmente os que envolvem uma mulher: Capitu, a personagem mais intrigante e misteriosa da literatura brasileira. A polêmica toda se centraliza em uma dúvida: Capitu é ou não culpada de adultério? Os fatos até podem indicar que sim, mas o leitor não pode deixar de atentar para um fato: Bento Santiago – o Dom Casmurro -, além de narrador, é advogado. Não teria ele todos os atributos intelectuais para envenenar a narrativa, de modo a levar o leitor a condenar Capitu?

Onde comprar:
Submarino | Saraiva | Cultura

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by José Mailson
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10 comentários

  1. Oi José!
    Esse é um dos meus livros favoritos, sem dúvida alguma!
    Já li pelo menos umas três vezes e ainda pretendo reler.
    A cena das tranças é uma das mais lindas de todas mesmo e acho incrível a profundidade e a estrutura da história.
    De fato, a traição em si não é o principal, mas é impossível não se perguntar isso durante toda a leitura.
    Eu, como você, também acredito que a Capitu seja inocente. Inclusive, já até elaborei algumas teorias de que o próprio Machado teria indicado isso no decorrer da obra. Por exemplo, o fato de a Capitu se parecer com a mãe da Sancha poderia demonstrar a coincidência de o filho dos dois parecer com o Escobar, sendo que, no primeiro caso, seria impossível a Capitu ser realmente filha da mãe da Sancha, então a semelhança entre o Ezequiel e o Escobar não precisa, necessariamente, ser devida a uma traição.
    Adorei o post!
    Beijos!

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    • Olá, Aione.
      Ele se tornou um dos meus livros favoritos também. E pretendo relê-lo em breve.
      Eu não tinha considerado essa semelhança entre Capitu e a mãe de Sancha sobre essa óptica. Mas pensado bem, essa é uma excelente justificativa para uma “não traição”.
      Obrigado pelo comentário e por suas considerações.
      Beijos!

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  2. Nunca achei que a Capitu traiu Bentinho! Não sei se foi influência da minha amada professora de literatura (que certamente contribui muito para minha paixão pelos clássicos), mas o Bentinho tem uma atitude tendenciosa. Não se pode confiar em narrativas contadas em primeira pessoa. No caso do Bentinho em especial, ele tenta o tempo todo fazer com que o leitor realmente tenha suas crenças. Mas eu não caí nessa não rs.
    Defendo Capitu!

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    • Eu fiquei com muita dúvida durante a leitura, mas também cheguei a essa conclusão. 😀
      Também defendo Capitu até quando puder! Hahaha

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      • Você é dos meus! Hahahaha
        Eu tenho uma mania de me colocar no lugar de alguns personagens, e nesse caso, fiquei pensando como eu me sentiria ao ser acusada sem motivo…. Não ia gostar!!

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        • Para mim, o bom leitor é aquele que interage com o personagem. Não precisa necessariamente aceitar, mas se imaginar na situação. Tá ai, esta é uma ótima forma de julgar sem ofender! 😀

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          • O único problema é quando o livro acaba… Difícil tirar a impressão que alguns personagens deixam. Até hoje há alguns trechos de histórias que voltam à minha mente sem nem pedir licença…

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  3. Oi José !
    Bem , eu não sabia da existência desse livro até a minha professora de Redação passar ele para minha turma , para podermos fazer um trabalho que ajudaria a gente na prova…
    Bom, eu li muitas coisas no livro e também em resumos da internet sobre Dom Casmurro, é todos tem uma opinião diferente sobre a tal traição. Pelo meu ponto de vista , Bento não foi traído , isso foi tudo uma história que ele deve ter inventado na cabeça dele achando que Capitu tinha traído ele com seu melhor amigo , que até então Bento vê uma semelhança entre Ezequiel e Escobar …
    Na história tem partes do livro que parece que Capitu e santa , porém , tem outras que não … Mais até então, quando Bento fala pra Ezequiel que Bento não e seu pai verdadeiro capitu fica até magoada com isso, que para mim achei uma coisa sincera da parte dela . Então, pra mim ela não traiu ele , ele que ficou fazendo semelhanças que não existia e ficou martelando aquilo na cabeça dele achando que Ezequiel poderia ser filho de seu melhor amigo

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    • Olá, Vitória.

      Esta é a grande dúvida. rs
      Mas fico feliz que você tenha conhecido uma das minhas histórias de amor favorita. ^^
      🙂

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