Cuco, de Julia Crouch

Cuco

…, por mais afastadas que estivessem, elas sempre pareciam capazes de retomar de onde tinham parado. Rose e Polly eram intimamente ligadas.”
Julia Crouch, Cuco, pág. 13.

Estava passeando numa das livrarias aqui na cidade e me deparei com este livro, de nome curto e de capa pouco interessante, exceto pela seguinte frase: “Seu primeiro erro foi convidá-la a entrar…” Isso me deixou curioso de imediato. Sentei-me num daqueles banquinhos que se encontram dentro das livrarias e li os primeiros cinco capítulos ali mesmo. Minha ânsia por lê-lo aumentou ainda mais, no entanto, não pude comprá-lo naquele dia. Tempos depois, a editora cedeu um exemplar ao blog, o que me permitiu concluir a leitura.

A história nada mais é que o reencontro de duas amigas de infância e do impacto dessa situação inesperada. Em resumo: Polly fica viúva e liga para sua amiga, Rose, afim de desabafar e tentar refletir sobre o que fazer de sua nova vida. Rose então, sem pensar, resolve convidá-la para ficar em sua casa. Polly sempre foi singular e vivia num “mundo próprio”, o que fazia com que Rose a admirasse e fizesse tudo por sua amiga. Ao ficar de frente aos dois filhos da amiga, ela percebe que Polly não é uma típica viúva. A permanência de Polly faz com que a amiga perca o controle de sua família e sua casa. Uma série de eventos acontece até que Rose se dê conta que a permanência da amiga fica cada vez mais complicada, e sua saída ainda mais difícil.

A sinopse do livro é algo que atrai bastante, mas confesso que a cada capítulo fui me decepcionando com a história. A narrativa não é dinâmica e nem instiga o leitor a continuar a leitura. Isso pode ser consequência de dois fatos. O primeiro seria por este ser o romance de estreia da autora, já que ela era acostumada a escrever para teatro. O segundo é que, essa inexperiência tenha levado a autora a florear demais os ambientes e cenas desnecessárias, fazendo-a se perder no enredo em si. O que eu caracterizo como “encher linguiça”.

Embora considerado um “romance policial”, este se assemelha mais a um drama mal feito ou até um pseudo-suspense. As personagens são mal construídas e bastante previsíveis. De todos os que aparecem durante a leitura, apenas dois personagens secundários são dignos de serem lembrados. O primeiro é Simon, vizinho e amigo da família; e a segunda é Kate, médica do vilarejo onde se passa a trama. Ambos percebem algo errado e tentam alertar a protagonista. Eles fazem isso de forma tão direta que fica inaceitável que Rose não tome nenhuma providência.

Este é um daqueles livros passíveis de serem abandonados, mas por “uma questão de honra” eu não o fiz. Mas confesso que é nos primeiros 5 capítulos, que são menos de 50 páginas, e nas últimas 50 páginas onde as coisas realmente acontecem. Os acontecimentos do final, acredito eu, se deram apenas porque já era hora do livro acabar mesmo e a autora precisava justificar o que ela havia feito ao longo do mesmo. Todas as justificativas usadas no livro não me convenceram de forma alguma. Quem lê romance policial, de verdade, sabe que é inaceitável que num livro desse gênero com mais de 400 páginas morra apenas duas pessoas. Sendo que uma delas já começa no livro, morta. Eu não considero esta informação um spoiller, pois como já disse, o livro é completamente previsível.

A autora tenta incluir umas referências cults que não cabem no contexto. Por exemplo, ela tenta mostrar que as personagens são cultas apenas mencionando (várias vezes) que elas veem filmes do Quentim Tarantino, como nas várias citações de Pulp Fiction. Outro fato que afirme essa tentativa é que, dois personagens são pintores e uma é cantora que fez sucesso no passado e está tentando se reerguer. Eu não sou contra esse tipo de situação, mas nesse caso a necessidade de mostrar seus personagens dessa forma chega a ser pedante. E incomoda bastante. Outra coisa que incomoda muito é que, a personagem enganada é aquela “gordinha”, de poucos atributos físicos e intelectuais, e sem nenhum dom artístico. E a autora justifica o fato dela ser assim por conta de um trauma familiar, como se as pessoas traumatizadas nunca se superassem ou surpreendessem.

Analisando o livro de uma forma mais geral, percebemos muitas pontas soltas, onde coisas simples ficaram sem explicação. Embora tentando passar a ideia de que as informações estão nas entrelinhas, é fato que elas não estão. Valeu a pena a leitura por dois motivos: o primeiro é para percebermos que teremos sempre bons livros e outros nem tanto; e que, independente do que está “na moda”, devemos ter contato com todos os gêneros e tipos de escrita, para que possamos construir nossos gostos e pontos de vista. E é, por apenas esses dois motivos, que recomendo esta leitura. Mas advirto: Prepare-se para encarar uma página de cada vez e para ler muitas descrições e cenas desnecessárias.

E aí pessoal, já leram Cuco? Este livro lhes chamou atenção em algum aspecto? Comentem!

Título / Título original: Cuco / Cuckoo
Autor(a): Julia Crouch
Tradutor(a): Tiago Novaes Lima
Editora: Novo Conceito
Edição: 2012 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2011
Páginas: 464

Onde comprar:
Submarino | Saraiva | Cultura

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by José Mailson
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4 comentários

  1. Nossa, nunca vi um texto tão crítico (negativo) aqui no blog. Em alguns livros já tive situações parecidas, em que eu “rezava” pro livro acabar. E quando acabou…
    Quando um livro é tão criticado assim, a minha vontade de ler o mesmo aumenta. Talvez eu encontre alguma coisinha boa até, rs. Você fez uma boa observação, pra sabermos o que é realmente “bom” ou não devemos ler todos os gêneros e autores possíveis. Você, assim como eu, prefere terminar o livro pra realmente saber se foi interessante a leitura ou não. Tenho certeza que esse livro será inesquecível pra você, rsrs.

    Boa resenha Mailson!

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    • Júnior, acredito que essa negatividade seja uma consequência de uma grande expectativa associada as várias características que citei da autora e do livro.
      Mas, por mais difícil que possa ser de acreditar, eu sempre criava um “fiapo” de esperança para que no capítulo seguinte o livro fosse melhorar. Enfim, acabei o último capítulo e isso não aconteceu.
      Eu também tenho uma atração por coisas odiadas (mais que por coisas amadas). E é por isso que fiz essa observação que você citou “o que é bom para uns pode não ser para outros.” E a recíproca é verdadeira também.
      Este será, com toda certeza, um livro inesquecível. kk
      Obrigado pelo comentário e elogio! 😀

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