A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro

A Confissão de Lúcio

“Em certos momentos chego a ter nojo de mim. Escute. Isto é horrível! Em face de todas as pessoas que eu sei que deveria estimar – em face de todas as pessoas por quem adivinho ternuras – assalta-me sempre um desejo violento de as morder na boca! Quantas vezes não retraí uma ânsia de beijar os lábios de minha mãe…”
Mário de Sá-Carneiro, A Confissão de Lúcio, p. 37.

Até onde uma prova de amizade pode ir? Até onde a sociedade pode ser injusta nessa interpretação? Esses são alguns dos inúmeros questionamentos feitos após a leitura d’A Confissão de Lúcio.

Mario de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa em 1892 e se suicidou em 1916. Ele foi um poeta, contista e ficcionista português, um dos grandes expoentes do modernismo em Portugal e, junto com Fernando Pessoa, publicou a revista Orpheu. A Confissão de Lúcio, publicada originalmente em 1914, foi a obra que inaugurou o romance do autor – um estilo pelo qual ele ainda não tinha enveredado. O tema central da obra gira em torno do “inverossímil” sobre o “real” e serve como referência para visualizar a época de vanguarda que foi o modernismo português.

A Confissão de Lúcio é narrada em primeira pessoa, e ambientada ora em Lisboa, ora em Paris, entre 1895 e 1903. Por esses fatores, essa obra pode até causar desconforto na leitura para os que não estão acostumados com essa linguagem um pouco mais formal e literariamente correta. O uso do flashback, já que a confissão é contada em 1913, dez anos após os fatos, também pode dificultar a leitura, mas nada que denigra a beleza da mesma.

A história de Lúcio é a história de um crime e de uma confissão. E nesta novela estão presentes três das principais obsessões dominantes vistas nas obras de Sá-Carneiro: o suicídio, o amor pervertido e o anormal avançando até a loucura. Passado a contextualização, vamos aos fatos.

Após dez anos de prisão, onde cumprira pena por ter assassinado o poeta Ricardo Loureiro, Lúcio é solto e começa a contar sua história para, segundo ele, demonstrar sua inocência. À medida que os fatos que antecederam o crime vão sendo contados, as lembranças se embaralham, perdem a nitidez, e a ambiguidade toma conta da narrativa. O que faz com que o leitor acompanhe a reconstrução fragmentada do passado de Lúcio.

Lúcio é amigo íntimo de Ricardo Loureiro e de sua esposa, Marta, uma mulher misteriosa que, às vezes, parece não ter existência própria. A convivência entre eles faz nascer em Lúcio um grande desejo por Marta, tornando-os amantes. Passado algum tempo, ele descobre que não é seu único amante. Lúcio passa a sentir ódio de Ricardo, pois desconfia que ele está a par de tudo. Um rompimento com o amigo acontece. Quando se reencontram, tempos depois, Ricardo lhe confirma a desconfiança e explica que, só possuindo fisicamente o objeto de sua amizade, poderia senti-la verdadeiramente. Mas, como possuir seus amigos? Por intermédio de sua mulher.

Há várias interpretações para A Confissão de Lúcio, já que este traz o depoimento de Lúcio Vaz, o qual nos brinda com informações de sua vida pessoal e profissional. Porém deve-se considerar que, nós leitores temos apenas os fatos contados por uma das partes envolvidas, devendo assim ter cuidado com os possíveis julgamentos.

O livro é extremamente envolvente, desde as primeiras linhas, após sabermos o motivo da confissão passando pelo desenrolar da historia, até o desfecho, onde surgem as duvidas: Culpado? Inocente? Vítima? Entre outras as quais eu, particularmente, passei muitos dias buscando entender os motivos que levaram cada personagem a tomar suas decisões.

Esse livro nos faz refletir, como citado anteriormente, sobre o poder gerado pela amizade na vida de uma pessoa, e até onde ela pode chegar. E o que se pode receber em troca ao fim da mesma. E para quem gosta de porquês esse é um prato cheio, já que todas as informações estão no livro, cabendo a você apenas julgar cabíveis ou não.

Quem curte Sá-Carneiro? Quem tem curiosidades de conhecê-lo? Gostaram da dica? Curtam, comentem! Boas Leituras!

OBS: Texto publicado originalmente no blog Coruja de Café, mas que não está mais disponível no mesmo.

Título / Título original: A Confissão de Lúcio
Autor(a): Mário de Sá-Carneiro
Editora: Moderna
Edição: 2004 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1914
Páginas: 79

Onde comprar:
Submarino | Saraiva | Cultura

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by José Mailson
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2 comentários

  1. Tenho grandes lembranças desse livro. Se não me engano, ele foi exigido para uma das provas da UESPI. E julgo que foi uma das melhores “obrigações” que já li na vida.
    Quando terminei de ler, debati manhãs e tardes com meus colegas de turma que também tinham lido. Eu não gosto de riscar livros, mas nesse me senti obrigado. Cada ação dos personagens merece atenção, e dizem muito e nada ao mesmo. No final, pouca coisa é explicada. O livro passa muito rápido, até porque é bem curto e envolvente.
    O que me chamou muita atenção na obra foi a consciência de Lúcio quanto à sua confissão, que ele julgava “inverossímil”. Por isso preferia consentir e aceitar a “culpa”. A maneira como Mário de Sá-Carneiro trata a homossexualidade e amizade é tão sutil *_*

    Ótimo texto, senti vontade de reler!

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    • Eu li pelo fato de ele estar numa das listas de “Melhores livros com temática homossexual”. Mas o autor consegue ir muito mais além, acredito que por conta da época em que a obra foi escrita. A abordagem da “amizade” é tão linda e poética. ^^
      Já falei muito sobre ele, mas ainda não tive oportunidade de debater sobre ele não. Seria uma excelente ideia.
      O livro é muito curto e envolvente mesmo, e conseguiu entrar na minha lista de favoritos numa facilidade.
      Eu não vejo Lúcio como um culpado, por o que ele diz que é. Ele tem muitas outras culpas e acredito que assumir essa, meio que diminui as outras.
      Tenho muita vontade de reler e acredito que não irá demorar! ;D

      Obrigado pelas considerações e excelente opinião! ^^

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