O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde

O Retrato de Dorian Gray

“Sim, ele tentaria ser para Dorian Gray, sem que disso se apercebesse, o que o rapaz era para o pintor que tinha dado forma ao retrato extraordinário. Procuraria dominá-lo. Na verdade, já em parte o fizera. Tornaria seu esse espírito fantástico.”
Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray, pág. 43.

Ítalo Calvino disse, em seu livro Porque ler os clássicos, que um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. E talvez seja por isso que O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, seja considerado um. Sua temática não se defasa, tampouco deixa de ser pertinente em discussões a respeito. Quem nunca ouviu falar do livro ou de qualquer uma de suas várias adaptações? Meu contato mais direto com o título foi através da indicação do meu amigo Sérgio Scacabarrozzi, um aficionado pela obra de Wilde. Desde então vinha tentando discuti-lo no Clube de Leitura do qual participo, dez tentativas depois finalmente o discutimos mês passado.

Para quem nunca ouviu falar, o livro conta a história de Dorian Gray, um belo rapaz que, através de uma espécie de pacto, consegue manter uma juventude eterna. Dorian é retratado por seu amigo e pintor, Basil Hallward, em uma pintura, que após o pacto começa a envelhecer em contraponto à juventude do rapaz que permanece intacta. A maior parte da história gira em torno do trio, completado pelo aristocrata hedonista Lorde Henry Wotton. Na convivência dos três personagens, Wilde desenvolve um romance pungente sobre a decadência moral da sociedade britânica, e do mundo como um todo, utilizando-se de uma linguagem irônica, bem humorada e por vezes até pedante.

A construção do enredo se baseia no mito de Fausto, em que este vende sua alma ao demônio impensadamente em troca de vinte e quatro anos de juventude, para que assim possa conquistar sua amada. O mito já foi base para muitas obras tanto da literatura como do cinema. São muitas situações e abordagens, mas que convergem na mesma essência da troca da alma por um desejo mundano. No texto de Wilde há uma alusão ao culto da beleza, entenda-se narcisismo, fazendo uma crítica aos valores extremos atribuídos à influência da beleza nos ditames sociais, seja ela de que natureza for, e que permanecem arraigados até hoje.

Além disso, Wilde critica o moralismo e pragmatismo do século XIX, ao colocar nas falas de seus personagens, incômodos como o modo de se vestir e agir, que em geral a sociedade impõe como correto. Lorde Henry é o responsável por todos esses atos de denúncia e apelo social, funcionando como alter ego do próprio autor. Lord Henry faz um estilo blasé e que não se importa muito com o que diz, desde que aquilo que diga faça os que estão a sua volta refletir sobre o que disse. Nem é preciso dizer que este é o ponto alto do livro e que Henry é, de longe, o melhor personagem. Se não for, é pelo menos o mais bem construído, mais até que o protagonista. Este por sua vez funciona como objeto de estudo antropológico e psicossocial de Henry, e por extensão de quem o ler.

Fazendo jus ao estilo de muitos escritores britânicos da época, Wilde também ironiza o povo americano, em especial as mulheres. Sem falar que Wilde é dono de várias frases ácidas sobre as mulheres de forma geral. Frases como “Dizem que, quando morrem, os americanos bons vão para Paris” exemplificam bem isso. Essa aversão de Wilde aos americanos também é notável em seu conto infantil, O Fantasma de Canterville, já resenhado aqui no blog. É um equívoco atribuir toda essa acidez à Wilde, já que a maioria das frases dele que vemos por aí na internet estão fora de contexto e são ditas por seus personagens, o que não necessariamente expressam a opinião do autor.

Muitas das situações narradas no livro se assemelham à vida de Wilde. Ainda que de forma sutil, é possível fazer certa analogia da relação Basil-Dorian-Henry com a relação vivida por Wilde e Lorde Alfred Douglas. No livro é retratada uma relação ciumenta, pautada no sentimento de posse e poder de um sobre o outro.

O Retrato de Dorian Gray foi o único romance escrito por Wilde, mas já ganhou nada menos do que sete adaptações para o cinema. A mais recente data de 2009, sob direção de Oliver Parker, com Ben Barnes no papel de Dorian e Colin Firth como Lorde Henry. No entanto, a mais bem aceita pelo público é a versão de 1945 com direção de Albert Lewin, tendo no elenco nomes como George Sanders, Angela Lansbury, Hurd Hatfield e Lowell Gilmore.

E vocês já leram o livro? Viram alguma das adaptações? Não deixem de comentar.

Título / Título original: O Retrato de Dorian Gray / The Picture of Dorian Gray
Autor(a): Oscar Wilde
Editora: Edições BestBolso
Tradução: Lígia Junqueira
Edição: 2011 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1890
Páginas: 240

Onde comprar:
SubmarinoEstante Virtual | Saraiva | Cultura

—————————
by Ademar Júnior
Twitter | Skoob | Facebook 
Filmow

9 comentários

  1. Após esse texto, até imagino o Ademar dizendo pra si mesmo: até que enfim eu escrevi a resenha desse livro que passei anos tentando ler, rs. E o que é pior, eu ainda não o li. Mas quem sabe esse ano rola…

    Parabéns pela resenha!

    Curtir

    • Pois é Júnior, minhas tantas indicações no Clube de Leitura eram tentativas de me obrigar a ler o livro. E deu certo! Gostei muito, confesso que esperava bem mais, mas foi excelente.
      E a discussão em grupo foi incrível. Um dos melhores encontros que já tivemos!
      Leia sim!

      Curtir

  2. Oi Ademar!
    Acho o livro incrível, e concordo sobre Henry ser o personagem de maior destaque. Em minha visão, é ele o grande responsável pela mudança de Dorian Gray.
    Assisti somente à adaptação mais recente e ela não me agradou muito. Acredito que houve uma intenção de ressaltar o lado mais sombrio da história em detrimento do seu conteúdo reflexivo.
    Beijão!

    Curtir

    • Aione querida,
      O Lorde Henry foi o queridinho de todos na discussão do livro no Clube de Leitura do qual participo.
      Eu não assisti nenhuma das adaptações ainda, apenas o filme biográfico do Wilde, muito bom por sinal, recomendo.
      Todo mundo diz que a adaptação de 2009 é ruim, poucas pessoas gostam.
      Obrigado pelo comentário. Beijos!

      Curtir

    • Oi Carlos, tudo bom?
      Que bom ver um comentário seu por aqui!
      Tente terminar de ler, você irá se surpreender com o final.
      Abraços!

      Curtir

    • Oi Helena,
      Fico muito feliz que tenha gostado da resenha.
      O Retrato de Dorian Gray é um clássico, você precisa ler, quando o fizer me diga o que achou.
      Eu também gosto da frase do Calvino, adoro clássicos!
      Ah, visitei seu blog e adorei. Parabéns!
      Beijos!

      Curtir

  3. Excelente sinopse especialmente para que, como eu não li, gostei e logo comprar o livro. O que me fez lembrar da marca nova série chamada Penny Dreadful, uma história que lida com a origem dos personagens literários clássicos como Dorian Gray e Dr. Frankenstein, a verdade é muito bom.

    Curtir

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s