Um Post, Um Personagem #04: A Mulher do Médico (Ensaio Sobre a Cegueira)

Blindness

A personagem protagonista do romance “Ensaio Sobre a Cegueira”, identificada por ser a esposa de um médico oftalmologista, que durante uma grave epidemia de uma cegueira incomum rapidamente alastrada pela cidade onde vive, é a única pessoa a manter-se “lúcida” numa terra de cegos.

Assim como todos os outros personagens, cujos nomes não são revelados na obra, a mulher do médico é, desta maneira, identificada apenas por ser casada com um homem de profissão relevante, ou seja, a identidade dela está relacionada ao ofício do marido. Essa é a heroína deste aclamado romance de José Saramago, único escritor de língua portuguesa a ser premiado com o Nobel de Literatura.

“Ensaio Sobre a Cegueira” é uma obra singular, que provoca o leitor a refletir sobre uma questão inusitada: se de repente não pudéssemos mais ver por meio dos olhos? O que seria da sociedade? Sobreviveríamos sem a visão física das coisas?

Deste modo propaga-se uma “cegueira branca” pela cidade [também não é nomeada], espalhando o caos e a miséria por toda a sociedade.

Após a súbita cegueira do marido, a mulher do médico finge estar cega para ser levada junto com ele a uma quarentena num sanatório, medida de internação tomada pelo Ministério da Saúde para isolar os infectados das pessoas sãs.

Durante a internação, a mulher do médico é condenada a ver o horror da degradação humana, uma vez que, abandonados no manicômio sem ajuda ou intervenção exterior, os contagiados pela “cegueira branca” estão por conta própria. Estes não podem contar com o auxílio das autoridades, sendo, portanto, obrigados a conviver num ambiente cujo acúmulo de sujeira e lixo causa repugnância, totalmente entregues à abjeção.

A heroína do romance é quem mais sofre por ter de viver e ver a situação sub-humana na qual ela e os cegos se encontram. Acabando por tornar-se a guia do grupo, a mulher do médico doa-se exaustivamente para ajudar os infectados pela incomum cegueira, ela se sente responsável pelos outros, já que é privilegiada com o sentido da visão. Ao mesmo tempo, porém, desespera-se com sua impotência diante da gravidade da situação.

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Como uma espécie de guia, ela passa a ser a protetora de seu marido e de alguns pacientes que passaram a viver na ala 1. Cada vez mais a convivência dentro do prédio de internação dos contagiados torna-se insustentável. Um cego munido com uma arma domina a comida do sanatório e se autoproclama o líder do prédio onde está ocorrendo a quarentena. Para fazer a distribuição da comida, o cego armado e seus companheiros, primeiro cobram dinheiro e bens materiais, depois expondo o lado mais grotesco do ser humano, estes cobram a sujeição das mulheres da quarentena aos seus desejos sexuais em troca de comida.

Sem outra opção, as mulheres da quarentena cedem ao infortúnio imposto pelos cegos que tem o domínio da comida. Após essa sujeição, a mulher do médico, tomada pela angústia e pela vingança, volta ao quarto dos cegos que detém o poder durante esta internação e atravessa a garganta do líder tirano com uma tesoura que havia escondido. Um incêndio irrompe no prédio e os cegos encontram-se livres para sair da degradante quarentena, pois percebem que não há mais soldados a vigiá-los impedindo-os de deixar tal local.

A mulher do médico então guia seu marido e os pacientes que viveram na ala 1 durante a internação até a sua casa, é uma época difícil de sobreviver, devido à escassez de comida e água, a fácil contaminação de doenças por causa da exposição de cadáveres no meio das ruas e o lixo espalhado por todo o lugar. A esposa do médico chega ao ponto de desejar estar cega para não ver todo esse estado de penúria ao qual a humanidade foi reduzida.

Esta personagem permanece com a capacidade de ver até o final do romance, com um desfecho provocador, que nos proporciona a chance de refletir sobre a “responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”.

“O certo e o errado são apenas modos diferentes de entender a nossa relação com os outros” (A Mulher do Médico).

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Curiosidades:

*Julianne Moore representou A mulher do médico no filme “Ensaio Sobre a Cegueira” (Blindness), dirigido pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles, em 2008.

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by Vanessa Lemos
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