A Maldição de Long Lankin, de Lindsey Barraclough

A Maldição de Long Lankin

“Onde está o herdeiro da casa?”, perguntou Long Lankin
“Adormecido no berço”, respondeu a falsa ama-seca
“Vamos furá-lo, furá-lo todinho com um alfinete,
E isso fará com que milady desça para o pequeno acolher.”
Canção de Long Lankin, pág. 07.

Não me lembro de ter lido muitos livros de terror. Embora a maioria dos meus amigos seja aficionada por Stephen King, devo me confessar herege por nunca o ter lido. Fato este, que devo retificar em breve. Assim, A Maldição de Long Lankin, da inglesa Lindsey Barraclough, foi uma das minhas experiências mais efetivas nesse gênero. E valeu a pena. O terror na verdade é um subgênero da literatura fantástica, que a priori se completa com a fantasia e a ficção-científica, gêneros estes com os quais tenho mais intimidade e propriedade para discorrer. Ainda assim, vamos ao que interessa.

A construção das histórias de terror, em geral, é feita pela junção de elementos que as caracterizam como tal. Um desses elementos, e o mais marcante no caso de Long Lankin, é o tempo-espaço onde a narrativa se desenvolve. Neste livro somos transportados para um vilarejo isolado, Bryers Guerdon, nos arredores de Londres, no ano de 1958. Outro ponto interessante é que toda a narrativa se passa durante o mês de Agosto, que para algumas culturas é o mês do azar. A reconstrução da época para ambientar o romance de estreia da autora é bem eficiente, evidenciando uma pesquisa bem desenvolvida dada a riqueza dos detalhes descritos por ela.

Seguindo a fórmula já usada por outros escritores, de colocar crianças como protagonistas, Lindsey logra êxito nisso também. Cora e Mimi são irmãs, sua família está passando por problemas que as obrigam a ir morar em Bryers Guerdon com sua tia-avó Ida Eastfield. Ao chegarem no vilarejo a receptividade não é das melhores e as meninas querem a todo custo voltar para Londres. Não tendo muita escolha, permanecem no lugar, a contragosto delas próprias e da tia. Logo conhecem Roger e Pete, que são de uma família com 05 filhos, e tornam-se amigos. A maior parte do livro é narrada por Cora e Roger, a outra parte é narrada pela tia Ida.

O vilarejo é regido por algumas regras, às quais Cora e Roger não se prestam a seguir a risca. As principais são: nunca ir à igreja e não abrir nenhuma porta nem janela, essa se aplica especificamente à casa da tia Ida. Como acontece com toda criança travessa, as regras são quebradas logo no início. Ao frequentarem sorrateiramente a igreja, as crianças despertam o mal, Long Lankin, que há muito não se manifestava. Assim, acompanhamos as aventuras dos garotos por cenário nada animadores: cemitério, pântano, bosque, igrejas em ruínas e na própria Guerdon House, que é a representação mais fiel do que chamamos de mansão mal assombrada.

A princípio o terror está presente em doses bem leves, não chega a assustar, mas os cenários são macabros, repulsivos até, e algumas situações angustiantes e tensas. Aos poucos Lindsey vai arquitetando seu clímax, no qual é impossível respirar. O livro mescla a hostilidade do ambiente com a inocência e leveza da narrativa em primeira pessoa das crianças. À medida que se avança vai se perdendo o encanto da narrativa infantil até nos depararmos com uma história macabra, grotesca e sanguinolenta de bruxaria e pactos demoníacos.

Lindsey se inspirou em uma canção folclórica sobre assassinato, bruxaria e vingança, em que um ser maléfico, uma espécie de morto-vivo, se alimenta de criancinhas para permanecer vagando pela eternidade. Alguma semelhança com o bicho papão? Se houver, desconsiderem, ainda que haja associação entre elas. O Long Lankin de Lindsey se mostra mais horrendo, nocivo e demoníaco que qualquer bicho papão. Apesar da inspiração, a autora constrói uma história original, que não poupa palavras para expressar desesperança e fugir do clichê de historinhas mágicas. Se há magia no livro, ela é negra.

A canção folclórica possui diversas versões e já foi inspiração para diversas obras da literatura e do cinema, e também já ganhou interpretações musicais por vários músicos e cantores, umas delas pela banda inglesa de folk, Steeleye Span, confiram:

Há outras coisas interessantes no livro, mas falar mais que isso pode me levar ao erro de soltar algum spoiller ou minar alguma surpresa, então vou deixar que vocês confirmem por si só o que livro pode proporcionar. Se já leram ou se vão ler, não deixem de comentar.

Título / Título original: A Maldição de Long Lankin / Long Lankin
Autor(a): Lindsey Barraclough
Editora: Bertrand Brasil
Tradução: Maria de Fátima Oliva Do Coutto
Edição: 2013 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2011
Páginas: 448

Onde comprar:
SubmarinoEstante Virtual | Saraiva | Cultura

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by Ademar Júnior
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