O Anatomista, de Federico Andahazi

Anatomista, O

“O novo achado do Anatomista supera todos os limites da tolerância. O Amor Veneris – a América de Mateo Colombo – ultrapassa o permissível para a ciência. A mera menção de um certo “prazer de Vênus” – por mais de um motivo – fervia-lhe o sangue”.
Federico Andahazi, O Amatomista, pág. 41

Sabe aquele livro que algum amigo seu mencionou em alguma conversa antiga e, quando você vai as compras olha para ele e pensa “Vou comprar!”? Isso aconteceu com O Anatomista, de Federico Andahazi. No momento da conversa citada, eu estava lendo Jake & Mimi e minha amiga Cássia Sousa me falou algo do tipo: “Tu deveria ler O Anatomista, que é um livro que fala de sexo com um pouco mais de requinte”. E sim, foi a expressão “que fala de sexo” que me induziu a compra (sem falar na capa que acho linda).

Após meses abandonado junto aos demais livros e de ter presenteado uma amiga com um exemplar semelhante, eis que o peguei e li. Por se passar durante o Renascimento, imaginei que seria uma literatura antiga, mas me surpreendi ao ver que sua publicação é recente, datada de 1997. Mas nem isso impediu que o romance se envolvesse num escândalo, um ano antes de ser publicado, impedindo-o de receber uma premiação que lhe era merecida apenas porque os responsáveis o limitaram como “literatura erótica”. Mas não se deixem enganar pelos rótulos, Federico Andahazi, que além de escritor argentino é psicanalista, soube tornar um romance histórico bastante atual. Mas vamos aos fatos!

O livro traz a vida do médico renascentista Mateo Realdo Colombo, que assim como seu homônimo, acaba de descobrir uma “América”. Mas não é qualquer América, mas aquela capaz de dominar o amor feminino. “América” esta que ele, como seu descobridor, ousou denominar “Amor Veneris”, hoje é popularmente conhecida como “clitóris”. A justificativa para esta descoberta do Anatomista vem do fato dele querer conquistar o amor da prostituta mais cara e bela de Veneza – Mona Sofia. Uma profissional que dá a ele o mesmo tratamento que ofertava aos outros clientes, ou seja, oferecia o seu corpo e o seu desprezo, sempre arrematado pela frase “Seu tempo acabou”.

Embora um seja o descobridor e a outra a inspiração para os estudos, nada disso existiria sem Inês de Torremolinos. Uma viúva jovem, mãe de três filhas, que após a morte do marido decide construir um monastério, dedicando sua vida à criação das filhas e à caridade. Quando poderíamos imaginar que uma mulher casta iria apresentar ao seu Médico, mesmo que de forma totalmente acidental, a descoberta anatômica mais desejada e temida de todos os tempos – o “Amor Veneris”? Como pesquisador que reconhece a grandeza de sua descoberta, o anatomista inicia os registros de seu achado – questões anatômicas e filosóficas que envolvem o órgão – numa obra intitulada “De re anatomica”.

É fácil imaginar o caos criado após Mateo apresentar sua descoberta à Universidade de Pádua, onde ele leciona uma cadeira de anatomia e cirurgia. Tanto a descoberta como os meios adotados pelo anatomista até então, o levam aos tribunais da Inquisição. As acusações de satanismo, bruxaria, dentre outros, junto com as declarações das testemunhas, acusação e defesa, que sofrem muita influência dos padrões religiosos servem para nos mostrar o poder que esta instituição tinha naquela época. Isso é mostrado mais claramente quando Mateo tem que burlar as proibições da Igreja para prosseguir nos estudos, já que o Papa Bonifácio VIII proibiu a dissecação de cadáveres.

As páginas finais do livro são completamente trágicas, mas são necessárias. Embora inicialmente eu tenha achado o livro completamente machista (e é!), agora aceito a ideia de que era a época e não o autor que partia desse princípio. Tanto no discurso de defesa de Mateo como nas impressões passadas pela Igreja Católica, vemos que em ambos o homem é visto como um ser quase divino e a mulher como a representação do demônio na terra, ou ainda como a mulher que deve pagar eternamente pelo erro de Eva. Toda essa repressão sobre a sexualidade feminina torna o livro muito tenso, o que faz o leitor refletir bastante quanto à importância das mulheres na sociedade.

O texto é escrito com uma linguagem beirando o rebuscamento, o que requer mais atenção do leitor. Mas isso não o impede de se prender a cada detalhe, cada palavra. É evidente que em algumas explicações temos a impressão de estar lendo um artigo científico ou algo assim (fazendo o leitor buscar as referências, rs), mas o prazer em estar presente no descobrimento é incrível. Boa dose de humor negro e erotismo, beirando a vulgaridade, são os responsáveis pela leveza e fluidez da leitura. Quanto a ideia que tenho do Renascimento, acredito que o livro mostra o renascimento da mulher, a forma como ela ganha poder na sociedade. E que, mesmo de forma cruel, elas conseguem escapar da vida oprimida de outrora.

Da edição que li, só venho reforçar meu amor por edições de bolso, por sua praticidade e acessibilidade.

Quem curte romance histórico? Já conheciam este? Comentem!

Título / Título original: O Anatomista / El Anatomista
Autor(a): Federico Andahazi
Tradução: Paulina Wacht e Ari Roitman
Editora: L&PM
Edição: 2008 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1997
Páginas: 224

Onde comprar:
Submarino | Saraiva | Cultura

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by José Mailson
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14 comentários

  1. haha, adorei o texto. Só discordo que O Anatomista seja um livro machista. Não é. Ele apenas traça um painel de uma época em que a mulher era considerada a fonte de todos os males. Não há como falar da Idade Média sem destacar a condição da mulher dessa época, seria inverossímil. Acredito que o livro seria machista se endossasse que, sim, aquela visão é a única visão válida sobre mulheres. Mas é exatamente o contrário.

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    • Obrigado, Cássia.
      Embora a ideia seja contrária, mas eu achei sim um livro machista. Não sei exatamente se cheguei a essa conclusão por conta da época, das situações descritas pelo autor, mas em certa forma eu achei.
      Tá, até aceito que o autor usou isso para fazer uma crítica controversa, onde ele mostra uma realidade (podre, digamos assim) para que as pessoas vejam como ela é ruim. Mas, alguns pontos eu achei forte demais.
      😀
      Adorei seu comentário por aqui! ^^

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  2. É tudo uma questão de subtexto, Mailson. Um exemplo: quando eu digo pra você que um homem encheu a esposa de porradas, o ato em si do homem é uma demonstração de machismo e misoginia. Mas o fato de eu falar isso pra você não quer dizer que eu seja machista (a não ser que você perceba que eu comuniquei isso a você dando razão ao homem). Eu acho esse livro parecido com aquele filme que te indiquei: Longe do Paraíso. Ambos mostram as lógicas que governavam em determinadas épocas (O anatomista, idade média, Longe do paraíso, década de 1960 do século XX) para que reflitamos o que de fato mudou de lá pra cá. Infelizmente, em ambos os casos, eu não vejo muita mudança. 😦

    Claro que mulheres não são mais queimadas na fogueira. Mas simbolicamente sofrem todo tipo de violência.

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    • Considerando esta sua colocação, eu irei repensar em alguns pontos.
      Até estou considerando uma releitura para ver se consigo visualizar por esta óptica. *-*
      A analogia ao filme Longe do Paraíso torna as coisas mais claras, mas ainda assim estou um pouco relutante. =/

      Quanto as mudanças, eu concordo com você. As atrocidades públicas acabaram, mas em compensação, a opressão por todos (ou boa parte) os lados ainda continua.
      ^^

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    • Obrigado, Nélio!
      Cuidado com os impulsos, eu sou vítima deles! kk Mas se for para conseguir obras como esta, vá em frente. Não se arrependerás! 😀

      Que bom que gostou da resenha. Espero continuar progredindo! 😀

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