Garota Exemplar, de Gillian Flynn

Garota Exemplar

“Minha mãe sempre dissera aos filhos: se você está prestes a fazer algo, e se quer saber se é má ideia, imagine impresso no jornal para o mundo todo ver.
Gillian Flynn, Garota Exemplar, pág. 164.

O thriller é um dos meus três gêneros favoritos (para quem não sabe, rs). Entre seus subgêneros, o thriller psicológico vem em primeiro na minha preferência. Seja pelo teor emocional mais presente, ou por, geralmente, envolver tramas em que é exigido mais intelecto do que força física dos personagens. Assim como, pelas situações frequentemente desenvolvidas e pelo aprofundamento que as personagens ganham. Garota Exemplar (Ed. Intrínseca), de Gillian Flynn, se encaixa perfeitamente no que foi descrito. O livro é cheio de tensão e nos coloca em profundo envolvimento com as personagens, tanto em sentimento de revolta como de cumplicidade.

O livro conta a história de Amy e Nick Dunne, dois jornalistas, que se conhecem e se casam. Aos poucos eles percebem que a vida a dois não é assim tão simples e com isso alguns problemas surgem. Eles descobrem que, como na maioria dos relacionamentos, não dá pra manter certos hábitos somente para agradar o cônjuge, muito menos quando o casamento chega até certo tempo. Surgem as mudanças de comportamento, e as pessoas começam a se perguntar se realmente conhecem o parceiro com quem dividem suas vidas. Lembram-se daquela máxima que diz que só conhecemos as pessoas de verdade depois que casamos? É mais ou menos assim que a coisa funciona na vida de Nick e Amy.

A narrativa começa no dia do quinto aniversário de casamento do casal. Nick encontra sua casa revirada e a porta da rua escancarada. Amy desapareceu. A princípio tudo parece se tratar de um sequestro, mas ninguém viu nada e as pistas não fazem muito sentido para a polícia. No desenrolar da investigação as coisas só se complicam, eles encontram o diário de Amy, e as suspeitas recaem sobre Nick, principalmente pelo fato da história narrada por ele ser diferente da que Amy registrou em seu diário ao longo dos últimos sete anos. Nick insiste na sua inocência, muitas pessoas do passado do casal entram na investigação e aos poucos suas personalidades vão sendo reveladas e esclarecidas. O casal, que se bem pensarmos não é único, descobre que em um ambiente de mentiras, a verdade nunca é clara e pode ser facilmente distorcida. E até mesmo que, uma mentira contada muitas vezes pode se tornar uma verdade.

A estrutura do livro é um ponto muito interessante. Gillian usa todos os elementos de um bom thriller psicológico, entre eles a narrativa em primeira pessoa e pontos de vista de mais de um personagem. Os capítulos são narrados, de forma intercalar, ora por Nick, ora por Amy. Há ainda a transcrição do diário de Amy, encontrado durante a investigação. Esse recurso é o principal responsável pelo nosso envolvimento. Nós nos relacionamos de tal forma com eles que, assim como numa briga de amigos, sentimos dificuldade de tomar partido. Somos obrigados a ouvir as duas partes e tentar ficar imparcial, o que quase nunca funciona. No caso de Amy e Nick não é diferente. O muro em que a autora nos coloca ora tende para um lado, ora para o outro e parece que não vai cair tão cedo, ou até mesmo que não vá cair nunca.

Com a inserção do diário de Amy a narrativa volta várias vezes no tempo, até mesmo ao ponto em que Amy e Nick ainda estavam se conhecendo. Essa é outra característica marcante do thriller psicológico, pois ela nos mostra a construção da personalidade dos personagens e nos faz entender o que levou eles a chegaram a tal situação.

Confesso que nos primeiros capítulos eu não consegui me envolver muito com a história do casal. Logo no início, me senti um pouco incomodado com as referências citadas e com a forma que a autora as inseriu, mas muito mais pelo estilo de vida que foi mostrado. À medida que a trama vai se desenrolado fica impossível não se envolver e a torrente de sentimentos que ele desperta é inevitável. Antes de chegar na metade eu já estava absorto e torcendo para o tormento psicológico acabar, a partir dai é impossível largar.

Apesar do livro não ter o final que eu gostaria, tudo é muito bem desenvolvido e a autora nos dá uma visão bem distinta do que se espera para o casamento. O que é bom, pois nos tira um pouco da zona de conforto. Talvez o livro reforce a ideia de quem não quer casar ou que auxilie aos que querem com algumas ideias e situações típicas. Mas não pense ser esse o propósito do livro, longe disso. No entanto, todo leitor que se preze consegue retirar experiências para a vida, tomando como exemplo as personagens e o que elas “vivem”.

A editora Intrínseca tem trazido muitos thrillers interessantes para o mercado brasileiro. Entre eles um que também se encaixa muito bem no subgênero psicológico é No Escuro, de Elizabeth Haynes, que já foi resenhado AQUI e está sendo sorteado AQUI. Foi lançado esse mês, A Síndrome E, de Franck Thilliez, um livro perturbador que tem agradado muito o público do gênero. Para os amantes de thrillers eu indico, ainda pela Intrínseca, os livros do casal sueco Alexander e Alexandra Ahndoril, conhecidos como Lars Kepler (O Hipnotista e O Pesadelo); os do italiano Giorgio Faletti (Eu Mato, Eu Sou Deus e Memórias de um Vendedor de Mulheres); e os da americana Lionel Shriver (Precisamos Falar sobre o Kevin,  O Mundo Pós-Aniversário e Dupla Falta), embora os dois últimos não sejam thrillers, mas também abordam várias nuances desagradáveis do casamento e de como elas podem ser desgastantes e degradante.

Por fim, indico também o livro do queridíssimo Raphael Montes, Suicidas, publicado pela Benvirá/Saraiva, e já resenhado AQUI também!

OBS: Fiquem atentos que nesta semana a editora Intrínseca está promovendo a Semana do Thriller, com a mobilização de vários blogs que irão postar resenhas, curiosidades e vários sorteios. Não percam!

Thriller
Entenda o Thriller em algumas palavras. Clique para ampliar!

Título / Título original: Garota Exemplar / Gone Girl
Autor(a): Gillian Flynn
Editora: Intrínseca
Tradução: Alexandre Martins
Edição: 2013 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2012
Páginas: 448

Onde comprar:
Submarino | Estante Virtual | Saraiva | Cultura

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by Ademar Júnior
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6 comentários

    • Oi, Camis…
      Foi assim comigo também. No início não conseguia me prender muito, eu tava até criando certa antipatia com a escrita da Gillian, mas daí o negócio engatou e eu não conseguir mais largar.
      Lia desesperadamente toda hora! Muito bom mesmo, estou recomendando a todo mundo!
      Beijos

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    • Oi Soraya,
      Obrigado pelo elogio. Eu também adorei o livro, me fez pensar e pensar mais ainda sobre muitas coisas, rsrs, e isso é algo muito bom quando acontece.
      Eu me decepcionei um pouco com o final, porque ao longo da leitura eu ficava tentando imaginar o que ia acontecer e acabava criando expectativas. E no fim aconteceu o que eu não queria. Mas isso não torna o livro ruim de forma alguma.
      Adorei sua resenha também!
      Beijão!

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  1. Esse livro não me impressionou. Detestei a Amy e torci demais para que ela se ferrasse no final. Acho um bom livro, mas nada de excepcional. Acredito que o sucesso se deu pelo fato do livro ter atraído leitores que não costumam ler suspense. Quem não está habituado a essas viradas, fica mesmo admirado, mas para quem conhece Elisabeth Haynes, Tess Gerritssen, Lisa Gardner e Patrícia Cornwell, a trama não tem nada de mais.

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    • Oi Ronaldo, o livro não o impressionou, certo. No entanto, acho uma falácia você inferir que o sucesso se deva ao fato de o “livro ter atraído leitores que não costumam ler suspense”, eu mesmo gostei muito do livro e costumo sim ler suspense, de todos os subgêneros agregados a eles, é inclusive um dos meus gêneros favoritos. Eu acho justamente o contrário, que o sucesso se deva ao fato de a autora usar o thriller para falar de um tema universal. E isso não é demérito nem ao gênero, nem à autora, nem à temática e menos ainda aos leitores, sejam eles leitores cativos de suspense ou não. Acontece, que nem todo mundo que lê suspense e acha que o conhece por inteiro, sabe que ele se fragmenta em vários subgêneros cada um com uma estrutura bem particular. O thriller psicológico, que foi o de escolha para esse livro por parte da autora, não exige tais reviravoltas e surpresas que você esperava, baseado em suas experiências com outras autoras. Você citou ótimas autoras, sim. Mas elas não resumem o gênero, acrescente mais a essa lista. E discordo ainda quando diz que Gillian Flynn só surpreende a quem não as conhecem. Acho que você poderia pesar mais suas palavras, rs. No mais, respeito a sua opinião de não ter gostado.

      Obrigado por compartilhá-la aqui.

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