Beauvoir Apaixonada, de Irène Frain

Beauvoir Apaixonada

É minha vida, e a vivi como quis vivê-la…
O mundo real é uma verdadeira bagunça.
(Simone de Beauvoir)

Beauvoir apaixonada (Beauvoir in love) é um romance semi-biográfico, talentosamente escrito pela autora francesa Irène Frain, que recria o encontro de Simone de Beauvoir, a musa do existencialismo e principal militante feminista, com o grande amor de sua vida, o romancista estado-unidense Nelson Algren.

Irène Frain esclarece, no prefácio da obra, que se trata de um romance “inspirado em fatos reais”, possibilitando, todavia, certa liberdade criativa da autora para imaginar e preencher algumas lacunas que não foram reveladas pelas obras publicadas dos dois amantes e arquivos encontrados sobre eles.

Em Beauvoir apaixonada conhecemos a Simone humana, despida da imponente pele de charmant Castor – como era conhecida no meio intelectual francês, e assim chamada por seu mestre, Jean-Paul Sartre, o papa do existencialismo. Por meio da recolha de arquivos biográficos e diversas cartas pessoais trocadas durante anos por Nelson, Simone e Sartre; a autora desse livro organizou e reconstruiu a história do amor intempestivo de Simone e Nelson, que começou de forma imprevista numa viagem da Miss de Beauvoir à América. Essa viagem foi determinada por capricho de seu mestre e companheiro intelectual, Jean-Paul Sartre, que desejava manter Beauvoir afastada e trazer a amante norte-americana, Dolores, para passarem uma temporada juntos na França.

A relação entre Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre foi uma condição decisiva para que o sucesso filosófico e literário de ambos fosse estabelecido. Residiu nessa aliança o maior obstáculo para a realização amorosa de Simone, uma vez que tal vínculo a impediria de se comprometer sentimentalmente com o homem que ela amava.

Desde a infância, Simone de Beauvoir demonstrava possuir uma excepcional inteligência, sendo que seu próprio pai, que não realizou o desejo de ter um filho homem, afirmou que Simone possuía um “cérebro de homem”, quando a menina tinha apenas 10 anos de idade.

Simone cresceu e se destacou nos estudos, cursando as faculdades de Matemática, Literatura e Línguas, e Filosofia, esta última na Sorbonne, época em que conheceu Sartre e adentrou no círculo de filósofos de Paris, o que a projetou como sacerdotisa do existencialismo e inspiração de seu mestre, Jean-Paul Sartre. O encantador Castor apaixonou-se por Sartre e ele também a correspondia, à sua maneira. Simone e Sartre então foram amantes durante alguns anos, mas o desejo de Sartre de estar com outras mulheres o levou a propor-lhe um pacto: “seriam um para o outro ‘o amor necessário’, proclamava Sartre, e suas outras relações, amores ‘contingentes’. Juntos reinventariam o amor; poderiam engajar o corpo sem jamais engajar a cabeça. Com uma única condição: contar tudo um ao outro.” (FRAIN: 2013, p. 21)

Desse pacto, o filósofo existencialista soube tirar maior proveito do que Simone, que, por dentro, era dilacerada pelo ciúme desses “amores contingentes” de seu parceiro. Com o passar dos anos, Sartre deixou de desejar o corpo de Simone, ainda assim ela permanecia no posto de “amor essencial”, acompanhando-o a entrevistas e estreias de seus livros e peças. Entretanto, não tinham mais contato íntimo, chegando apenas a dividirem as mesmas amantes, pois algumas alunas de Simone atiravam-se nos braços da professora e ela deixava-se levar, depois, maquinava tudo para que tais alunas fossem parar na cama de Sartre.

Até que uma das contingentes de Sartre tornou-se para ele o amor necessário; isso fez com que o filósofo preparasse uma longa viagem do seu Castor à América, com o pretexto de ministrar palestras e participar de conferências, o que na verdade era um estratagema para trazer a amante americana para perto de si, sem causar grandes tormentos ao pobre Castor.

Simone obedece e vai, na pele de Castor, à América, sem imaginar que estaria prestes a viver a paixão mais intensa de sua vida.

É na cidade de Chicago que Simone conhece Nelson Algren, um sujeito irascível pelo qual se apaixona e se entrega por completo naquele momento em que ela estava carente de amor e de contato físico.

Nelson Algren era um romancista dos oprimidos. Em seus romances, ele revelava a realidade obscura da América, os bairros dos viciados e excluídos, a realidade dos negros nos Estados Unidos. Tudo isso encantava Simone, ela tinha a pretensão de escrever um livro sobre esse lado da América, que só exibia sua marcha do progresso, mas que esmagava sob os pés do capitalismo essa parcela marginal da sociedade.

Entre bares, bordéis e ruas cheias de indivíduos decadentes, Simone e Nelson vão sendo tomados por uma identificação que, apesar de pertencerem a mundos diferentes, naquela circusntância os torna iguais, sentimento que seria lembrado pelo resto da vida dos dois, sempre fazendo com que tentassem repetir esse momento. Na quitinete de Nelson, a magia acontece, Simone ama e é amada como jamais esperava que fosse possível.

No entanto, a personalidade dos dois é explosiva, oscilando de uma hora para outra entre o mais sublime amor e o ódio fulminante. Os encontros de Simone e Nelson ocorrem em pouco menos de quatro anos com muitas brigas e reconciliações, é nesse período que ambos escrevem suas obras-primas (O segundo sexo – Beauvoir; O Homem do Braço de Ouro – Algren).

Sempre o fantasma de Sartre fazia com que Nelson abandonasse Simone, ou que ela mesma o abandonasse para ir ficar junto de seu mestre intelectual. O rompimento definitivo é bastante trágico, pois Nelson sempre acreditou que estava sendo enganado, a Maldita Sensação, como a autora se refere a isso.

Por fim, Simone volta a vestir a pele de Castor e decide esquecê-lo, de uma vez por todas. A escritora duvida, como deixa transparecer nestas palavras: “Presunçoso Castor. Ainda ignora que as histórias de amor são como os seres humanos, quando queremos assassiná-las: elas se apegam à vida, resistem, debatem-se.” (FRAIN: 2013, p. 299)

Este livro de Irène Frain, Beauvoir apaixonada, é uma obra dotada de beleza poética, mesmo nos momentos de sordidez da personalidade humana em que o ser humano expõe seu lado mais obscuro, a crueldade de machucar quem mais amamos em nome do próprio orgulho e do narcisismo. Mostra também os arroubos das grandes paixões, seja por uma pessoa, seja por uma ideia, que nos torna capaz de fazer loucuras para que tal paixão seja realizada.

Esta é uma obra que vale a pena ser lida e relida, revelando essa parte pouco conhecida da história de Simone de Beauvoir, que apesar da fixação por Sartre, viveu um intenso romance com Nelson Algren. Foi justamente essa aventura sentimental a inspiração para as obras mais brilhantes de Simone de Beauvoir, consagrada como uma das intelectuais mais influentes do século XX.

Descubra um pouco mais de Beauvoir apaixonada em imagens, no site oficial AQUI (em francês).

Conheça melhor o trabalho da autora AQUI.

Dicas de filmes, para quem quiser saber um pouco mais sobre a história de Simone de Beauvoir e Nelson Algren:

Simone de Beauvoir e Nelson Algren
Simone de Beauvoir e Nelson Algren

Ficha Técnica

Beauvoir ApaixonadaTítulo: Beauvoir Apaixonada
Título original: Beauvoir in Love
Autor(a): Irène Frain
Editora: Verus
Tradução: Marisa Rossetto
Edição: 2013 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2012
Páginas: 334
Sinopse: O mundo todo conhece a lendária Simone de Beauvoir, uma das maiores intelectuais do século XX, figura de proa do feminismo e companheira de Jean-Paul Sartre. Mas o que sabemos sobre a mulher apaixonada e dividida que se escondia por trás do ícone? Em 1947, em uma longa viagem aos Estados Unidos, Simone de Beauvoir conhece o escritor Nelson Algren, com quem vai se envolver no caso de amor mais intenso de sua vida. Com base nas obras dos envolvidos, em arquivos muitas vezes inéditos, fotografias, entrevistas e citações de pessoas próximas, Irène Frain reconta de maneira singular a história da paixão entre a personagem mais importante da liberação feminina e o bad boy da literatura americana, fazendo renascer a magia e a ilusão dos amores impossíveis – aqueles que não se esquecem jamais. Beauvoir apaixonada causou alvoroço em seu lançamento na França, permanecendo por meses nas listas de mais vendidos do país.

Onde comprar:
Estante Virtual | Saraiva | Cultura

2 comentários

  1. Amei o livro e sem dúvida, grande escritora (Frain), Grande pensadora e mulher, (Simone de Beauvoir ).
    Obrigada e um abraço,

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    • Olá Rita! ^_^
      Também amei esse livro, espero ler mais trabalhos da Iréne Frain!
      Simone de Beauvoir foi uma mulher muito corajosa e que pensava à frente de sua [e até da nossa] época, sua contribuição à história feminina merece sempre ser lembrada. Fico muito contente ao ver parte da vida de Simone ser retratada numa obra literária tão bela como “Beauvoir apaixonada”. Beijos!

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