O Hipnotista, de Lars Kepler

O Hipnotista

 Há duas coisas que ele odeia, pensa, olhando para a pasta. Uma é desistir de um caso, se afastar de corpos não identificados, estupros e roubos não solucionados, casos de agressão e assassinato. A outra coisa que ele odeia, embora de uma forma inteiramente diferente, é quando esses casos são resolvidos, porque quando velhas perguntas são respondidas, raramente é da forma que se desejaria.
Lars Kepler, O Hipnotista, pág. 417.

A literatura policial sueca é uma das mais promissoras e evidentes atualmente. Tanto é que a Academia Sueca de Escritores de Crime premia anualmente os melhores romances no gênero desde 1982. Um dos vencedores do prêmio, em 2006, foi o tão conhecido e aclamado Stieg Larsson com A Menina Que Brincava com Fogo (Ed. Companhia das Letras). Larsson além de ser bem recebido pela crítica, por seus thrillers policiais de cunho mais políticos, foi também o responsável por alavancar a literatura policial do seu país. E não só essa, John Ajvide Lindqvist, autor de Deixa Ela Entrar (Ed. Globo), falou em entrevista da influência de Larsson para o reconhecimento da literatura sueca como um todo, inclusive dele que escreve terror.

Lars KeplerCom esse boom, muitos autores suecos vieram à tona e foram publicados em diversos países. Entre eles está Lars Kepler, que na verdade é um pseudônimo criado anonimamente pelo casal Alexander e Alexandra Ahndoril. Ambos já publicaram trabalhos individuais, então resolveram criar Kepler para nomear seus livros em parceria. A identidade dos Ahndoril como autores de O Hipnotista (Ed. Intrínseca) foi revelada após grande investigação da mídia sobre a misteriosa origem do autor, algo semelhante ao que aconteceu ao autor JT LeRoy – pseudônimo de Laura Albert –, de Maldito Coração (Geração Editorial).

Dito isso, O Hipnotista é o romance de estreia de Kepler, que além desse já conta com outros 03 livros publicados – O Pesadelo, The Fire Witness e The Sandman –, os dois últimos ainda inéditos aqui no Brasil. Todos os livros são protagonizados pelo detetive Joona Linna. Particularmente, após a leitura do primeiro livro, não sei se protagonizar é a palavra correta, eu diria que ele é apenas o elemento comum às sequências.

É aqui que começo a falar da história. O livro começa com uma investigação preliminar sobre um caso em que uma família foi massacrada a facadas, e a única testemunha do crime é o filho de 15 anos que sobreviveu a mais de cem facadas, isso mesmo, quase impossível de acreditar. O garoto encontra-se em estado de choque, impossibilitando seu depoimento à polícia, assim Joona Linna recorre ao famoso (e banido dessa função) hipnotista Erik Maria Bark, especialista em pacientes traumatizados. Após hipnotizar o garoto, a notícia chega à mídia. A partir daí a família de Erik começa a ser ameaçada e vários fatos estranhos acontecem.

A primeira reviravolta do livro acontece quando o filho de 15 anos do hipnotista é sequestrado. O garoto é portador da Doença de Von Willebrand, na qual o sangue não coagula corretamente e pode causa hemorragias irreversíveis. Para não morrer, o garoto precisa tomar injeções semanais de medicamentos. Assim, começa uma corrida contra o tempo para encontrar o garoto a salvo, descobrir quem o sequestrou e a ligação entre um caso e outro.

Em meio a tudo isso, Erik Maria Bark está vivendo uma crise em seu casamento. Simone acredita que Erik a está traindo novamente, coisa que já havia acontecido há dez anos e que havia minado o relacionamento do casal. Para ela uma segunda traição é imperdoável. Joona também sente dificuldade de conciliar seu trabalho como investigador com sua função de namorado atencioso. Esses conflitos são bastante comuns em thrillers de investigação, pois em geral, as esposas sentem grande preocupação com seus cônjuges, por medo de perdê-los a cada novo caso que eles pegam.

O enredo torna-se grandioso com tantas nuances que o entrelaçam. Todavia, esta é a principal falha do livro. Isso porque os casos são muito distintos e não caminham de forma simultânea, que, a meu ver, funcionaria muito melhor. O que acontece é que o primeiro caso é praticamente deixado de lado, com uma solução muito simplista e rapidamente ignorada. Quando chegamos ao clímax do caso de sequestro, personagens do início nem sequer são citados novamente e terminamos por não saber o destino exato de cada um. Entre um caso e outro o autor regride para um acontecimento de dez anos atrás, em um capítulo gigantesco, que de certo modo quebra o ritmo da narrativa.

Outro ponto negativo está na marcação do tempo, que não convence muito. Isso porque quando se trata de thrillers em que há corridas contra o tempo, este elemento em si deve ser bem trabalhado e muito bem marcado. As colocações temporais dos acontecimentos apresentam falhas desde o início, até mesmo as definições do tempo fictício – noite, madrugada, manhã e tarde – confundem o leitor. Entretanto, capitular o livro com os dias em que a trama está se desenvolvendo é um ponto positivo.

O Hipnotista (Filme)Ainda assim O Hipnotista tem um ritmo eletrizante e muito denso, que ficaria interessante em uma adaptação para o cinema. E eis que ela de fato aconteceu, em 2012 estreou a versão cinematográfica de O Hipnotista, sob direção de Lasse Hallström e com Mikael Persbrandt, Lena Olin e Tobias Zilliacus no elenco. Infelizmente o filme não agradou muito ao público se mostrando extremamente inferior ao livro, ainda que a trama seja um pouco diferenciada. Muitas pontas soltas do livro são ajustadas no filme, inclusive a ligação entre ambos os casos, que parecem mais concisos e críveis na adaptação. O problema é que o filme peca pelo ritmo que, mesmo com cortes de cena acelerados e quase desconexos, se desenvolve lentamente.

É uma leitura interessante e que vale a pena, principalmente para conhecer um pouco da cultura sueca, de onde sem dúvida surgirão novos talentos. A escrita do casal é muito interessante e não deve ser ignorada, vamos aguardar os próximos lançamentos.

Postagens relacionadas:

– Resenha: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, de Stieg Larsson
– Resenha: Maldito Coração, de JT LeRoy

Ficha Técnica

O HipnotistaTítulo: O Hipnotista
Título original: Hypnotisören
Autor(a): Lars Kepler
Editora: Intrínseca
Tradução: Alexandre Martins
Edição: 2011 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2009
Páginas: 480
Sinopse: O massacre de uma família nos arredores de Estocolmo abala a polícia sueca. Os homicídios chamam a atenção do detetive Joona Linna, que exige investigar os assassinatos. O criminoso ainda está foragido, e há somente uma testemunha: o filho de 15 anos, que sobreviveu ao ataque. Quem cometeu os crimes o queria morto: ele recebeu mais de cem facadas e está em estado de choque. Desesperado por informações, Linna só vê uma saída: hipnose. Ele convence o Dr. Erik Maria Bark – especialista em pacientes psicologicamente traumatizados – a hipnotizar o garoto, na esperança de descobrir o assassino através das memórias da vítima. É o tipo de trabalho que Bark jurara nunca mais fazer: eticamente questionável e psicologicamente danoso. Quando ele quebra a promessa e hipnotiza o garoto, uma longa e aterrorizante sequência de acontecimentos tem início.

Onde comprar:
Estante Virtual | Saraiva | Cultura | Siciliano

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11 comentários

  1. Oi querido!
    Primeiro de tudo, devo te parabenizar pela excelente contextualização prévia à resenha!
    Já havia lido outras resenhas que falavam sobre esses pontos mais fracos do livro – o que é uma pena, porque ele tem potencial para ser excelente, ao que tudo indica -, mas é bom ver que o ritmo dele não deixa a desejar.
    Não sabia sobre o filme e fiquei curiosíssima, ainda que ele não pareça tão promissor. Achei legal terem se preocupado em atar algumas das pontas soltas deixadas pelo original.
    Beijão!

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    • Oi querida,
      Muito obrigado, eu sou muito suspeito para falar da literatura sueca (e até mesma de cultura de lá como um todo. Sou apaixonado.
      O livro tem alguns pontos negativos sim, mas ainda assim é bem legal. Eu pretendo ler os outros livros deles a medida que forem lançando. Mas o filme não é muito legal. O diretor é o mesmo de Porto Seguro e Querido John!
      Beijão!

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  2. Não conhecia o livro nem o filme, mas adorei a resenha.
    Mesmo com os pontos negativos citados, é bem o estilo de livros que eu adoro!!
    A resenha fico bem interessante!
    A Lista de desejos acaba de crescer rs
    Beijos

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    • Oi Soraya,

      Pois é, mesmo com os pontos negativos o livro é muito legal e vale a pena. O filme não é lá essas coisas, mas é um bom complemento para o livro.
      Obrigado pelo comentários.
      Eu sei bem como é aumentar essa lista ai. hahahaha
      Beijos

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  3. também já li o livro, e gostei bastante (dei quatro estrelas no Skoob).
    Lendo sua resenha, percebi mesmo que houve uma falha temporal no livro, mas isso não me incomodou tanto assim. Acontece tanta coisa no livro que isso ficou deixado de lado, a meu ver. Fiquei de assistir o filme depois que de ler o romance, mas acabei esquecendo LOL fim de semana já tenho programa pra fazer! hahaha
    Sobre o segundo livro ouvi várias divergências. Em blogs que confio nas resenhas, um diz que “O pesadelo” é pior que “O hipnotista”, outro diz que é melhor. Só lendo pra eu ter certeza qual está mais certo! 😀

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    • Oi Matheus,
      Eu também dei quatro estrelas para ele no Skoob, já para o filme eu dei 03 no Filmow, rsrs.
      Então, eu me incomodei um pouco com a questão do tempo porque sou muito detalhista quando se trata de thrillers.
      Quanto ao filme cuidado para não dormir, hahahaha… brincadeirinha. Mas você vai notar muuuuito diferença, muita mesmo. Quase outra história, mas é legal ver a versão do cinema, é a ligação entre os fatos é mais concisa.
      Eu não li muitas resenhas sobre O Pesadelo ainda. Mas vou esperar para ler e ver o que acho.
      Obrigado por comentar.

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  4. Adorei saber mais sobre o autor, ou melhor a dupla de autores que utiliza o pseudônimo Lars Kepler, eu não conhecia e voce deixou tudo muito bem explicado, parabéns! Sou suspeita pra falar de livros policiais, pois gosto muito da adrenalina que eles nos proporcionam, gostei muito da sua resenha, e mesmo com alguns pontos negativos, tenho certeza que é uma leitura muito prazerosa, parabéns pela resenha! Bjão!

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    • Oi Adriana,
      Fico feliz que tenha gostado da resenha e que ela tenha sido informativa para você. Eu também sou um aficionado por livros policiais. Hahahaha…
      Acho que você vai curtir o livro sim.
      Beijos

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  5. Eu tenho canções favoritas, mas a hipnose é um deles, além de esta recomendação, a nova série HBO O Hipnotizador é uma produção bem a pena ver, porque sua história cheia de enigams e distribuição de qualidade com a qual conta fazer uma história relevante no mundo da série. Eu recomendo-lo.

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  6. O que me impressionou sobre a história era o enredo, porque agora eu vejo “O Hipnotizador” série hipnose transmissão HBO e me tem encontrado produção muito interessante e excelente.

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    • Oi Vázquez,
      O que me chamou atenção quando li foi o enredo também. Mas acabei não curtindo algumas coisas.
      Vou procurar sobre essa série.
      Obrigado!

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