Uma Volta com o Cachorro, de Walter Mosley

Uma Volta Com o Cachorro

Sócrates ergueu-se bruscamente na cama, arregalando os olhos ao máximo. Teve medo de que a música que escutara no sonho fosse de fato o hino fúnebre daquele anjo vagaroso; medo de ter morrido durante a noite e que fosse tarde demais para compensar todo o sofrimento que causara em seus anos maus.
Walter Mosley, Uma Volta com o Cachorro, pág.13.

É sempre um prazer ler os livros da Coleção Negra. E este foi um dos motivos que me fizeram chegar ao livro. O outro foi o título, que é no mínimo curioso. Após finalizar a leitura, fui em busca de opiniões sobre o autor, e descobri que sua fama se constrói sobre o fato dele conceber romances que contêm uma boa dose de crítica social. Um detalhe que me agrada bastante.

Uma Volta com o Cachorro, de Walter Mosley, é o livro que continua a saga do anti-herói Sócrates Fortlow – tão barra-pesada quanto carismático –, apresentado ao público em Sempre em Desvantagem. O protagonista é um ex-presidiário negro que leva uma existência pobre na periferia de Los Angeles. Após passar 27 anos na prisão por duplo homicídio, Fortlow tenta reconstruir sua vida – emprega-se num supermercado, arranja namorada e cuida do filho dela. Mas como sua existência não permite que seja de outra forma, o protagonista se irrita com muita facilidade, e não consegue ver uma injustiça na vizinhança sem resolvê-la no braço – ou a bala. E nas imediações onde mora, esses convites à violência não faltam.

Mosley tem uma forma de escrever que envolve o leitor pelos detalhes. A forma como ele descreve as situações da época e o desenvolvimento dos personagens, é incrível, não deixando espaço para pontas soltas na trama. E, embora seja um romance policial, algumas características – Los Angeles em tempo de repressão e ódio racial – se tornam mais importantes para o enredo, que a própria ação. A história ainda ganha um humor e ironia típicos das classes sociais inferiores, o que, de certa forma, dá uma leveza a leitura.

A única coisa que me incomodou na leitura foi as súbitas mudanças de ambiente e situações, embora estas ações ficassem bem entrelaçadas durante a narrativa. E como todo bom escritor (americano), Mosley traz um romance, entre Sócrates e uma mulher que trabalha em num café. Nas cenas entre os dois e naquelas em que Sócrates está trabalhando, são onde é possível identificar as principais controvérsias morais das pessoas (e da sociedade como um todo).

E por fim, mas não menos importante, eis que lhes apresento Killer – um vira-lata sem as patas traseiras. Que, mesmo vivendo nessas condições, aprendeu a ser feliz e a trazer felicidade aos outros. As cenas entre Sócrates e Killer são as mais fofas e dignas de lágrimas. Sentimos até vontade de adotar um cãozinho! Enfim, esta é uma aventura incrível com um dos anti-heróis (que merece ser) mais admirados da literatura policial atual.

Walter Mosley também é autor de Uma Morte Em Vermelho (288 págs.), 47 (240 págs.) e Sempre Em Desvantagem (240 págs.), todos lançados pela Editora Record. E ainda O Diabo Vestia Azul (224 págs.) publicado pela Companhia das Letras; e Quem Matou Nola Payne? (240 págs.), pela Landscape.

Curiosidades:

  • Sempre em Desvantagem, primeiro livro da saga, foi vencedor do prêmio Anisfield Wolf, que desde 1934 premia títulos que discutem o racismo e a riqueza da diversidade humana. 

Sequência de publicação/Cronologia da série:

– Sempre Em Desvantagem (Always Outnumbered, Always Outgunned, 1997);
– Uma Volta Com o Cachorro (Walkin’ the Dog, 1999);
– The Right Mistake (2008).

Postagens relacionadas:

– Resenha: Caso Estranho, de Peter Robinson (Coleção Negra)

Ficha Técnica

Uma Volta Com o Cachorro

Título: Uma Volta com o Cachorro
Título original: Walkin’ the Dog
Autor(a): Walter Mosley
Editora: Record
Tradução: Miriam Campello
Edição: 2003 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1999
Páginas: 224
Sinopse: No memorável “Uma volta com o cachorro”, Walter Mosley continua a saga do anti-herói Sócrates Fortlow, apresentado ao público em “Sempre em desvantagem”. Nesse novo policial, os detalhes de época e o desenvolvimento dos personagens estão ainda mais acurados, numa mistura perfeita de ação, humor e diálogos rápidos entre os perfeitos protótipos de machos durões. “Uma volta com o cachorro” descortina uma Los Angeles em tempo de repressão e ódio racial. Mosley novamente põe frente a frente brancos e negros de diferentes classes sociais em situações que explicitam os preconceitos da sociedade americana.

Onde comprar:
Submarino | Saraiva | Cultura

2 comentários

  1. Não conhecia o autor e nem a obra e achei muito interessante.
    Adoro críticas sociais que se camuflam em romances e contos muitas vezes “inofensivos”. Só de ler a resenha já consegui identificar algumas relações com o que vemos hoje em nosso convívio social.
    A questão do cãozinho mesmo, com sua deficiência e tendo alguém que mesmo parecendo bruto (pelo menos foi o que pensei rs) pode ter a capacidade de dar amor.
    Fiquei bastante curiosa para ler.
    Beijos

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    • Esse detalhe que você colocou, Soraya, me chamou muita atenção também. Eu ficava imaginando: “Como um ‘mal-elemento’ pode cuidar de um cachorro que precisa de tanta atenção?” Nessa frase eu acabei subestimando tanto o Sócrates como cachorro. O livro é realmente revelador e envolvente. Críticas sociais são incríveis!
      Vale conferir! 😀
      Beijos!

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