O Jardim do Diabo, de Luis Fernando Veríssimo

O jardim do diabo

Me chame de Ismael e eu não atenderei. Meu nome é Estevão, ou coisa parecida. Como todos os homens, sou oitenta por cento água salgada, mas já desisti de puxar destas profundezas qualquer grande besta simbólica.
Luis Fernando Veríssimo, O Jardim do Diabo, pág. 7.

O Jardim do Diabo é o romance de estreia de Luis Fernando Veríssimo, um dos maiores escritores da Literatura Brasileira Contemporânea. Esse autor já havia sido consagrado por seus contos e crônicas, que alcançaram grande sucesso de público e da crítica literária.

Com seu humor inteligente e perícia ao captar a essência do suspense, Fernando Veríssimo produziu esse thriller alucinante, cujo enredo é marcado por uma trama complexa dotada de metalinguagem e ironia.

Esse romance policial, narrado em primeira pessoa, conta a história de Estevão, um escritor de romances policiais de quinta categoria, que recebe a visita inesperada de um inspetor de polícia chamado Macieira. Este investiga um estranho caso de homicídio ocorrido no bairro Jardim Paraíso, no qual o assassino assemelha-se bastante ao vilão do último livro de Estevão. Tal livro, intitulado Ritual Macabro, narra a mais recente aventura do detetive Conrad James, um ex-marinheiro e grande conquistador amoroso, que chega a uma cidade aterrorizada por um assassino que todos conhecem como “Grego”.

Nessa história, diferente de todas as outras protagonizadas por Conrad, o detetive alcança o Grego, mas pela primeira vez nos romances de Estevão, o vilão foge e não morre no final da história, dando a entender que voltará num próximo livro.

Quando recebe a visita do inspetor Macieira, Estevão já estava escrevendo a sequência para a história de Conrad. O inspetor, que se diz fã do escritor, logo o informa sobre a semelhança entre o assassino do livro e o assassino real. Estevão, de forma irônica, considera tal situação como simples coincidência, no entanto, começa a devanear acreditando que sua criação ultrapassara os limites da ficção e se materializara.

No novo livro de Estevão, Conrad, que sempre distinguira com clareza o bem do mal, passava agora por uma fase de hesitação, pois no último encontro com o Grego, apesar de ter motivos evidentes para isso, não conseguiu matá-lo.

De modo paralelo ao seu personagem, Estevão também passava por um momento de reflexão e incertezas, no qual revisitava seu próprio passado e questionava-se sobre o rumo que sua vida tinha tomado e sobre a integridade de sua família. Sendo o mais novo de sete irmãos, criados com rigidez de valores morais e severidade religiosa por uma mãe passiva e um pai inflexível; Estevão via-se agora numa situação de grande perturbação emocional e descrença quanto à “pureza” dos membros de sua família, pois havia descoberto que seu pai, pregador fervoroso da fé católica e dos bons costumes, tinha outra família.

Além disso, Estevão estava incerto com relação à postura política de seu outro herói, seu irmão mais velho Tomás, que era contrário aos valores do pai falso moralista e lutava contra o irrompimento de um golpe militar, entretanto, também não era incorruptível.

No decorrer do romance, as histórias de Estevão e de Conrad vão tornando-se cada vez mais parecidas, e ambos vão se aproximando da verdade a qual, por pura ingenuidade, desconheciam, e é justamente o que define a real natureza das pessoas: a ambivalência do ser humano.

Um detalhe interessante desse romance, e marca de Luis Fernando Veríssimo, é o uso da metalinguagem como recurso de autocrítica. Por meio dele, Veríssimo retrata a dificuldade do escritor, principalmente do autor de livros vendidos em bancas de jornal, de ter que se adequar aos moldes do mercado e não ter a liberdade de escrever fora desses padrões formulaicos impostos para a massa. A seguir, uma passagem que ilustra tal afirmação:

 _Eu estava dando sinais de ter sucumbido à pior tentação que pode afligir um escritor de quinta categoria.
_Qual?
_Subir de categoria. É fatal. Passamos a cuidar dos nossos pronomes e das nossas símiles. Quando menos se espera, estamos sendo metafóricos e obscuros. (…) Tive problemas com Ritual Macabro. A editora queria saber se a mulher-cachorro era mulher-cachorro mesmo ou uma figura de linguagem. Respondi que era realismo mágico e que não chateassem. Não quero nem pensar no que eles vão dizer do novo livro.” (p. 206)

Estevão, que se autoexilou do mundo, parte por sua restrição de mobilidade, vez que havia perdido o pé esquerdo num acidente, (o mesmo aconteceu ao inspetor Macieira), parte por sua perca de fé na humanidade, estava agora mais próximo de saber a verdade de sua própria história e de sua família. A Literatura era, portanto, sua única válvula de escape, por meio da qual podia refletir e organizar os acontecimentos de seu passado, mesmo que de forma inconsciente. A evolução da personalidade de Conrad, uma espécie de alter ego do seu criador, transpunha os limites da criação literária e misturava-se à evolução psicológica de Estevão, o qual apesar de ter fugido da catequese de seu pai, agora, porém, não escaparia da catequese imposta pelo seu personagem mais obscuro; o Grego, que tinha ainda uma importante lição final para ser transmitida antes de eliminar o detetive.

Luis Fernando Ver!ssimo
Luis Fernando Ver!ssimo

Por fim, esse romance é uma obra-prima de Luis Fernando Veríssimo, que nos proporciona uma aventura repleta de mistério e bom humor, além de provocar profundas reflexões sobre a natureza corruptível do ser humano e o lado sombrio que todos tentamos ocultar. O Jardim do Diabo traz ainda interessantes referências a cânones da Literatura Universal, tais como: Ilíada, Odisseia e Ulysses. Além disso, há referências a clássicos do Gênero Policial, como, por exemplo, a primeira frase do livro O Chefão (Mario Puzo, 1969), que se imortalizou no cinema como o clássico O Poderoso Chefão (Francis Ford Coppola, 1972): “Por trás de toda grande fortuna existe um crime.” (p. 88)

Ficha Técnica

O jardim do diaboTítulo: O Jardim do Diabo
Autor(a): Luis Fernando Veríssimo
Editora: Objetiva
Edição: 2005 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1988
Páginas: 180
Sinopse: Primeiro romance escrito por Luis Fernando Veríssimo, O Jardim do Diabo foi publicado em 1988 e é uma obra cultuada por seus leitores. Inteiramente revisto pelo autor, este thriller bem humorado e inteligente volta em nova edição, atendendo à expectativa dos seus muitos fãs. Uma mulher é encontrada esfaqueada em seu quarto – na parede, escritas com sangue da vítima, palavras em grego. É isso que o inspetor Macieira conta a Estevão, um escritor de histórias policiais, sempre assinadas com um pseudônimo americano. O inspetor Macieira vai atrás de Estevão por um detalhe – a cena do crime é exatamente igual à descrita por ele em seu último romance. O assassinato, no entanto, ocorreu antes de o livro ser lançado. A partir dessa visita, os dias monótonos de Estevão começam a ser invadidos por seus personagens. Vida e ficção passam então a disputar um jogo fascinante do qual o leitor é a grande testemunha.

Onde comprar:
Cultura | Estante Virtual | Saraiva | Submarino

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9 comentários

    • Olá Soraya!
      Foi uma grande surpresa para mim também ao saber que o Veríssimo escreveu romances. Foram poucas obras escritas nesse gênero, mas já contribuíram bastante para engrandecer ainda mais o legado literário desse autor. Recomendo muito a leitura dessa obra, que reúne suspense, drama, ação e erotismo com uma boa dose do humor habitual de Fernando Ver!ssimo!
      Beijos! 😀

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  1. Oi, Ademar!
    Fico super vergonhoso de vir comentar nas suas resenhas, porque sinto que não sei a altura rsrs
    Eu não sou muito amante da literatura do nosso país, sei que é ruim, mas não tenho conhecimento de todos. Pelo que eu li, esse livro parece ótimo, traz um quê de genialidade com perspicácia e um enredo que prende o leitor. Gosto disso. Li um livro chamado O Matador que se passava aqui em São Paulo e adorei. O Jardim do Diabo é uma possibilidade de leitura futura. Gostei muito da resenha, perfeita 🙂
    Beijos

    Lucas/Descobrindo Livros

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    • Olá Lucas ^_^
      Sou uma dos novos colaboradores do Cooltural, a convite do querido Ademar.
      Considero o Luis Fernando Veríssimo um dos gênios da Literatura Brasileira, admiro muito a espontaneidade que ele consegue imprimir nas suas histórias e a forte veia irônica dele, marca principal de seus livros. Eu já tinha lido “As mentiras que os homens contam” e “Comédias para se ler na escola”, ambos antologias de crônicas, e me diverti bastante com tais histórias. Agora, ao ler esse romance policial, fiquei ainda mais surpreendida com a versatilidade do autor, como ele conseguiu manter a qualidade de seu trabalho em gêneros tão distintos, pois apesar de ele inserir certos efeitos humorísticos nessa história, a mesma não se desvia da tragédia.
      Vale ressaltar que muitos detalhes ficaram de fora da resenha, devido à grandeza dessa obra.
      Ainda não tinha lido/ ouvido falar sobre esse livro “O Matador”, mas vou procurar informações sobre ele. Eu gosto muito de Literatura Brasileira, acho que existem diversas opções para os leitores e vários escritores brasileiros talentosos de épocas passadas e da contemporaneidade que valem muito a pena serem lidos, Luis Fernando Veríssimo com certeza é um deles!
      Beijos 😀

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  2. Nessa, O matador, da Patrícia Melo traz a “subversividade” tanto na linguagem como no tema. Literatura Brasileira Contemporânea de primeira, com a escrita feminina e esses temas “marginais”. Recomendo a leitura e também o filme, que ficou como o nome O homem do ano (olha só, tenho visto que tu escreve sobre cinema aqui também, né?) #ficadica

    Recomendo, ainda, o livro de contos dela: Escrevendo no escuro. Muito bom! Rsrs.

    P.S.: Não sei se tu lembra, mas a Lívia e a Fabíola analisaram um conto desse livro naquele evento da UESPI, ano passado.

    P.P.S.: Estou virando leitora do blog de vocês. Rsrs.

    P.P.P.S.: Não conheço o Luis Fernando romancista. Aliás, nem mesmo sabia que ele escreveu romance. Obrigada pela informação. xD

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    • Olá Geisi, *__*
      que bom receber sua visita aqui no blog!
      Desculpe a demora em responder seu comentário, foi porque deu um bug aqui e só consigo postar como um novo comentário e não como resposta.
      Adorei as sugestões, assim que puder, vou tentar ler “O matador” e “Escrevendo no escuro”, pois fiquei ainda mais tentada a empreender essas leituras! Os temas parecem muito atrativos para mim. Também anotei “O homem do ano” na minha listinha de filmes, quem sabe posso fazer uma resenha dele para o blog… (só não posso garantir que seja em breve rsrs)

      R.P.S.: Lembro sim, e fiquei muito curiosa para ler esse conto. É aquele conto sobre uma adolescente que, aos treze anos, deu uma bofetada no rosto da doméstica que trabalhava na sua casa, mas depois de anos fica sofrendo e se sentindo culpada por essa atitude, não é? (Adorei, aceito que me emprestem o livro rsrs)

      R.P.P.S.: Que ótimo, volte sempre! Valorizo muito sugestões e críticas! ^_^

      R.P.P.P.S.: Também foi uma surpresa para mim, conhecer o Luis Fernando Veríssimo romancista, talvez ele tenha herdado essa veia romancista do pai, ou talvez tenha sido uma homenagem, quem sabe um desafio intelectual, do filho ao pai? Rsrs
      Encontrei esse romance por acaso na Biblioteca da UFPI, achei o título muito interessante e o trouxe para casa. Foi meu último livro a pegar emprestado daquela biblioteca, um dos privilégios que mais me fazem falta da minha vida de graduanda. =/ [Reminiscências de uma estudante universitária… Rsrs]

      Beijos! 😀

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  3. Boa tarde, Sigo o Blog de vocês já tem um tempinho. Recentemente ilustrei um livro infantil do meu pai que está sendo vendido na Saraiva e na Editora Aped. O Livro é “O País dos Sonhos” e o autor é Floriano Alves Borba  (meu pai). Se tiverem curiosidade comprem o livro ou se me derem um endereço eu mando um livro pra vocês, estou ajudando a divulgar o trabalho de qualidade que está sendo feito. O livro ainda não foi lançado, mas já está vendendo. É um autor novo, mas merece ser conhecido. Seu melhor livro para adultos é “O dançarino”.   Grata pela atenção,   Glória Rosalba Borba     

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    • Olá Rosalba,
      Fiquei muito interessada em ler “O País dos Sonhos”, pois adoro Literatura infanto-juvenil. Ainda não conheço as obras de Floriano Borba, mas acho muito importante apostar em novos talentos brasileiros. Vou procurar mais informações sobre o autor e pode contar conosco para a divulgação de seu trabalho. Nossa principal intenção, por meio do Cooltural, é incentivar o hábito de ler, e valorizamos bastante a leitura de escritores brasileiros.
      Obrigada pela visita, esperamos que volte! 😀

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