Febre do Rato (2011)

padrao

Que eu desorganizando posso me organizar
Chico Science, Da Lama ao Caos

O Mangue Beat é um movimento de contracultura que surgiu na década de 90 em Recife, como forma de denunciar o descaso econômico do mangue e a desigualdade social da capital pernambucana. O movimento fortaleceu-se através do músico Chico Science, famoso pela mistura musical do maracatu com hip hop, funk e música eletrônica. A agitação causada pelo Mangue Beat foi tão grande que logo contaminou as artes plásticas, a moda e até mesmo o cinema.

O diretor Cláudio Assis é sem dúvida um dos maiores representantes, não somente do cinema Mangue Beat, como também do próprio cinema pernambucano. Sua carreira cinematográfica é marcada por obras cheias de nudez explícita, palavrões e histórias cruas. Em Febre do Rato, seu último longa, temos todos esses elementos aliados a uma poesia suja e marginal.

A trama de Febre do Rato gira em torno de Zizo (Irandhir Santos), poeta inconformado e de posição anarquista que diante de sua situação decide fundar um tablóide chamado “Febre do Rato”, expressão típica do Recife que indica alguém que está incontrolável, ou melhor, “arretado”. A vida de Zizo é uma simples rotina de álcool, drogas e sexo (com velhas, rs). Até que Eneida (Nanda Costa), nome que remete a uma personagem grega que partiu ao mar para construir uma nova cidade, surge para “desorganizar” a vida do poeta.

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A indiferença de Eneida com relação à Zizo é o estopim da sua condição apenas poética. Já que sua amada não o corresponde, ele irá em busca de uma revolução, cativando todos ao seu redor. Nessa parte temos um dos pontos mais fortes do filme, que é a luta política, agora tão presente na vida dos brasileiros.

Outro elemento forte do filme e que é característico do diretor é a sobreposição de camadas. Aqui cito como exemplo a cena em que Zizo está em um barco com Eneida e ela diz que precisa urinar. Sem pudor algum Zizo pede para vê-la fazendo isso. A impressão é que temos outras pessoas próximas a eles vendo tal ato, quando na verdade se trata apenas de um apanhado de cena.

Screen Febre do Rato

Em outro filme do mesmo diretor, Amarelo Manga (2003), temos escancarado na capa: “O ser humano é estômago e sexo”, constatação que serve também para Febre do Rato. E daí vem a maioria das críticas negativas com relação ao filme, já que suas obras chocam pela nudez e pelos palavrões. Aliás, o próprio cinema brasileiro ainda é tachado por essa mesclagem. Com relação a essa crítica, o próprio diretor admite: “meu filme não é novela das oito”.

Febre do Rato ganhou oito prêmios no 4º Festival de Paulínia (2011), nas categorias de melhor filme de ficção, ator (Irandhyr Santos), atriz (Nanda Costa), fotografia (Walter Carvalho), montagem (Karen Harley), direção de arte (Renata Pinheiro), trilha sonora (Jorge Du Peixe) e prêmio da crítica. Chegou inclusive a ganhar o prêmio de Melhor Longa-Metragem na 14ª edição do Festival de Cinema Havana, importante festival dos Estados Unidos.

O que me encanta nos filmes do Cláudio Assis, até mesmo nos filmes de Karim Aïnouz (Madame Satã, 2002), é o compromisso do cinema com sua terra de origem. Não interessa se o filme faz sucesso ou não, se choca ou não. Já que o cinema não pode resolver as mazelas diárias, ele pode apontá-las. Ou se vai à luta ou se rasteja, como diria o diretor.

Curiosidades:

  • O projeto de Febre do Rato nasceu em 2003, durante as filmagens de Amarelo Manga e ganhou forma através de uma parceria entre o diretor, o roteirista Hilton Lacerda e a produtora Parabólica Brasil.
  • Inicialmente quem interpretaria Eneida seria Maria Flor, mas a atriz teve que deixar o papel devido a problemas de agenda. Em seu lugar foi contratada Nanda Costa, que havia trabalhado com o diretor de fotografia Walter Carvalho em Sonhos Roubados (2009).
  • As filmagens de uma cena de nudez no meio da rua, em Recife, foram interrompidas por policiais e o episódio acabou no jornal. Em entrevista, o diretor chegou a afirmar que as cenas da abordagem seriam usadas no filme.

Fonte das curiosidades: Adoro Cinema

Ficha Técnica

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Título: Febre do Rato
Direção: Cláudio Assis
Roteiro: Hilton Lacerda
Gênero: Drama
País: Brasil
Ano: 2011
Duração: 110 min.
Sinopse: Zizo (Irandhir Santos) é um poeta inconformado e anarquista, que banca a publicação de seu tablóide. Em seu mundo próprio, onde o sexo é algo tão corriqueiro quanto fumar maconha, ele conhece Eneida (Nanda Costa). Zizo logo sente um forte desejo por Eneida, mas, apesar de seus constantes pedidos, ela se recusa a ter relações sexuais com ele. Isto transtorna a vida do poeta, que passa a sentir falta de algo que jamais teve.

Trailer

7 comentários

    • Olá Carlos Alberto,

      Realmente esse filme é ótimo. Aquele tipo de filme que dá orgulho do cinema nacional 😀

      Obrigado pelo comentário! Abraço

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  1. Ainda não assisti, mas adorei o post. Quantos filmes bons a gente nem tem ideia que existem, né?
    Adoro filmes mas me considero não muito informada sobre eles. Sempre que tiver dicas interessantes, traga pra gente, viu??
    Porque eu já sou fã do blog rs
    Beijos 🙂

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    • Olá Soraya,

      De fato, a cada dia que passa percebo o quanto temos boas produções brasileiras. Os filmes do Cláudio Assis são uma boa. Dele assisti esse que resenhei e Baixo das Bestas. Dizem que Amarelo Manga é excelente, eu nunca vi, mas pelo que vi do diretor ele se mostrou bastante sólido na qualidade, então recomendo pra você Soraya. Recomendo também “Madame Satã” ou “O Céu de Suely”, ambos do Karim Aïnouz.

      Tentarei na medida do possível trazer essas preciosidades do cinema nacional aqui no Cooltural.

      E que bom que curte o nosso blog. O nosso esforço é para que ele se torne cada dia mais interessante, rs.
      Beijos Soraya 🙂

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  2. Cara, quando eu vi esse film pirei! Acho que foi o trabalho mais maduro do Cláudio. Gostos de todos os filme, mas me identifiquei mais com esse, acho que pelo da fato do cara também ser poeta, não sei. Sabe, eu assisti esse filme no cinema São Luiz, aqui em Recife (o último e único cinema do centro do Recife, sem ser em um shopping) e quando vi a cena em que um barco passa pele maré mostrando o cinema, cara, eu me senti dentro do filme (foi melhor que 3D!). Esse filme é um Romeu e Julieta underground, contando a história de dois amanantes que nunca se tocam intimamente. Esse é o Cláudio Assis, esse é meu Hellcife. Muito bom teu texto, meu velho. Parabéns!

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    • Ah, quando eu vi esse filme me bateu uma inspiração. O fato do protagonista ser um poeta também contribuiu para que eu gostasse do filme.Gosto de poesia, embora não escreva. Tenho uma certa predileção por essa poesia “suja” e por vezes, erótica.

      Inveja de você, rs. Sua sensação no Cinema deve ter sido mesmo maravilhosa.

      Não tinha observado esse detalhe. Quando vi seu comentário fiquei recapitulando o filme mentalmente, e realmente o casal de Febre do Rato é um Romeu & Julieta underground. Cláudio Assis fez uma boa sacada com isso, pois, embora eles não tenha se tocado, mostraram uma relação intensa pautada em pontos que considero mais importantes num relacionamento, como a sinceridade, que chega a ser engraçada.

      Obrigado pelo comentário e volte sempre por aqui. Adoro o cinema da sua terra natal. Abraço!

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