A Queda dos Reinos, de Morgan Rhodes

A Queda dos Reinos

 […] Eva era uma vigilante, seres que vivem além deste mundo em um enclave protegido chamado Santuário. Os vigilantes, como devem ter ouvido nas lendas antigas, eram os protetores da Tétrade, quatro cristais que continham a essência mais verdadeira e mais pura dos elementia. Obsidiana para a terra, âmbar para o fogo, água-marinha para a água e selenita para o ar. A magia podia ser vista dentro dos cristais, rodopiando, se alguém olhasse bem de perto.
Morgan Rhodes, A Queda dos Reinos, pág. 209-10.

Com o sucesso estrondoso da saga As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, o subgênero High Fantasy alavancou-se ainda mais entre o público jovem-adulto. O gênero tem como principal precursor a obra de Tolkien, no entanto, Martin fez com seu gênero o mesmo que Stieg Larsson fez com a literatura policial sueca. Trazendo a tona novos autores e possibilitando o lançamento de obras na mesma linha. Talvez a série da canadense Morgan Rhodes, iniciada com A Queda dos Reinos, não seja um representante maciço desse subgênero, mas pende mais para este lado do que para a fantasia infanto-juvenil.

Ainda na tentativa de encaixar A Queda dos Reinos em um subgênero da fantasia, penso que a mais adequada seria a fantasia romântica, que em geral, é marcada por obras que narram histórias de amor com elementos fantásticos, mas sem foco principal na magia ou no universo em si, mas no drama das personagens. Dito isso, devo falar um pouco da trama para justificar minha classificação.

Mapa - A Queda dos ReinosA trama se passa em um continente chamado Mítica, que é formado por três reinos – Limeros, Paelsia e Auranos. Cada reino tem suas particularidades e representa uma classe social específica, numa espécie de analogia à nossa hierarquia social. Auranos representa a alta sociedade com castelos cheios de ouros e riquezas, muitos recursos naturais e fartura para todo seu povo; Limeros é um reino que pode ser classificado como representante da classe média, não passa grandes necessidades, mas não possui abundâncias, além de ser castigado por um inverno rigoroso e constante; já Paelsia é o representante da classe mais baixa, um reino em extrema pobreza, cuja única função é produzir vinhos para exportar para os demais e que nem sequer possui um rei, apenas um chefe que praticamente não se preocupa com os problemas sociais do seu povo.

Em meio a esses reinos conhecemos os quatro protagonistas que passamos a acompanhar na narrativa de Morgan. Cleiona – ou Cleo – é a princesa de Auranos, que se mete em uma confusão ao ir com seu noivo para Pealsia, onde uma briga injustificada termina na morte do filho de uma comerciante local. Logo depois ela se vê diante da missão de recuperar artefatos mágicos para tentar salvar sua irmã da morte. Jonas é o irmão do jovem morto na confusão com o noivo de Cleo, que revoltado com a morte do irmão é movido por um sentimento de vingança contra seus opressores. Lucia é a princesa de Limeros, ainda que adotada, é também uma feiticeira poderosa em fase de descobrimento dos seus poderes. E por fim, Magnus, o príncipe e herdeiro do trono de Limeros, um jovem que cresceu à sombra de seu pai e sob a opressão moral do mesmo.

Os destinos dos quatro jovens se cruzam em todos os pontos da trama e eles devem lutar pelos seus planos, que em alguns casos geram um conflito de interesses, onde o sucesso de um requer o fracasso do outro. Para completar, os reinos estão em conflito, os povos menos abastados querem tomar Auranos, numa tentativa de dividi-lo igualitariamente.

Além desse pano de fundo, a série tem uma mitologia própria, bem simplificada por sinal, mas que envolve um contexto muito complexo. Isso porque Morgan não se utiliza de muitos elementos comuns ao gênero, ou seja, não há aquela diversidade de raças e seres fantásticos que costumamos ver em livros de fantasia. Entres os seres com poderes sobrenaturais estão as bruxas, as feiticeiras e os vigilantes. No entanto, a história que rege esse contexto mágico é complexa, com várias reviravoltas e descobertas que vão sendo reveladas aos poucos ao longo da narrativa.

Não vou me ater nesse ponto da mitologia por um motivo: esse não é o foco principal, como eu já havia dito. O livro tem como principal função abordar vários temas relacionados à vida e ao amadurecimento dos jovens, alguns deles até fortes demais. E é por isso que não dá pra dizer que o livro tem uma temática infanto-juvenil. A autora discorre de forma bem direta sobre a morte, incesto, casamentos arranjados, vingança, traição, relações entre pais e filhos, além de tratar também amores impossíveis, ponto mais comum entre as personagens.

Rebel SpringEntretanto, mesmo sendo um livro que trate de temas mais adultos, a escrita da autora ainda é marcada por um ar pueril característico da fantasia infanto-juvenil, algo que pode desagradar um pouco os fãs mais exigentes da fantasia. Essa marca na narrativa da autora pode ser atribuída ao fato de esta ser sua estreia, sem falar que o romance possui ainda um objetivo mais introdutório. Como a escrita é algo que evolui com a prática, pode-se dizer então que a canadense tem um futuro promissor. Não obstante, a saga já ganhou um segundo volume, Rebel Spring (Primavera Rebelde em tradução literal) que será lançado lá fora no final deste ano.

Sendo esta uma das apostas da editora Seguinte, selo jovem da Companhia das Letras, posso afirmar que ainda podemos esperar muitas novidades. O livro já vale a pena só pelas abordagens que traz, permitindo boas discussões sobre vários temas interessantes, no mais, vale também para se divertir com uma bela história de amor, cheia de magia, mas sem o ar piegas de alguns contos de fadas.

Sequência de publicação/Cronologia da série:

  1. A Queda dos Reinos (Falling Kingdoms, 2012)
  2. Rebel Spring (2013)

Postagens relacionadas:

– Resenha: Os Homens que Não Amavam as Mulheres, de Stieg Larsson

Ficha Técnica

A Queda dos ReinosTítulo: A Queda dos Reinos
Título original: Falling Kingdoms
Série: Queda dos Reinos
Autor(a): Morgan Rhodes
Editora: Seguinte
Edição: 2013 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2012
Páginas: 400
Sinopse: Numa terra em que a magia havia sido esquecida e a paz reinara durante séculos, uma agitação perigosa ganha forma quando três reinos começam a lutar pelo poder. Entre traições, negociações e batalhas, quatro jovens terão seus destinos entrelaçados para sempre: Cleo, a filha mais nova do rei de Auranos; Magnus, o primogênito do rei de Limeros; Jonas, um camponês rebelde de Paelsia; e Lucia, uma garota adotada pela família real de Limeros que busca a verdade sobre seu passado. Em A queda dos reinos, Morgan Rhodes constrói uma mitologia complexa e fascinante, que mistura amor proibido, intrigas políticas e profecias milenares. Narrado pelos pontos de vista dos quatro protagonistas, este é o primeiro volume da série.

Onde comprar:
SubmarinoEstante Virtual | Saraiva | Cultura

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10 comentários

    • Oi Joe,
      Nossa, quando tempo você não comentava por aqui, fiquei super feliz com sua visita.
      Então, eu estou me preparando para ler As Crônicas de Gelo e Fogo, mas antes eu quero ler O Nome do Vento, do Patrick Rothfuss.
      Essa série da Morghan é bem mais levinha que os livros do George Martin, acredito eu. Mas ela tem algumas cenas bem fortes e cruas demais.

      Eu que agradeço mais uma vez a visita e o comentário!
      Abraços

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  1. Oi, Ademar. De novo com uma resenha tão bem feita.
    Eu adorei o tema do livro, claro, bruxas e seres fantasticos me atraem mt.
    Não me incomodo com a narração mais voltada pro juvenil, até pq não me dou tão bem com narrativas tão elaboradas rs Achei legal a intro sobre isso de gêneros, eu to ficando cada vez mais confuso com isso, preciso anotar o que é genero do que, sub-genero e tal hehe Adorei a resenha, minha vontade de ler só aumentou, e com certeza será um dos futuros a serem lidos. Amo essa pesquisa que você faz antes de falar sobre o livro, parabéns.
    Beijos
    Descobrindo Livros

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    • Oi Lucas,
      Que bom que gostou da resenha, eu adoro fazer as pesquisas e fico feliz que você goste disso.
      Em relação a narrativa infanto-juvenil eu também não me incomodo muito não, na verdade eu até gosto, porque ela meio que agiliza a leitura e também porque os livros que mais gosto são assim. Mas eu mencionei isso porque acho que fãs que estão acostumados com O Senhor dos Anéis e As Crônicas de Gelo e Fogo, por exemplo, podem achar ruim.
      Mas leia sim e depois de diga o que achou.
      Beijos!

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  2. Apesar de eu amar suas resenhas porque você escreve com maestria, esse tipo de livro definitivamente não faz meu estilo…
    Um dia pode ser que eu me anime a tentar, mas hoje, com tantas coisas interessantes para ler, ele não iria pra minha lista de desejos literários rs
    Beijos 🙂

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    • Oi Soraya,
      Fico muito feliz que goste dos meus textos, viu?
      Em relação ao gênero, cada pessoa tem um que gosta mais, né? Eu gosto muito da fantasia pois foi através dele que comentei a gostar de ler.
      Eu estou nessa mesma situação, com tantos livros para ler, eu acabo não entrando muito em terrenos desconhecidos.
      Beijão! 😀

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    • Oi Camis,
      Eis o dilema de iniciar novas séries, né? Nunca se sabe onde tudo vai dar, são tantas séries e algumas com tantos livros que é bem difícil dar conta.
      Esse livro é bem legal, quando concluir algumas das séries em andamento, tente dar um chance a essa.
      Beijos!

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