Helena Gold, de Walter Moreira Santos

Helena Gold

 […] E agora ela amava a liberdade. Do corpo, da ação, do pensamento. Era o que lhe havia restado, o desejo pela liberdade e o Grande Desconhecido. Dirigir até a estrada acabar – em algum ponto tudo acaba […].
Walter Moreira Santos, Helena Gold, pág. 21.

É sempre bom quando recebemos um presente inesperado, não é verdade? Principalmente quando é um livro que não conhecemos, mas que tem tudo a ver com a gente. Foi isso que aconteceu com Helena Gold, de Walter Moreira Santos. Uma das pessoas que mais amo resolveu me fazer uma visitinha e me trouxe um exemplar, justificando que ao ver o livro e ler a sinopse acreditou que seria um ótimo presente, e realmente foi. Por conta disso, o livro subiu para o topo da minha lista de leitura.

Helena Gold é uma mulher que está em fuga, pois acredita que matou o próprio marido. Narrado em primeira pessoa, Helena nos mostra como sua vida se tornou um fracasso total. Assim, dizemos apenas que ela será uma eterna “ex”: ex-criança abusada sexualmente, ex-esposa espancada com frequência, ex-maníaca-depressiva, ex-jornalista, ex-escritora. A única coisa que ela tem certeza é que a possibilidade de ter matado o marido faz dela a principal responsável por sua filha de seis anos, que está morando com uma amiga. Com isso, ela corre desesperadamente ao encontro da filha, para provar para si mesma que ainda é capaz de amar e ser amada.

O que Helena não contava era que seria capaz de amar outra pessoa que não sua própria filha. Mas numa parada num posto de gasolina, ela conhece um jovem por quem se sente atraída (e que também é atraído por ela). Como esse é um sentimento novo para ela, todas as suas atitudes são extremistas, mas ainda assim, regadas a mútuo sentimentalismo. Por fim, podemos apresentar Helena Gold como “uma mulher em frangalhos, uma brasileira de classe-média que assume a condição de personagem e narra seu sofrimento como um filme”.

O livro é dividido em duas partes: a primeira, Helena Gold, é onde somos apresentados à personagem, na forma de um romance. A maioria das cenas se passa na estrada e no posto de gasolina, onde também funciona uma pousada. Já a segunda parte, O Doce Blues da Salamandra, é a história da mesma personagem contada em forma de peça. É nesse momento em que conhecemos como tudo começou, qual o estopim para a decadência emocional da personagem.

Se identificar com Helena é quase inevitável, pois ela passou por boa parte dos sofrimentos que levam a decadência humana. O livro, embora com alguns momentos sensuais e divertidos, é muito sensível e triste. Após terminar a leitura fiquei algum tempo deprimido, pois sei que nesse Brasil existem várias Helenas Golds espalhadas.

A peça O Doce Blues da Salamandra foi encenada no teatro de Santa Isabel, em Recife – PE, em fevereiro de 2003. A Helena foi interpretada por Isa Fernandes; e o jovem do posto por Pascoal Filizola. O livro é pequeno, a leitura é fluida, mas isso não significa que a Helena é esquecível. É um tipo de leitura que podemos fazer entre um livro e outro, sem problemas. Walter Moreira Santos, que é também autor de O Ciclista, é um mestre em descrever essa degradação humana. Super indicado!

Curiosidades:

  • O Doce Blues da Salamandra foi o texto teatral que venceu ao Prêmio Elpídio Câmara do Conselho Municipal de Cultura da Cidade do Recife em 2000.
  • O livro foi transformado em curta-metragem em 2002, dirigido por Yonara Anizewski.
  • O Doce Blues da Salamandra foi originalmente escrito para Renata Sorrah.

Postagens relacionadas:

– Resenha: O Ciclista, de Walther Moreira Santos

Ficha Técnica

Helena GoldTítulo: Helena Gold
Título Secundário: O Doce Blues da Salamandra
Autor(a): Walter Moreira Santos
Editora: Geração Editorial
Edição: 2003 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2003
Páginas: 100
Sinopse: Uma mulher está em fuga, tentando chegar – quem sabe – a Machu Picchu. Ex-criança abusada sexualmente, ex-esposa espancada com freqüência, ex-maníaca-depressiva, ex-jornalista, ex-escritora, ela só tem duas certezas quanto à sua identidade: é mãe de uma menina de seis anos e talvez seja assassina de seu marido. Trata-se da trajetória de uma mulher em frangalhos, uma brasileira de classe-média que assume a condição de personagem e narra seu sofrimento como um filme. Ou como um show.

Onde comprar:
Cultura | Saraiva | Siciliano

4 comentários

  1. Já comentei no Face, mas não podia deixar de ler na íntegra a resenha aqui, né?
    Amei o livro! Acho que é MUITO no estilo que me agrada, e o que eu AMO no blog de vocês é a diversidade.
    Acho ótimo ter lançamentos, mas não é só disso que vive a literatura.
    Por isso sou uma super fã do Cooltural!
    Beijos

    Curtir

    • Quem bom que veio conferir a resenha completa, Soraya.
      E concordamos com você. A literatura é muito rica para limitarmos aos lançamentos. ^^
      É sempre bom quando lemos algum livro que inspirou um dos nossos autores atuais a escrever seus belos romances.
      Espero que você goste mesmo do livro.
      *–* Somos seus fãs também, Soraya, bem como do Meu Meio Devaneio! 🙂
      Beijos

      Curtir

    • Oi, Camila!
      Obrigado pelo elogio. ^^
      É uma pena que não seja o tipo de livro que lhe agrade, mas pelo menos agora você já o conhece e poderá indicar para alguém que você conheça e imagine que irá curtir.
      Beijos!

      Curtir

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s