O Diário de Helga, de Helga Weiss

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Helga Weiss foi uma das 100 sobreviventes de cerca de 15.000 crianças que foram enviadas ao campo de concentração em Terezín, na República Tcheca. Por estímulo do pai, a menina começou a escrever num diário aos 8 anos de idade, pouco tempo antes da ocupação nazista em seu país. Dessa forma, Helga registrou em seu diário os acontecimentos e as barbáries vistas e vividas em sua passagem por campos de extermínio.

Tais relatos foram reunidos pelo tradutor norte-americano Neil Bermel e transformados no livro O Diário de Helga, publicado no Brasil pela editora Intrínseca em 2013.

Além dos cadernos com as memórias da infância e adolescência da autora, a obra contém ainda notas do organizador, mapas, um prefácio escrito por Helga, um glossário e dois encartes; o primeiro traz algumas fotos de Helga e sua família antes da guerra, o segundo inclui os desenhos da menina retratando a triste realidade do Holocausto e o sonho de voltar para sua terra natal, Praga.

Ao final do livro, também podemos ler uma entrevista feita pelo tradutor a Helga Weiss já aos 82 anos, em dezembro de 2011. Nessa conversa com Neil Bermel, Helga contou um pouco mais sobre sua vida e a relação com seus familiares no tempo anterior à deportação dos judeus, além disso, esclareceu suas opiniões sobre as experiências dessa dolorosa época e como seu diário se modificou com o tempo. Também revelou as dificuldades da sua volta ao lar, a retomada dos estudos e a readaptação da sociedade pós-guerra.

Como você descreveria a contribuição de seu diário? Por que deveríamos ler mais um relato sobre o Holocausto? – Neil Bermel

Principalmente por ser verdadeiro. Coloquei nele meus sentimentos, esses sentimentos são intensos, comoventes e principalmente verdadeiros. E, talvez por ser narrado naquela forma um pouco infantil, é acessível, expressivo, e creio que ajudará as pessoas a entender aqueles tempos.” – Helga Weiss (p.221)

O Diário de Helga é dividido em três capítulos; o primeiro narra a infância de Helga em sua cidade Natal, Praga, e a gradativa instauração do regime nazista na região em que nascera. A segunda parte da obra mostra a sofrida rotina dos judeus transportados para Terezín. Esse foi o campo de concentração em que Helga e sua família passaram a maior parte do tempo durante a Segunda Guerra Mundial. O último capítulo da narrativa, por sua vez, abrange a passagem de Helga por mais três campos de extermínio de judeus; Auschwitz, Freiberg e Mauthausen, além de mostrar seu retorno a Praga.

Helga Weiss family
A pequena Helga com os pais, Irena e Otto, e a avó paterna, Sophie, antes de 1939.

Filha de um bancário e mãe costureira, Helga tinha uma vida confortável em Praga, com sua família e amigos, contudo aos poucos começaram a espalhar-se os sinais da segregação racial entre judeus e “arianos”. Inicialmente, todos os judeus tiveram que costurar estrelas de Davi amarelas nas suas roupas para saírem às ruas. Em pouco tempo, começaram os “transportes” de judeus para os campos de trabalho forçado, logo Helga e sua família seriam deportadas. No primeiro capítulo do livro, a narrativa se torna um pouco lenta e especulativa, pois as pessoas em geral ainda não tinham se dado conta da monstruosidade que estava surgindo com aquele novo sistema político.

A permanência de Helga e seus familiares em Terezín, contada na segunda parte do livro, corresponde ao maior espaço temporal da vivência da menina durante a guerra. Foi nesse período que Helga e seus pais conheceram o lado mais perverso do nazismo; passaram fome, sofreram contínuas humilhações, agressões físicas e psicológicas que deixaram marcas indeléveis na memória de Helga e de todos os que foram prisioneiros do regime do Terceiro Reich. Em meio a todo esse cenário aterrador, Helga ainda pode conhecer o amor, ela apaixonou-se por Ota e os dois ainda viveram um romance escondido, entretanto, ele não sobreviveu até o final da guerra, provavelmente foi morto numa câmara de gás.

Pedidos de aniversário de Helga: um enorme bolo de aniversário imaginário, e seu maior desejo, voltar para Praga.
Pedidos de aniversário de Helga: um enorme bolo de aniversário imaginário, e seu maior desejo, voltar para Praga.

O momento mais chocante da história de Helga é narrado no último capítulo da obra, quando a menina e sua mãe foram deportadas a Auschwitz, o lugar onde eram cometidas as maiores crueldades na época do Holocausto. Além da fome, das doenças, do frio e da sujeira aos quais os prisioneiros estavam sempre expostos, a constante ameaça de serem levados à câmara de gás torturava a todos. Os oficiais alemães faziam seleções com frequência e aqueles que não eram considerados aptos para o trabalho iam direto para a câmara de extermínio em massa. Helga e sua mãe ainda foram transportadas para mais dois campos de concentração: Freiberg e Mauthausen. Cada vez mais próximo o fim da guerra, já quase perdendo toda a esperança, parecia uma ilusão para a jovem tcheca sobreviver e recuperar sua liberdade. Até hoje, Helga Weiss, uma reconhecida artista plástica, relembra essa fase de sua vida com muita dor.

Crianças polonesas chegaram a Terezín numa condição deplorável, em seguida foram enviadas a Auschwitz. Lá foram encaminhadas para o banho, porém morreram numa câmara de gás.
Crianças polonesas chegaram a Terezín numa condição deplorável, em seguida foram enviadas a Auschwitz. Lá foram encaminhadas para o banho, porém morreram numa câmara de gás.

Nesta obra o estilo narrativo predominante é o “presente histórico”, ou seja, os acontecimentos vão sendo narrados como se estivessem ocorrendo naquele momento. Esse recurso tende a causar grande impacto no leitor, pois causa a sensação de estarmos acompanhando os pensamentos da protagonista em tempo real, transmitindo, assim, a angústia da personagem com mais densidade.

O problema é que tal estilo empregado no início da narrativa soa artificial vindo de uma criança de nove anos de idade, devido à maturidade exigida para esse tipo de escrita. Apesar de tomarmos conhecimento de que os escritos de Helga sofreram diversas alterações e edições ao longo dos anos, especialmente a primeira parte do livro acaba assumindo por vezes um tom forçado, o que compromete um pouco a naturalidade da história.

Conforme a própria autora afirma em seu prefácio, suas anotações foram acumuladas de forma um pouco caótica, com uma escrita infantil e o estilo prolixo, por isso a necessidade de revisões e uma harmonização das partes de toda a obra. No entanto, Helga não aprovava intervenções editoriais profissionais, pois temia que houvesse a distorção ou o falseamento dos fatos.

Helga Weiss
Helga Weiss

“Que os leitores tratem este diário de forma tolerante e o aceitem pelo que ele é. (…) Minha prioridade, o mais fundamental para mim, eram os fatos e as experiências, e disso eu me recordo com bastante precisão até hoje.” (p. 25), Helga, acima de tudo, nos presenteia com sua comovente história, um relato honesto de uma criança que presenciou a selvageria da perseguição judaica pelos seguidores da ideologia nazista, uma época que jamais deve ser esquecida.

Curiosidades:

  • A cbn.com (The Christian Broadcasting Network) exibiu um especial sobre a vida de Helga Weiss, que pode ser assistido => aqui.

Ficha Técnica

01Capa_ODiarioDeHelga_WEBTítulo: O Diário de Helga
Título original: Helga’s Diary
Autor(a): Helga Weiss
Editora: Intrínseca
Tradução: George Schlesinger
Edição: 2013
Ano da obra / Copyright: 2013
Páginas: 256
Sinopse: Helga Weiss narra em seu diário todo o calvário infligido aos judeus pelo avanço da campanha nazista pela Europa, desde a segregação imposta ainda em Praga, à desumana rotina de privações no campo de concentração de Terezín e sua peregrinação ao lado da mãe por campos de extermínio como Auschwitz, de onde escapou por pouco da câmara de gás. Seus desenhos e anotações, que abrangem o período de 1939 a 1945, retratam um importante momento histórico sob a delicada perspectiva de uma criança.

Onde comprar:
Estante Virtual | Saraiva | Travessa | Siciliano

6 comentários

    • Olá Soraya 😀
      Acho que você vai gostar dessa leitura, pois não é difícil se apaixonar por esse livro. Eu, particularmente, gostei muito de ter feito essa leitura, tão necessária para podermos entender um pouco do que se passou naqueles tempos de brutal genocídio. As ressalvas são apenas com relação ao estilo empregado no livro, como a própria autora o justifica no prefácio, mas esse detalhe não diminui o valor da obra. Super recomendo!
      Beijos!

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  1. Eu gostei muito desse livro, é muito tocante. Sobre a escrita, acho que foi necessário alterar, até porque a maioria dos leitores são adultos e tal, não senti um tom forçado, não. Gostei de ler os relatos, e me senti imensamente tocado com a história tão densa e real.
    Beijos
    Descobrindolivros.blogspot.com.br

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    • Olá Lucas 😀
      Também gostei muito de O Diário de Helga. Eu ainda não havia lido nenhum relato verídico de uma vítima do Holocausto judeu, e o fato de ser um depoimento real me comoveu bastante. O que achei um pouco contraditório (e apelativo) foi a descrição do início da ocupação nazista em Praga, pois, ao mesmo tempo que Helga e as outras pessoas pareciam não entender realmente quais seriam as terríveis consequências desse regime [há uma passagem em que Helga e suas amigas inocentemente estão felizes e sentem orgulho de usar as estrelas amarelas nas roupas como sinal de distinção], a narradora ainda criança diz frases como “um dia nossos nomes estarão nos livros de história”, ou faz uma referência à chacina da Idade Média. Além disso, Helga Weiss afirma que havia um “entorpecimento” das pessoas durante a guerra.
      Mas cada leitor tem uma experiência única, obrigada por partilhar a sua!
      Beijos!

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    • Olá, Agostinho! É uma excelente leitura, principalmente para quem se interessa por relatos de sobrevivência. A história de Helga e sua luta pela vida durante o Holocausto serve de inspiração para todos nós. Abraços!

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