1933 Foi um Ano Ruim, de John Fante

john

 Permaneci deitado na noite branca vendo o mau hálito escapar em pequenas nuvens. Sonhadores, éramos uma casa repleta de sonhadores. A vovó sonhava com sua casa na distante Abruzzi. O meu pai sonhava em ver-se livre das dívidas e empilhando tijolos lado a lado com seu filho. A minha mãe sonhava com a divina recompensa de um marido que não se ausentava de casa. Minha irmã Clara sonhava em tornar-se uma freira e o meu irmãozinho Frederick mal podia esperar para crescer e tornar-se um cowboy. Fechando os olhos eu pude ouvir o zumbido dos sonhos pela casa e então adormeci.
John Fante, 1933 foi um ano ruim, pág. 33.

Nesse ano, algumas leituras me marcaram muito. Uma delas foi a do livro Ao Sul de Lugar Nenhum (L&PM Pocket), meu primeiro contato com o escritor estadunidense Charles Bukowski. A princípio minha motivação veio do fato de nunca ter lido nada dele, muito menos dos ditos escritores da geração beat, e logo nas primeiras páginas entendi o porquê de seu sucesso. Depois dessa leitura, fui à procura de outros escritores dessa geração. E foi assim que dei início à leitura de 1933 foi um ano ruim, de John Fante, que inclusive é tido por Bukowski como o “precursor dos beats”.

No livro de Fante, conhecemos a história de Dominic Molise, 17 anos, filho de uma mãe extremamente religiosa e de um pedreiro que tenta a todo custo convencê-lo a seguir sua mesma profissão, indo contra o sonho de Dominic, que é ser um jogador de beisebol profissional. Não bastasse isso, ele não tem dinheiro sequer para pagar um teste de entrada num time de beisebol.

O primeiro capítulo do livro, em especial, é marcado pelos questionamentos de Molise em relação a Deus. Apesar dos vários questionamentos, acredito que as dúvidas dele sejam mais impulsionadas pelas frequentes e exaustivas orações que sua mãe faz. Para ele, as orações de sua mãe são em vão, pois não impedem que a pobreza afete sua família, muito menos os adultérios de seu pai.

Mas deixando de lado esses questionamentos, também inúteis na visão dele, Molise aposta todas as suas fichas no intitulado O Braço, que nada mais é do que seu braço esquerdo, tratado como se fosse uma pessoa. Dominic acredita que O Braço é uma dádiva que Deus lhe concedeu em meio a tantos problemas, e por isso não deixará que a incredulidade do seu pai acabe com seu sonho.

Quando li a sinopse do livro, logo imaginei que o pai de Dominic seria o “vilão” da trama. Após a leitura, concluí que ele não era de todo uma má pessoa. Talvez a descrença dele no filho seja mais uma maneira de preservá-lo do que de desanimá-lo. Aliás, quais seriam as chances de um filho (magro e baixo) de imigrantes italianos tornar-se um famoso arremessador de beisebol? Vale lembrar que o livro se passa em um período após a famosa Crise de 1929, que causou desemprego e miséria em vários países, o que acabou por influenciar a construção da trama e dos personagens, que sonham, mas perdem a esperança ao se depararem com sua condição.

john.fanteAlgo que me agradou muito no livro foi a escrita de John Fante, que escorre simples e magnífica ao mesmo tempo. É uma linguagem sem enfeites e repetição, que infelizmente não é tão comum na literatura. Não que o livro seja simplista, mas a maneira como ele conseguiu narrar o drama da família de Dominic (em menos de duzentas páginas) é algo que merece atenção.

1993 foi um ano ruim é o oitavo livro da obra de John Fante, que assim como a de Bukowski, é conhecida por seu cunho autobiográfico. Se na obra de Bukowski temos Henry Chinaski (alter ego do escritor), na de John Fante temos Arturo Bandini, personagem mais famoso do escritor que está presente em uma série de romances, na qual está incluso seu livro mais famoso, Pergunte ao Pó (1939), publicado pela editora José Olympio.

Por fim, indico o livro para quem gosta de literatura beat, ou que queira começar a ler algo dessa geração. Como o livro é curto e simples, será uma leitura rápida e, quiçá, prazerosa.

Curiosidades

  • Em 1955, John Fante foi diagnosticado que sofria de diabetes, doença que o deixaria cego em 1978. Ainda assim ditou para sua esposa (Joyce) seu último livro, Sonhos de Bunker Hill.
  • Na década de 80, Bukowski enviou uma cópia de Pergunte ao Pó para seu editor da Black Sparrow, avisando que só continuaria publicando suas obras pela editora caso a empresa relançasse o romance. Dito e feito: a Black Sparrow não relançou apenas Pergunte ao Pó, mas também todas as obras de Fante que estavam fora de catálogo, além de publicar escritos inéditos encontrados somente após a morte do autor.
  • Para ganhar dinheiro, Fante trabalhava como roteirista em Hollywood. Fez o roteiro para filmes como Full Of LifeJeanna EagelsMy Man and IThe Reluctant SaintSomething for a Lonely ManMy Six Loves e Walk On the Wild Side.

Ficha Técnica


johnTítulo:
 1933 foi um ano ruim
Título original: 1933 was a bad year
Autor(a): John Fante
Editora: L&PM Pocket
Tradução: Lúcia Brito
Edição: 2005 (2ª)
Ano da obra / Copyright: 1985
Páginas: 144
Sinopse: No fundo do estado norte-americano do Colorado, Dominic Molise, 17 anos, filho de um pedreiro e uma dona-de-casa temente a Deus, ambos imigrantes italianos, sonha em fugir do frio, ir para a Califórnia e tornar-se um grande arremessador de baseball, graças ao seu vigoroso braço esquerdo – dádiva concedida à miséria da sua vida. Enquanto isso não acontece, ele atura a avó ranzinza, os irmãos e o pai, que trai a sua mãe, pede segredo ao filho e ainda por cima desdenha dos seus sonhos esportivos, querendo transformá-lo em pedreiro como ele. Dominic freqüenta a casa de Kenny, filho de um dos homens mais ricos da cidade, e apaixona-se por Dorothy, a refinada irmã do amigo. 1933 é um ano ruim porque Dominic depara-se com as impossibilidades da vida humana e tem de escolher entre seu sonho dourado e a pequena existência que lhe é insuportável.

Onde comprar:
Estante Virtual | Saraiva | Cultura

2 comentários

  1. Ótimo post. Dentre as minhas metas ainda quero me aventurar nas obras de escritores da geração beat, e ler essa resenha me deixou animada. Nunca li Bukowski, apesar da curiosidade imensa que tenho.
    Com certeza este do Fante foi para a listinha dos desejados e vou procurá-lo na próxima ida ao sebo. Sabe que o título, em especial, me deixou curiosíssima. Gosto de títulos em forma de sentenças.

    Um beijo, Livro Lab

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    • Olá Aline,

      Que bom que gostou do meu post 😀 Acho que você iria curtir bastante os autores dessa geração. Eu mesmo me apaixonei a primeira vista (lida, rs). Hilário é que o Bukowski odiava ser tachado de beat, mas enfim… ele odiava tantas coisas.

      Eu também acho esse título muito interessante, tanto é que adquiri o livro sem nem saber do que se tratava, só movido pela curiosidade. Uma pena que o John Fante não seja um autor tão reconhecido mundialmente. Se bem que ele teve contemporâneos como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, William Faulkner e Henry Miller; isso enquanto ele tentava fazer sucesso. Então, tá explicado, rsrs.

      Beijos 😉

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