Paperboy, de Pete Dexter

Paperboy

 Para perceber certas coisas, é preciso estar deitado de costas, com lágrimas nos olhos e uma batata escaldante na boca. É bem capaz, eu acho, que você tenha que estar ferido para perceber qualquer coisa.
Pete Dexter, Paperboy, pág. 177.

Faz algum tempo que um amigo meu havia me passado o filme Obsessão (The Paperboy, 2012), mas, assim como muitos outros, ainda não tinha assistido. Logo em seguida descobri que a editora Novo Conceito lançaria o livro que deu origem ao filme. Fiquei curioso para lê-lo antes de assistir a adaptação, e foi o que fiz. Pela sinopse, imaginei que leria apenas um belo thriller policial, mas o autor realmente me surpreendeu.

Paperboy, de Pete Dexter, mexeu muito comigo. Primeiro porque, foi através dessa leitura que percebi quanto o trabalho dos jornalistas me interessa. Eles são os responsáveis por nos apresentar os acontecimentos de diversas áreas, e sempre esperamos que isso aconteça de forma honesta e que estes profissionais estejam sempre do lado da verdade. No livro, somos apresentados a personagens [jornalistas] honestos e outros nem tanto.

A história central gira em torno da investigação sobre o caso de Hillary Van Wetter, um homem que foi preso pelo homicídio de um xerife e está, agora, aguardando no corredor da morte. Tudo acontece porque Charlotte Bless começa a se corresponder com Hillary, acreditando na sua inocência e desejando casar-se com ele. Para tentar provar a inocência de Hillary, Charlotte pede apoio a dois repórteres investigativos do Miami Times – o ambicioso Yardley Acheman e o ingênuo e obsessivo Ward James. A trama é narrada em primeira pessoa por Jack James, irmão mais novo de Ward, que também ajudará no caso.

Tudo que está relacionado com o caso Wetter – provas, depoimentos, documentos – é inconsistente, o que faz com que os James iniciem uma nova investigação por conta própria. Isso os levará a várias histórias mal contadas e fatos falsificados, colocando a prova a amizade entre Ward e Yardley, e a frágil relação entre os irmãos James.

Se fosse listar os livros que mais mexeram com meu emocional, sem dúvida Paperboy entraria para esta lista. Fiquei um pouco comovido com a forma que o autor nos apresenta a condição humana em que os personagens vivem. Todos eles estão envolvidos em seus mundos individuais, sem se preocupar qual a consequência dos seus atos para os outros, ou até para eles mesmos. Nunca fiquei tão triste – embora este tenha sido um dos livros que mais me aproximou de uma possível realidade – ao ler algo relacionado ao mundo dos jornalistas, grupos editoriais e afins.

Dentre alguns pontos de discussão que podem ser levantados com a leitura desse livro, o posicionamento ético destes profissionais me chocou ao perceber quão baixo alguns são capazes de chegar para conseguir ser premiado com um Pulitzer. Ou quão frios outros conseguem ser para manter sua “imparcialidade” com a notícia, tentando apresentá-la tal qual ela aconteceu, mesmo que isso os faça serem ignorados pelos demais profissionais. Outros temas como racismo, sexualidade e liberdade feminina também são abordados no livro, mas sempre deixando aquela lacuna para que o leitor possa preenchê-la.

No que se refere a construção dos personagens, achei incrível a relação entre os irmãos James. Mesmo sendo personagens introspectivos, eles procuravam – a sua maneira – estar protegendo um ou outro. Os demais personagens também são bem construídos, carismáticos e com personalidade forte. Como a história se passa na década de 1960, somos presenteados com algumas descrições do comportamento das pessoas naquela época, dos seus medos e preconceitos. Mas ainda assim a história em si pode ser considerada atemporal.

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Algumas críticas do livro descrevem-no como um thriller psicológico, outros como um Romance Gótico. Ainda não tinha lido nada com essa segunda característica, mas acredito que ambas as classificações se dão pela densidade do texto e pelo poder de nos fazer refletir sobre assuntos polêmicos presentes no nosso dia-a-dia, mas que na maioria das vezes passam despercebidas, como os relacionamentos familiares e de trabalho.

Este é um livro que eu recomendo e muito. A edição está linda e, embora eu não curta capas de filme em livros, eu gostei bastante desta. Eu seria capaz de ficar lendo ele por horas e horas. Pena que acabou!

Comentem!

Curiosidades:

  • O filme foi adaptado por Lee Daniels e teve sua estreia mundial em Novembro de 2012, mas só chegou ao Brasil em Setembro de 2013. O elenco contava com a presença de John Cusack (Hillary Van Wetter), Matthew McConaughey (Ward James), Nicole Kidman (Charlotte Bless) e Zac Efron (Jack James).

Ficha Técnica

PaperboyTítulo: Paperboy
Título original: The Paperboy
Autor(a): Pete Dexter
Editora: Novo Conceito
Tradução: Ivar Panazzolo Junior
Edição: 2013 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1995
Páginas: 336
Sinopse: Hillary Van Wetter foi preso pelo homicídio de um xerife sem escrúpulos e está, agora, aguardando no corredor da morte. Enquanto espera pela sentença final, Van Wetter recebe cartas da atraente Charlotte Bless, que está determinada a libertá-lo para que eles possam se casar. Bless tentará provar a inocência de Wetter conquistando o apoio de dois repórteres investigativos de um jornal de Miami: o ambicioso Yardley Acheman e o ingênuo e obsessivo Ward James. As provas contra Wetter são inconsistentes e os escritores estão confiantes de que, se conseguirem expor Wetter como vítima de uma justiça caipira e racista, sua história será aclamada no mundo jornalístico. No entanto, histórias mal contadas e fatos falsificados levarão Jack James, o irmão mais novo de Ward, a fazer uma investigação por conta própria. Uma investigação que dará conta de um mundo que se sustenta sobre mentiras e segredos torpes.

Onde comprar:
Estante Virtual | Saraiva | Submarino | Cultura

2 comentários

  1. Caramba, José…
    Então é sobre isso que o livro fala??
    Se eu contar que achava que o livro era de romance, você acredita??! Viagem muito forte… Acho que essa capa rosa aí me enganou direitinho!! Fiquei imaginando alguma coisa como uma menina apaixonada pelo personagem de um livro! hehehehe
    Enfim… brincadeiras à parte, gostei muito do que escreveu sobre o livro! Parabéns.
    beijos
    Camis

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    • Realmente, Camila.
      Até parece impossível associar Thriller – Zac Afron – capa rosa. Mas é isso mesmo.
      E acredite, o livro é fantástico.
      Obrigado pelo elogio. Que bom que você gostou! 😉
      Beijos!

      Curtir

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